Completam-se hoje dois anos após o desaparecimento físico de um dos mais talentosos trovadores da alma humana que tive a oportunidade de escutar.
A única rock star que nunca sentiu qualquer necessidade de o ser, fez provavelmente tantos ou mais quilómetros ao volante do meu carro quanto eu próprio.
Eternamente grato por isso e pela música rembrandtiana que nos legou.
A filigrana que acima deixo, é apenas um exemplo de como era mestre a perscrutar a alma humana com delicadeza e sensibilidade.
“Hoje de manhã bateram à porta.
Saberia dizer quem era pela forma como bateu, e porque a ouvi a atravessar a
ponte.
Pisou a única tábua que faz barulho. Pisa-a sempre.Nunca percebi como. Tenho pensado muito sobre a razão pela qual
pisa sempre a mesma tábua, como é que nunca lhe escapa, e agora está ali fora,
a bater-me à porta. Fiz de conta que não ouvi porque
não me apeteceu…,por fim parou de bater
à porta e foi-se embora pela ponte e, é claro, pisou a mesma tábua: uma tábua
comprida com os pregos desalinhados, construída há muitos anos e sem conserto
possível, e depois desapareceu, e a tábua ficou em silêncio. Consigo atravessar
a ponte centenas de vezes sem pisar aquela tábua .”
( Richard Brautigan “Em Açucar de Melancia” )
O acto de abrir a caixa do
correio despoleta sensações díspares, ambivalentes, naturalmente resultado do
que encontramos lá dentro; anunciado ou não. Aguarda-sesempre o melhor,ainda que a prudênciaaconselhe uma gestão criteriosa das
expectativas.
Hoje foi um dia bom. Richard
Brautigan depositou “Em Açucar de Melancia”( datado de 1968 ) na minha caixa de
correio. É, creio, o segundo livro do autor a ser publicado por aqui, depois de
“Umamulher sem sorte” em 2003.
Colaborador esporádico dos Mad
River, uma das bandas mais menosprezados da San Francisco dos 60s, Brautigan
enquanto autor, foi arrumado na prateleira da contracultura e, talvez por mera
comodidade, aparentado à geração “beat”.
E no entanto, a sua narrativa
visual e satírica, terá poucos pontos de intersecção com o frenesi de um
Kerouac, a truculência marginal de um Burroughs ou a iconoclastia militante de
Ginsberg. Porventura talvez que a sofisticada tranquilidade magrebina de Paul
Bowles ou a convicção espiritual de Gary Snydermelhor se lhe colassem à pele.
Richard Brautigan decidiu
deixar-nos no dia 16 de Setembro de 1984. Legou-nos uma obra vasta que talvez
não fosse pior investigar mais a fundo, nestes tempos em que o obscurantismo cultural
se mascara de conhecimento, tecnológico.
- "Yesterdays"
- "Lady"
- "One day, Today or Tomorrow"
- "Moments Lost"
- "So far"
- "Westway"
- "Reflections"
- "Wind in the skies"
- "Who are you now?"
- "December 1918"
Bob Theil: canções, voz e guitarra acústica, com: Bill Power ( baixo ), Marc Brzezicki ( bateria e percussão ), Jed Marchant, Jimmy Litherland e Jim Covington ( guitarra ), Steve Hall ( teclas ).
Já se escreveram centenas de ensaios, livros, sobre canções menos interessantes.
E não obstante, desde o genial break de abertura da bateria que nos cativa a atenção, passando pelo desenvolvimento metronómico da percussão; pelo crescimento elíptico e só aparentemente displicente das guitarras; pelas pinceladas cirúrgicas do xilofone; pela voz, a um tempo hipnótica e nostálgica de Kozelek; pela subliminar referência do regresso a um lugar familiar, que conforta, acolhe e protege, após experiências díspares em espaços inamistosos, algures onde as fronteiras entre o emocional e o racional se interceptam … tudo, mas mesmo tudo, se aproxima do paradigma da perfeição em “Carry Me Ohio”.
Vidas inteiras cabem dentro destes 6 minutos e 14 segundos.
Escuta-se, da mesma forma que se mergulha na ficção de Sam Shepard ou se olha, vendo, alguns dos filmes de Terrence Malick.
Matthew Robert Cooper, a solo ou sob o ‘nom de plume’ Eluvium faz, e muito provavelmente
fará, música que permanecerá muito para além da espuma dos dias.
Sublinhando a ‘bold’ a transparência do tempo, os discos que vai
criando são elegias à intemporalidade. E, no caso em apreço, pouco importa se
opta pelo classicismo travestido de melancolia ou, se ao contrário, busca na
linguagem neo-clássica formas de expressão mais próximas de contemporaneidade.
Quando se escutam os primeiros acordes de “Recital” – logo a
abrir o novo “Pianoworks” – tudo pára, automaticamente. Como se, em redor, a vida
deixasse de importar e o mundo se quedasse refém daquele momento de singular
beleza; um pouco à semelhança da forma como a câmara de Terrence Malick faz
parar a marcha do tempo ao decidir “pousar” sobre um detalheque sempre lá esteve, mas que só o realizador
logrou ver.
“Pianoworks” é na essência o repositório de treze espaços silenciosos,
mágicos na sua maioria, hipnóticos todos. Um disco de uma beleza invulgar e que
antecipa aqueles fins de tarde outonais que convocam a tranquilidade e
a introspecção.
Nota: a edição deluxe inclui um
segundo CD onde Matthew Cooper reinventa no piano solo, 13 temas já publicados em álbuns anteriores.
Na partida de Peter Fonda, não irei mencionar o icónico "Easy Rider", filme cuja realização de resto não se deve a Fonda mas a Dennis Hopper.
Ao invés, recupero uma frase do actor que relembro com frequência: "We have always had Joy".
Emocionado, proferiu-a num momento mágico e de rara sensibilidade quando, também perto do seu fim, visitou o amigo Bruce Langhorne, esse músico tão brilhante e influente quanto deserdado da sorte. "Mr. Tambourine Man" como Dylan o havia imortalizado anos antes.
Langhorge é aliás o autor da banda sonora "The Hired Hand", filme que Peter Fonda escreveu, realizou e protagonizou com Warren Oates em 1971. Algo muito próximo de um anti-western, olimpicamente ignorado na época e ainda hoje pouco reconhecido.
Recentemente perguntaram-me qual o real significado de “Englishness” na música. Estranhamente, hesitei.
E no entanto convivo há décadas paredes meias com esse sentimento peculiar,
onde se compaginam características tão diversas como sentido de humor, respeito
pela tradição, inteligência e estoicismo.
Em simultâneo concreto e
abstracto é, na sua magnitude e ambivalência, um estado de espírito difícil de
definir com exactidão por um latino. Imagino que seja algo de muito parecido
como tentar explicar a “saudade” a um inglês.
Socorri-me primeiramente de Edward Elgar para ilustrar a tentativa
de explicação. Depois ocorreu-me que talvez Robert Kirby ( 1948 – 2009 ) pudesse ser um exemplo mais próximo da
contemporaneidade. Uma parcela significativa dos seus arranjos e orquestrações
definem as virtudes daquela identidade cultural na perfeição.
Hoje, vista ao retrovisor, a
impressionante lista de músicos com quem colaborou, tem tradução no que de
melhor a música inglesa ofereceu entre 1969 e 2009. Nick Drake, ShelaghMcDonald,
John Cale, Spriguns, Richard Thompson ou Sandy Denny são disso exemplos perenes.
“We are buried beneath the weight of information, which is being confused with knowledge; quantity is being confused with abundance and wealth with happiness. We are monkeys with money and guns.” ( Tom Waits )
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COMPAGNONS DE ROUTE
Wind "Morning" ( CBS S 65 007 ) Germany, 1972
ESCAPARATE
Reedição de um dos discos míticos do psicadelismo canadiano.
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"La France Underground 1965 - 1979 Free Jazz Rock Pop Le Temps des Utopies" Serge Loupien, Editions Rivage, 2018