20/09/19

Richard Brautigan "Em Açucar de Melancia"




Hoje de manhã bateram à porta. Saberia dizer quem era pela forma como bateu, e porque a ouvi a atravessar a ponte.
Pisou a única tábua que faz barulho. Pisa-a sempre.  Nunca percebi como.  Tenho pensado muito sobre a razão pela qual pisa sempre a mesma tábua, como é que nunca lhe escapa, e agora está ali fora, a bater-me à porta.
Fiz de conta que não ouvi porque não me apeteceu…,  por fim parou de bater à porta e foi-se embora pela ponte e, é claro, pisou a mesma tábua: uma tábua comprida com os pregos desalinhados, construída há muitos anos e sem conserto possível, e depois desapareceu, e a tábua ficou em silêncio. Consigo atravessar a ponte centenas de vezes sem pisar aquela tábua .”
( Richard BrautiganEm Açucar de Melancia” )



O acto de abrir a caixa do correio despoleta sensações díspares, ambivalentes, naturalmente resultado do que encontramos lá dentro; anunciado ou não. Aguarda-se  sempre o melhor,  ainda que a prudência  aconselhe uma gestão criteriosa das expectativas.
Hoje foi um dia bom. Richard Brautigan depositou “Em Açucar de Melancia”( datado de 1968 ) na minha caixa de correio. É, creio, o segundo livro do autor a ser publicado por aqui, depois de “Uma mulher sem sorte” em 2003.
Colaborador esporádico dos Mad River, uma das bandas mais menosprezados da San Francisco dos 60s, Brautigan enquanto autor, foi arrumado na prateleira da contracultura e, talvez por mera comodidade, aparentado à geração “beat”.
E no entanto, a sua narrativa visual e satírica, terá poucos pontos de intersecção com o frenesi de um Kerouac, a truculência marginal de um Burroughs ou a iconoclastia militante de Ginsberg. Porventura talvez que a sofisticada tranquilidade magrebina de Paul Bowles ou a convicção espiritual de Gary Snyder  melhor se lhe colassem à pele.
Richard Brautigan decidiu deixar-nos no dia 16 de Setembro de 1984. Legou-nos uma obra vasta que talvez não fosse pior investigar mais a fundo, nestes tempos em que o obscurantismo cultural se mascara de conhecimento, tecnológico.




17/09/19

Heroes are hard to find ( 63 )



Ric Ocasek

( 1949 - 2019 )


03/09/19

Lost Nuggets ( 138 )


Bob Theil "So far" ( Prensagem Privada ) UK, 1982


- "Yesterdays"
- "Lady"
- "One day, Today or Tomorrow"
- "Moments Lost"
- "So far"
- "Westway"
- "Reflections"
- "Wind in the skies"
- "Who are you now?"
- "December 1918"


Bob Theil: canções, voz e guitarra acústica, com: Bill Power ( baixo ), Marc Brzezicki ( bateria e percussão ), Jed Marchant, Jimmy Litherland e Jim Covington  ( guitarra ), Steve Hall ( teclas ). 

28/08/19

Sun Kil Moon - 'Carry Me Ohio'



Já se escreveram centenas de ensaios, livros, sobre canções menos interessantes.

E não obstante, desde o genial break de abertura da bateria que nos cativa a atenção, passando pelo desenvolvimento metronómico da percussão; pelo crescimento elíptico e só aparentemente displicente das guitarras; pelas pinceladas cirúrgicas do xilofone; pela voz, a um tempo hipnótica e nostálgica de Kozelek; pela subliminar referência do regresso a um lugar familiar, que conforta, acolhe e protege, após experiências díspares em espaços inamistosos, algures onde as fronteiras entre o emocional e o racional se interceptam … tudo, mas mesmo tudo, se aproxima do paradigma da perfeição em “Carry Me Ohio”.

Vidas inteiras cabem dentro destes 6 minutos e 14 segundos.

Escuta-se, da mesma forma que se mergulha na ficção de Sam Shepard ou se olha, vendo, alguns dos filmes de Terrence Malick.
 

27/08/19

Heroes are hard to find ( 62 )


Neal Casal

( 1968 - 2019 )

26/08/19

Eluvium "Pianoworks"



Há realidades que nunca mudam.

Matthew Robert Cooper, a solo ou sob o ‘nom de plume’ Eluvium faz, e muito provavelmente fará, música que permanecerá muito para além da espuma dos dias.

Sublinhando a ‘bold’ a transparência do tempo, os discos que vai criando são elegias à intemporalidade. E, no caso em apreço, pouco importa se opta pelo classicismo travestido de melancolia ou, se ao contrário, busca na linguagem neo-clássica formas de expressão mais próximas de contemporaneidade.

Quando se escutam os primeiros acordes de “Recital” – logo a abrir o novo “Pianoworks” – tudo pára, automaticamente. Como se, em redor, a vida deixasse de importar e o mundo se quedasse refém daquele momento de singular beleza; um pouco à semelhança da forma como a câmara de Terrence Malick faz parar a marcha do tempo ao decidir “pousar” sobre um detalhe  que sempre lá esteve, mas que só o realizador logrou ver.

Pianoworks” é na essência o repositório de treze espaços silenciosos, mágicos na sua maioria, hipnóticos todos. Um disco de uma beleza invulgar e que antecipa aqueles fins de tarde outonais que convocam a tranquilidade e a introspecção.

Nota: a edição deluxe inclui um segundo CD onde Matthew Cooper reinventa no piano solo, 13 temas já publicados  em álbuns anteriores.

18/08/19

"We have always had JOY", Bruce Langhorne, Peter Fonda




Na partida de Peter Fonda, não irei mencionar o icónico "Easy Rider", filme cuja realização de resto não se deve a Fonda mas a Dennis Hopper.

Ao invés, recupero uma frase do actor que relembro com frequência: "We have always had Joy".

Emocionado, proferiu-a num momento mágico  e de rara sensibilidade quando, também perto do seu fim, visitou o amigo Bruce Langhorne, esse músico tão brilhante e influente quanto deserdado da sorte. "Mr. Tambourine Man" como Dylan o havia imortalizado anos antes.

Langhorge é aliás o autor da banda sonora "The Hired Hand", filme que Peter Fonda escreveu, realizou e protagonizou com Warren Oates em 1971. Algo muito próximo de um anti-western, olimpicamente ignorado na época  e ainda hoje pouco reconhecido.

"We have always had joy!"





29/07/19

Robert Kirby



Recentemente  perguntaram-me qual o real significado de “Englishness” na música. Estranhamente, hesitei. E no entanto convivo há décadas paredes meias com esse sentimento peculiar, onde se compaginam características tão diversas como sentido de humor, respeito pela tradição, inteligência e estoicismo.

Em simultâneo concreto e abstracto é, na sua magnitude e ambivalência, um estado de espírito difícil de definir com exactidão por um latino. Imagino que seja algo de muito parecido como tentar explicar a “saudade” a um inglês.

Socorri-me primeiramente de Edward Elgar para ilustrar a tentativa de explicação. Depois ocorreu-me que talvez Robert Kirby ( 1948 – 2009 ) pudesse ser um exemplo mais próximo da contemporaneidade. Uma parcela significativa dos seus arranjos e orquestrações definem as virtudes daquela identidade cultural na perfeição.

Hoje, vista ao retrovisor, a impressionante lista de músicos com quem colaborou, tem tradução no que de melhor a música inglesa ofereceu entre 1969 e 2009. Nick Drake, Shelagh McDonald, John Cale, Spriguns, Richard Thompson ou Sandy Denny são disso exemplos perenes.


23/07/19

Artefactos ( 93 )




Fotos alternativas para o álbum "Dèjá Vu"

20/07/19

Heroes ara hard to find ( 61 )


Bob Frank

( 1944 - 2019 )

19/07/19

Artefactos ( 92 )


( 1990 )


( 1992 )


( 1993 )


( 1994 )


( 2000 )

Publicadas na década de 90 do passado século pela Borderline Productions, quando não existiam nem internet nem Wikipedia, estas cinco publicações, apesar dos lapsos e omissões, permanecem ainda hoje como um extraordinário manancial de informação para aqueles que como o Atalho se interessam e investigam a música norte americana do último terço daquele século.

Prosaicas e quase artesanais, são fruto do "labour of love" de Hugh MacLean e Vernon Joynson. Nunca reeditadas e impossíveis de encontrar por valores decentes nos dias que correm. 

12/07/19

Lost Nuggets ( 137 )


"Silk "Smooth as Raw" ( ABC records ABCS 694 ) USA, 1969

- "Introduction"
- "Foreign Trip"
- "Long Haired Boy" ( Tim Rose )
- "Not a Whole Lot I Can Do"
- "Custody" ( Steve Karliski / Larry Kolber )
-  "Scottish Thing"
- "Skitzo Blues"
- "Hours"
- "Walk In My Mind"
- "Come On Down Girl"
- "For All Time"

Silk: Courtney Johns ( canções e bateria ), Michael Gee ( canções, voz e baixo ), Chris Johns ( guitarras ) e Randy Sabo ( canções, voz e teclas ).
Metais e cordas: Bert DeCoteaux

Capa: foto de Ellen McNeilly; design: John Spasato e Steve Makas; Pintura: Courtney Johns.
Produção, arranjos e canções: Bill Szymczyk.