Acerca da oportunidade dos temas e qualidade das canções presentes nas compilações propostas por David Wells, já foi quase tudo dito aqui no Atalho.
A propósito do recente "Across The Great Divide, Getting It Together In The Country 1968-74", ficam 4 das 64 notas explicativas ( enciclopédicas, diria ) que ilustram os títulos nele incluídos.
É escasso o interesse do Atalho por histórias de sucesso.
Não falta por aí quem delas fale amiúde, ainda que com
motivações diversas.
Prefiro sempre as outras. Histórias anónimas, aquelas que
ninguém conta.
Porque de todo as desconhecem ou, porque não são
suficientemente mediáticas para delas retirarem dividendos.
Atrevo-me a citar Joyce
Carol Oatesnuma recente entrevista
à revista “America”, ( onde explica com
uma notável clareza o quão complicado é hoje o mosaico social americano e o quanto
e como as suas acções moldam o actual mapa político ):“… Enquanto escritora, interessam-me as pessoas, mais do que as razões. As
vidas extraordinárias das pessoas vulgares”.
Bob Theil é natural da Escócia e apesar de ser
o autor de um dos discos maisintemporais
produzidos no Reino Unido nos 80s - “So Far” –, permanece uma ilustre
obscuridade.
E no entanto, “So far” irradia humanidade e na
forma, ronda a perfeição. A arquitectura sonora é tão bela quanto simples e as
histórias são quotidianas. O difícil é ficar-lhe indiferente. Custa a entender
como a generalidade dos seguidores de Pink
Floyd, Leonard Cohen, Roy Harper ou
Richard Thompson não lhe tenham prestado atenção.
Para o Atalho, se outros motivos não houvesse, só o booklet,
as histórias e os factos nele contados e as fotos - as fotos -, bastariam para que “Travelin’
Thru” pudesse ser considerada uma das reedições do ano.
Mas há a música, sobretudo a música incluída no CD 1 deste
conjunto de 3.
As versões alternativas e outtakes resultantes das gravações
de “John
Wesley Harding” e “Nashville Skyline” são algo de
absolutamente necessário para qualquer Dylanófilo que preze o estatuto.
Em concreto,
o take 3 de “All along the Watchtower”, bem como os takes 1 de “I Threw it all
away” e “Western Road”.
Mas, acima de todos eles, a versão alternativa de “Lay Lady
Lay”. Gravada a 13 de Fevereiro de 69 en Nashville com Wayne Moss na guitarra,
Bob Wilson no órgão, Charlie McCoy no baixo e Kenneth Buttrey na bateria, soa hoje
absolutamente superlativa, ao contrário da versão originalmente escolhida para
o álbum, a qual, aos ouvidos do Atalho surge algo datada.
O CD 2 e parte do CD 3 são constituídos pelas famosas e atá
agora inéditas “Johnny Cash Sessions”. No último são ainda incluídas duas
interessantes outtakes das sessões de gravação de “Self Portrait”: “Ring of
Fire” e “Folsom Prison Blues”.
Essencial Dylan,
ainda que o período em apreço não seja exactamente consensual.
Elliott Murphy "Night Lights" ( RCA Victor APL1 - 1318 ) USA 1976
- "Diamonds by the yard" - "Deco dance"
- "Rich Girls"
- "Abraham Lincoln Continental"
- "Isadora's Dancers"
- "You never know what you're in for"
- "Lady Stilletto"
- "Lookin' for a hero"
- "Never as old as you"
Elliott Murphy: canções, voz, harmónica, guitarra acústica e eléctrica; com Jerry Harrison ( piano e órgão ), Andy Paley ( bateria e percussão ), Ernie Brroks ( baixo ), Billy Joel ( piano ), Ralph Schuckett ( piano, órgão e acordeão ), Mike Braun ( bateria ), Doug Yule ( voz e guitarra eléctrica ), Harry Lookofsky ( violino ), Richard Davis ( baixo ), Steve Katz ( voz ) e Mark Horowitz ( guitarra slide ).
Produção de Steve Katz e Elliott Murphy
Capa: Conceito de Dennis Katz, Fotos de Michael Dakota, direcção de Acy Lehman..
Hoje, ao reescutar “Phantasmagoria in Two”, lembrei-me de uma
história.
Por altura do Natal de 81, com 14 anos de atraso, foi pela
primeira vez publicado em Portugal o álbum “Goodbye and Hello” de Tim Buckley.
Na época, a minha crónica publicada no “Jornal Se7e” terminava assim: “… mais do que um acto capaz de
aplacar as carências dos nossos egos, a audição desta música é a única forma
possível de pagar a dívida que desde então contraímos para com Tim Buckley.”
A forma utilizada, que não o conteúdo, talvez fosse hoje
diferente mas naquela redacção, durante cerca de duas semanas, fui o
destinatário quase exclusivo do gozo generalizado e zombarias similares.“Pagar uma dívida a Tim Buckley??”
Convicto, ria-me para dentro, encolhia os ombros e pensava:
“não lhes chegava serem surdos, tinham de nascer desprovidos de alma.”
Passaram décadas e “Goodbye and Hello” permanece um dos
meus discos de cabeceira. Meu e de muita outra gente,grande parte dela nascida bastante depois do
álbum ter sido publicado e que decerto concorda comigo.
O tempo permanece o melhor crítico musical que conheço. E um
jovem que aos 19 anos, possui a maturidade e sensibilidade suficientes para
escrever um texto como “Phantasmagoria in Two”, musicá-lo e interpretá-lo desta
forma extraordinária, no mínimo, merece a eternidade.
Começa a ser algo embaraçosa a falta de adjectivação para
definir e/ou caracterizar as compilações produzidas por David Wells para a Grapefruit Records.
Tudo nelas faz sentido; a linha do tempo, o enquadramento estético,
a minucia do detalhe, o pormenor histórico, o quem é quem e em que momento se
relacionou com …, tudo, mas mesmo tudo, satisfaz a curiosidade de quem se
interessa por estas músicas e por este riquíssimo momento da cultura musical do
Reino Unido.
“New Moon’s In The Sky, The British Progressive Pop Sounds of 1970”
é, de novo, um manancial de informação
superlativamente ilustrada por temas e informações curriculares muito difíceis de
encontrar mesmo nos mais competentes livros ou brochuras já produzidos sobre a época.
Existem vários inéditos ou “alternate versions”, mas no
conjunto destes 60 temas, é sobretudo a coerência do todo e a chamada de
atenção para um determinado detalhe que sempre lá esteve mas a que nunca demos a
devida atenção, o que mais impressiona e cativa.
Completam-se hoje dois anos após o desaparecimento físico de um dos mais talentosos trovadores da alma humana que tive a oportunidade de escutar.
A única rock star que nunca sentiu qualquer necessidade de o ser, fez provavelmente tantos ou mais quilómetros ao volante do meu carro quanto eu próprio.
Eternamente grato por isso e pela música rembrandtiana que nos legou.
A filigrana que acima deixo, é apenas um exemplo de como era mestre a perscrutar a alma humana com delicadeza e sensibilidade.
“Hoje de manhã bateram à porta.
Saberia dizer quem era pela forma como bateu, e porque a ouvi a atravessar a
ponte.
Pisou a única tábua que faz barulho. Pisa-a sempre.Nunca percebi como. Tenho pensado muito sobre a razão pela qual
pisa sempre a mesma tábua, como é que nunca lhe escapa, e agora está ali fora,
a bater-me à porta. Fiz de conta que não ouvi porque
não me apeteceu…,por fim parou de bater
à porta e foi-se embora pela ponte e, é claro, pisou a mesma tábua: uma tábua
comprida com os pregos desalinhados, construída há muitos anos e sem conserto
possível, e depois desapareceu, e a tábua ficou em silêncio. Consigo atravessar
a ponte centenas de vezes sem pisar aquela tábua .”
( Richard Brautigan “Em Açucar de Melancia” )
O acto de abrir a caixa do
correio despoleta sensações díspares, ambivalentes, naturalmente resultado do
que encontramos lá dentro; anunciado ou não. Aguarda-sesempre o melhor,ainda que a prudênciaaconselhe uma gestão criteriosa das
expectativas.
Hoje foi um dia bom. Richard
Brautigan depositou “Em Açucar de Melancia”( datado de 1968 ) na minha caixa de
correio. É, creio, o segundo livro do autor a ser publicado por aqui, depois de
“Umamulher sem sorte” em 2003.
Colaborador esporádico dos Mad
River, uma das bandas mais menosprezados da San Francisco dos 60s, Brautigan
enquanto autor, foi arrumado na prateleira da contracultura e, talvez por mera
comodidade, aparentado à geração “beat”.
E no entanto, a sua narrativa
visual e satírica, terá poucos pontos de intersecção com o frenesi de um
Kerouac, a truculência marginal de um Burroughs ou a iconoclastia militante de
Ginsberg. Porventura talvez que a sofisticada tranquilidade magrebina de Paul
Bowles ou a convicção espiritual de Gary Snydermelhor se lhe colassem à pele.
Richard Brautigan decidiu
deixar-nos no dia 16 de Setembro de 1984. Legou-nos uma obra vasta que talvez
não fosse pior investigar mais a fundo, nestes tempos em que o obscurantismo cultural
se mascara de conhecimento, tecnológico.
“We are buried beneath the weight of information, which is being confused with knowledge; quantity is being confused with abundance and wealth with happiness. We are monkeys with money and guns.” ( Tom Waits )
Arquivo do blogue
COMPAGNONS DE ROUTE
Wind "Morning" ( CBS S 65 007 ) Germany, 1972
ESCAPARATE
Reedição de um dos discos míticos do psicadelismo canadiano.
LIVRARIA
"La France Underground 1965 - 1979 Free Jazz Rock Pop Le Temps des Utopies" Serge Loupien, Editions Rivage, 2018