06/12/19

Artefactos ( 94 )


No ano do seu centenário ( completado no passado dia 24 de Março ) o decano dos poetas norte-americanos e, a par de Gary Snyder, o último representante da geração beat, lega-nos  em “Little Boy” o seu testemunho e testamento literário. Parte auto-biográfico, parte ficcionado, “Rapazinho” é um romance onde a escrita mágica de Lawrence Ferlinguetti percorre  décadas de memórias riquíssimas, cruzando simultaneamente  conhecimento com  sentimento. Uma verdadeira torrente de esplendor literário que convida ao maravilhamento.  


Outras livros publicados em Portugal



Tradução de José Palla e Carmo, Janeiro 1972

 

Tradução de André e Isabelle Lima, 1986


Tradução de Inês Dinis, 2016
 

03/12/19

Lost Nuggets ( 140 )


Shaun Davey and James Morris "Davey and Morris",  (York Records FYK 417, Lyric Insert ), UK, 1973

- "Town Crier"
- "You Come Now"
- "Blue Smoke"
- "The Toll"
- "Window"
- "Hey Susie"
- "Grape Street"
- "Banjo"
- "Ishkamir"

Shaun Davey ( canções, voz, teclas, guitarra acústica e eléctrica, harmónica e arranjos orquestrais ); James Morris ( canções, voz, baixo e violino ); com: Donal Lunny ( bazouki, banjo, e guitarra acústica ), Pat Halling ( violino ), Claire Denise ( violoncelo ), Geoff Srodzinski ( órgão ), Dave Lambert ( guitarra eléctrica ) e Richard Hudson ( bateria ).

Produção: Tony Hooper

Gravado em Nova Sound Studios, 1972.

Desenhos no encarte: Shaun Davey.

Capa: foto de Clancy De Roe

Uma pequena obra prima que passou despercebida. "Who Stole My Land" é uma das grandes canções da época.
 

26/11/19

Record Files ( 17 )


"Stranded", o segundo álbum do duo pop-psicadélico  Rod Edwards / Roger Hand ( ambos ex - Picadilly Line ) foi publicado no Reino Unido no inicio de 1971.

A capa original, da autoria de Klaus Voormann, foi na altura considerada excessiva para o mercado americano e, ainda que os temas e o alinhamento sejam os mesmos, a publicação do disco nos Estados Unidos recebeu um capa com um design menos enfático e mais patriótico.  


22/11/19

"Across The Great Divide, Getting It Together In The Country 1968-74"


Acerca da oportunidade dos temas e qualidade das canções presentes nas compilações propostas por David Wells, já foi quase tudo dito aqui no Atalho.

A propósito do recente "Across The Great Divide, Getting It Together In The Country 1968-74", ficam 4 das 64 notas explicativas ( enciclopédicas, diria ) que ilustram os títulos nele incluídos.





20/11/19

Heroes are hard to find ( 66 )


José Mário Branco

( 1942 - 2019 )

15/11/19

Bob Theil "So Far"





É escasso o interesse do Atalho por histórias de sucesso.
Não falta por aí quem delas fale amiúde, ainda que com motivações diversas.

Prefiro sempre as outras. Histórias anónimas, aquelas que ninguém conta.

Porque de todo as desconhecem ou, porque não são suficientemente mediáticas para delas retirarem dividendos.


Atrevo-me a citar Joyce Carol Oates  numa recente entrevista à revista “America”,  ( onde explica com uma notável clareza o quão complicado é hoje o mosaico social americano e o quanto e como as suas acções moldam o actual  mapa político ):“… Enquanto escritora, interessam-me as pessoas, mais do que as razões. As vidas extraordinárias das pessoas vulgares.

Bob Theil é natural da Escócia e apesar de ser o autor de um dos discos mais  intemporais produzidos no Reino Unido nos 80s - “So Far” –, permanece uma ilustre obscuridade.   


E no entanto, “So far” irradia humanidade e na forma, ronda a perfeição. A arquitectura sonora é tão bela quanto simples e as histórias são quotidianas. O difícil é ficar-lhe indiferente. Custa a entender como a generalidade dos seguidores de Pink Floyd, Leonard Cohen, Roy Harper ou Richard Thompson não lhe tenham prestado  atenção.

06/11/19

Bob Dylan "Travelin' Thru", The Bootleg Series Vol. 15, 1967-1969"



Para o Atalho, se outros motivos não houvesse, só o booklet, as histórias e os factos nele contados e as fotos -  as fotos -, bastariam para que “Travelin’ Thru” pudesse ser considerada uma das reedições do ano.

Mas há a música, sobretudo a música incluída no CD 1 deste conjunto de 3.

As versões alternativas e outtakes resultantes das gravações de “John Wesley Harding” e “Nashville Skyline” são algo de absolutamente necessário para qualquer Dylanófilo que preze o estatuto.

Em concreto, o take 3 de “All along the Watchtower”, bem como os takes 1 de “I Threw it all away” e “Western Road”.

Mas, acima de todos eles, a versão alternativa de “Lay Lady Lay”. Gravada a 13 de Fevereiro de 69 en Nashville com Wayne Moss na guitarra, Bob Wilson no órgão, Charlie McCoy no baixo e Kenneth Buttrey na bateria, soa hoje absolutamente superlativa, ao contrário da versão originalmente escolhida para o álbum, a qual, aos ouvidos do Atalho surge algo datada.

O CD 2 e parte do CD 3 são constituídos pelas famosas e atá agora inéditas “Johnny Cash Sessions”. No último são ainda incluídas duas interessantes outtakes das sessões de gravação de “Self Portrait”: “Ring of Fire” e “Folsom Prison Blues”.
Essencial Dylan, ainda que o período em apreço não seja exactamente consensual.



04/11/19

Lost Nuggets ( 139 )


Elliott Murphy "Night Lights" ( RCA Victor APL1 - 1318 ) USA 1976


- "Diamonds by the yard"
- "Deco dance"
- "Rich Girls"
- "Abraham Lincoln Continental"
- "Isadora's Dancers"
- "You never know what you're in for"
- "Lady Stilletto"
- "Lookin' for a hero"
- "Never as old as you"

Elliott Murphy: canções, voz, harmónica, guitarra acústica e eléctrica; com Jerry Harrison ( piano e órgão ), Andy Paley ( bateria e percussão ), Ernie Brroks  ( baixo ), Billy Joel ( piano ), Ralph Schuckett ( piano, órgão e acordeão ), Mike Braun ( bateria ), Doug Yule ( voz e guitarra eléctrica ), Harry Lookofsky ( violino ), Richard Davis ( baixo ), Steve Katz ( voz ) e Mark Horowitz ( guitarra slide ).

Produção de Steve Katz e Elliott Murphy

Capa: Conceito de Dennis Katz, Fotos de Michael Dakota, direcção de Acy Lehman..

17/10/19

Tim Buckley - Phantasmagoria in Two



Hoje, ao reescutar “Phantasmagoria in Two”, lembrei-me de uma história.

Por altura do Natal de 81, com 14 anos de atraso, foi pela primeira vez publicado em Portugal o álbum “Goodbye and Hello” de Tim Buckley.

Na época, a minha crónica publicada no “Jornal Se7e” terminava assim: “  mais do que um acto capaz de aplacar as carências dos nossos egos, a audição desta música é a única forma possível de pagar a dívida que desde então contraímos para com Tim Buckley.

A forma utilizada, que não o conteúdo, talvez fosse hoje diferente mas naquela redacção, durante cerca de duas semanas, fui o destinatário quase exclusivo do gozo generalizado e zombarias similares.  “Pagar uma dívida a Tim Buckley??”

Convicto, ria-me para dentro, encolhia os ombros e pensava: “não lhes chegava serem surdos, tinham de nascer desprovidos de alma.”

Passaram décadas e “Goodbye and Hello” permanece um dos meus discos de cabeceira. Meu e de muita outra gente,  grande parte dela nascida bastante depois do álbum ter sido publicado e que decerto concorda comigo.

O tempo permanece o melhor crítico musical que conheço. E um jovem que aos 19 anos, possui a maturidade e sensibilidade suficientes para escrever um texto como “Phantasmagoria in Two”, musicá-lo e interpretá-lo desta forma extraordinária, no mínimo, merece a eternidade.



12/10/19

"Sobreviventes, o Rock em Portugal na era do vinil"


Pedro de Freitas Branco

  ( Edição Marcador , Outubro 2019, 284 páginas )

09/10/19

Heroes are hard to find ( 65 )


Ginger Baker

( 1939 - 2019 )

06/10/19

"New Moon's In The Sky, The British Progressive Pop Sounds of 1970"



Começa a ser algo embaraçosa a falta de adjectivação para definir e/ou caracterizar as compilações produzidas por David Wells para a Grapefruit Records.  

Tudo nelas faz sentido; a linha do tempo, o enquadramento estético, a minucia do detalhe, o pormenor histórico, o quem é quem e em que momento se relacionou com …, tudo, mas mesmo tudo, satisfaz a curiosidade de quem se interessa por estas músicas e por este riquíssimo momento da cultura musical do Reino Unido.

New Moon’s In The Sky, The British Progressive Pop Sounds of 1970” é, de novo,  um manancial de informação superlativamente ilustrada por temas e informações curriculares muito difíceis de encontrar mesmo nos mais competentes livros ou brochuras já produzidos sobre a época.

Existem vários inéditos ou “alternate versions”, mas no conjunto destes 60 temas, é sobretudo a coerência do todo e a chamada de atenção para um determinado detalhe que sempre lá esteve mas a que nunca demos a devida atenção, o que mais impressiona e cativa.

02/10/19

Tom Petty and the Heartbreakers - Something Good Coming




Completam-se hoje dois anos após o desaparecimento físico de um dos mais talentosos trovadores da alma humana que tive a oportunidade de escutar.

A única rock star que nunca sentiu qualquer necessidade de o ser, fez provavelmente tantos ou mais quilómetros ao volante do meu carro quanto eu próprio.

Eternamente grato por isso e pela música rembrandtiana que nos legou.

A filigrana que acima deixo, é apenas um exemplo de como era mestre a perscrutar a alma humana com delicadeza e sensibilidade.

24/09/19

Heroes are hard to find ( 64 )


Robert Hunter

( 1941 - 2019 )

20/09/19

Richard Brautigan "Em Açucar de Melancia"




Hoje de manhã bateram à porta. Saberia dizer quem era pela forma como bateu, e porque a ouvi a atravessar a ponte.
Pisou a única tábua que faz barulho. Pisa-a sempre.  Nunca percebi como.  Tenho pensado muito sobre a razão pela qual pisa sempre a mesma tábua, como é que nunca lhe escapa, e agora está ali fora, a bater-me à porta.
Fiz de conta que não ouvi porque não me apeteceu…,  por fim parou de bater à porta e foi-se embora pela ponte e, é claro, pisou a mesma tábua: uma tábua comprida com os pregos desalinhados, construída há muitos anos e sem conserto possível, e depois desapareceu, e a tábua ficou em silêncio. Consigo atravessar a ponte centenas de vezes sem pisar aquela tábua .”
( Richard BrautiganEm Açucar de Melancia” )



O acto de abrir a caixa do correio despoleta sensações díspares, ambivalentes, naturalmente resultado do que encontramos lá dentro; anunciado ou não. Aguarda-se  sempre o melhor,  ainda que a prudência  aconselhe uma gestão criteriosa das expectativas.
Hoje foi um dia bom. Richard Brautigan depositou “Em Açucar de Melancia”( datado de 1968 ) na minha caixa de correio. É, creio, o segundo livro do autor a ser publicado por aqui, depois de “Uma mulher sem sorte” em 2003.
Colaborador esporádico dos Mad River, uma das bandas mais menosprezados da San Francisco dos 60s, Brautigan enquanto autor, foi arrumado na prateleira da contracultura e, talvez por mera comodidade, aparentado à geração “beat”.
E no entanto, a sua narrativa visual e satírica, terá poucos pontos de intersecção com o frenesi de um Kerouac, a truculência marginal de um Burroughs ou a iconoclastia militante de Ginsberg. Porventura talvez que a sofisticada tranquilidade magrebina de Paul Bowles ou a convicção espiritual de Gary Snyder  melhor se lhe colassem à pele.
Richard Brautigan decidiu deixar-nos no dia 16 de Setembro de 1984. Legou-nos uma obra vasta que talvez não fosse pior investigar mais a fundo, nestes tempos em que o obscurantismo cultural se mascara de conhecimento, tecnológico.




17/09/19

Heroes are hard to find ( 63 )



Ric Ocasek

( 1949 - 2019 )


03/09/19

Lost Nuggets ( 138 )


Bob Theil "So far" ( Prensagem Privada ) UK, 1982


- "Yesterdays"
- "Lady"
- "One day, Today or Tomorrow"
- "Moments Lost"
- "So far"
- "Westway"
- "Reflections"
- "Wind in the skies"
- "Who are you now?"
- "December 1918"


Bob Theil: canções, voz e guitarra acústica, com: Bill Power ( baixo ), Marc Brzezicki ( bateria e percussão ), Jed Marchant, Jimmy Litherland e Jim Covington  ( guitarra ), Steve Hall ( teclas ). 

28/08/19

Sun Kil Moon - 'Carry Me Ohio'



Já se escreveram centenas de ensaios, livros, sobre canções menos interessantes.

E não obstante, desde o genial break de abertura da bateria que nos cativa a atenção, passando pelo desenvolvimento metronómico da percussão; pelo crescimento elíptico e só aparentemente displicente das guitarras; pelas pinceladas cirúrgicas do xilofone; pela voz, a um tempo hipnótica e nostálgica de Kozelek; pela subliminar referência do regresso a um lugar familiar, que conforta, acolhe e protege, após experiências díspares em espaços inamistosos, algures onde as fronteiras entre o emocional e o racional se interceptam … tudo, mas mesmo tudo, se aproxima do paradigma da perfeição em “Carry Me Ohio”.

Vidas inteiras cabem dentro destes 6 minutos e 14 segundos.

Escuta-se, da mesma forma que se mergulha na ficção de Sam Shepard ou se olha, vendo, alguns dos filmes de Terrence Malick.
 

27/08/19

Heroes are hard to find ( 62 )


Neal Casal

( 1968 - 2019 )

26/08/19

Eluvium "Pianoworks"



Há realidades que nunca mudam.

Matthew Robert Cooper, a solo ou sob o ‘nom de plume’ Eluvium faz, e muito provavelmente fará, música que permanecerá muito para além da espuma dos dias.

Sublinhando a ‘bold’ a transparência do tempo, os discos que vai criando são elegias à intemporalidade. E, no caso em apreço, pouco importa se opta pelo classicismo travestido de melancolia ou, se ao contrário, busca na linguagem neo-clássica formas de expressão mais próximas de contemporaneidade.

Quando se escutam os primeiros acordes de “Recital” – logo a abrir o novo “Pianoworks” – tudo pára, automaticamente. Como se, em redor, a vida deixasse de importar e o mundo se quedasse refém daquele momento de singular beleza; um pouco à semelhança da forma como a câmara de Terrence Malick faz parar a marcha do tempo ao decidir “pousar” sobre um detalhe  que sempre lá esteve, mas que só o realizador logrou ver.

Pianoworks” é na essência o repositório de treze espaços silenciosos, mágicos na sua maioria, hipnóticos todos. Um disco de uma beleza invulgar e que antecipa aqueles fins de tarde outonais que convocam a tranquilidade e a introspecção.

Nota: a edição deluxe inclui um segundo CD onde Matthew Cooper reinventa no piano solo, 13 temas já publicados  em álbuns anteriores.