03/07/17
Jardins do Paraíso ( LIV )
No inicio dos 70s, Larry Ray e Bill Szymczyk, dois
profissionais dos estúdios californianos, tomaram uma decisão pouco comum; mudaram-se
para Denver no Colorado.
A ideia de ambos era fugir à sofisticação de Los Angeles e
criar uma corrente de “singer songwriters” de menor pendor elitista.
Lançaram a Tumbleweed
Records e entre 1971 e 1973 publicaram nove álbuns de originais, um par de
singles e um sampler da editora.
De entre estes, e porque sem dúvida o mereceram, a história
guardou sobretudo os álbuns homónimos de Arthur
Gee, Danny Holien e Michael Stanley, bem como “Abyss”
de Robb Kunkel e “The
man who ate the plant” de Pete
McCabe.
Todavia, alguma ingenuidade e sócios muito pouco
recomendáveis ( aka Mafia ) fizeram com que o projecto abortasse precocemente.
“Sing it high, Sing it low” conta a respectiva história e convida
a uma investigação mais aprofundada deste legado esquecido.
27/06/17
Lost Nuggets ( 114 )
Bob Bunting "You've got to go down this way" ( Transatlantic TRA 166 ) UK, 1968
- "You've got to go down this way"
- "Blues for Dominique"
- "Dynham Road"
- "Dulwich Song"
- "Once for Anna"
- "Bobby's Blues again"
- "Little Lady sometimes"
- "Soliloquy"
- "Cry from the inside"
- "Dreaming again"
- "Little soon lover"
- "Rocking horse blues"
Bob Bunting: canções e voz
Arranjos e direcção musical: Tony Visconti
Produção: Nathan Joseph
Capa: Fotos e design de Brian Shuel
16/06/17
Bardo Pond "Under the pines"
Existem algumas bandas, poucas, que não se explicam. São!
Os Bardo Pond nunca
necessitaram de estar permanentemente na montra para manter o estatuto. São uma
espécie de “anomalia”, mesmo no underground onde se movimentam. Gravam apenas
quando têm algo de novo para dizer e é raro desiludirem. Deles espera-se sempre um êxtase cósmico,
resultado da fusão de elementos oriundos do jazz, avant-garde, rock e free-noise.
“Under the pines”, é a mais recente expressão onírica daquele
processo. Como é hábito no quinteto da Pennsylvania não existem limites, e o
álbum é mais uma intensa experiência psicadélica.
A tempestade sonora que varre “Crossover” dinamita as expectativas mais optimistas; “Out of reach” altera
o rumo e assume-se como uma “big sky song” com a voz de Isobel Sollenberger a
desafiar a perfeição. Diversa, “Moment to moment” toma a forma de uma “electric
porch song”, desenhada por uma guitarra acústica e colorida pela flauta de
Isobel. Lisérgico, o tema título, é o que mais se aproxima da matriz Bardo Pond, enquanto “Affigy” se rende
a um estranho bucolismo.
A escutar no silêncio, por paradoxal que possa parecer.
09/06/17
Toby Hay "The Gathering"
De Rhayader, uma pequena comunidade com cerca de 2000
habitantes situada no condado de Powys, País de Gales, chega “The Gathering”, o álbum de estreia do guitarrista Toby Hay.
Completamente instrumental, o disco escuta-se como se
contemplaria uma paisagem rural galesa.
Estrategicamente localizado entre a tradição musical britânica e a
escola do finger picking americana, Toby Hay transporta para as melodias que escreve,
décadas, séculos de um património musical, sendo que é virtualmente impossível
dissociar estes sons do meio musical e social de onde são originários.
Um exemplo disso mesmo poderá ser o tema de abertura,
“Mayfair at Rhayader 1927”. Num momento de grande turbulência quando todas as
dúvidas pairam sobre o quotidiano britânico, não deixa de ser significativa a
tranquilidade que emerge de “The Gathering”.
As melodias correm à beira de riachos, sobre prados
verdejantes, num cenário idílico que os ocasionais violinos, celos e violas apenas
acentuam. Como mantos sonoros cobrindo lugares, acontecimentos, memórias, “Sketches
of a Roman Fort”, “Starlings” e o tema título ilustram este cenário na
perfeição.
Caberá a quem escutar “The Gathering” decidir se o sentimento
ali prevalecente será a reacção, a nostalgia, ou ambos.
03/06/17
Trimdon Grange Explosion "S/t"
Em 2005 pouca gente terá prestado atenção ao excelente álbum
dos The Eighteenth Day of May, uma banda transnacional que
percorria os caminhos do folk-rock britânico.
Mais de uma década volvida, expurgado das componentes
norte-americana e nórdica, o colectivo reteve os elementos ingleses e passou a
denominar-se Trimdon Grange Explosion ( uma referência
histórica ao acidente ocorrido em 1882 numa mina de Durham e que vitimou 69
trabalhadores ).
Agora liderada pelo guitarrista Ben Phillipson, a banda acaba
de publicar o homónimo “Trimdon Grange Explosion”. A fonte
de inspiração permanece, as raízes estão
ainda mais presentes e a pastoral tradição inglesa, mesclada com a melancolia,
paira sobre as melodias.
Alison Cotton, para além da viola, ganha maior protagonismo
nas vocalizações e o projecto só lucrou com isso. A versão do tradicional “Poor
Wayfaring Stranger” por exemplo, arrasta
consigo uma elegância pouco comum, através da qual facilmente chegará à
eternidade.
Os restantes tradicionais, “The Bonnie Banks of Fordie” e “Glass
and Sand”, ostentam uma tensão quase marcial que lhes é conferida pelo
intrigante diálogo que o violino e a viola, respectivamente, travam com a
secção rítmica. De uma beleza extrema, os dois só por si justificam a audição
do álbum.
No género, tão cedo vai ser difícil encontrar melhor.
29/05/17
25/05/17
Jardins do Paraíso ( LIII )
A fazer fé na respectiva biografia, terá sido um capricho o
motivo que levou Dorris Henderson,
uma cantora de folk e blues, a trocar Los Angeles e Nova Iorque por Londres a
meio dos 60s.
Ao chegar encontrou a cena folk em plena ebulição. Davy Graham por exemplo, recém chegado
da India, começara a introduzir as linhas melódicas do raga indiano na tradição
inglesa.
Em Londres, Dorris cruzou-se com John Renbourn e os dois álbuns que gravaram juntos são hoje
clássicos. O segundo “Watch the stars”, agora reeditado,
data de 1967 e registou para memória futura a simbiose perfeita entre dois
talentos aparentemente inconciliáveis.
John Renbourn era já um soberbo tecnicista e Dorris estava
tão à vontade no blues como no folk. Danny Thompson acrescentou o baixo
acústico; a tradição, Anne Briggs, Bob Dylan e Gordon Lightfoot as canções.
Para a posteridade ficou um belíssimo álbum.
19/05/17
Richard Morton Jack "Psychedelia, 101 Iconic Underground Rock Albums 1966-1970"
Estamos todos um pouco fartos de compilações oportunistas do género: "os 100 melhores álbuns para escutar antes de morrer" ( na maior parte dos casos é mais para escutar depois de morrer, mas adiante ). "Psychedelia 1966 - 1970" todavia, ainda que pisque o olho ao mercado dos incautos, é diferente.
Richard Morton Jack, o editor da Flashback Magazine, habituou-nos ao detalhe e ao rigor histórico. E este livro não foge à norma. Os textos que ilustram os 101 discos que escolheu, sempre que tal se demonstrou possível, foram cruzados com os diversos intervenientes ( músicos, produtores, engenheiros de som ) e, em bastos casos, foi-lhes solicitado um comentário / depoimento.
Acresce uma pequena introdução ao fenómeno do psicadelismo, bem como uma abordagem aos singles mais emblemáticos, jornais e publicações da época, principais festivais e filmes.
Richard Morton Jack, o editor da Flashback Magazine, habituou-nos ao detalhe e ao rigor histórico. E este livro não foge à norma. Os textos que ilustram os 101 discos que escolheu, sempre que tal se demonstrou possível, foram cruzados com os diversos intervenientes ( músicos, produtores, engenheiros de som ) e, em bastos casos, foi-lhes solicitado um comentário / depoimento.
Acresce uma pequena introdução ao fenómeno do psicadelismo, bem como uma abordagem aos singles mais emblemáticos, jornais e publicações da época, principais festivais e filmes.
Tudo somado, 250 páginas de opinião e rigorosa informação histórica a que o tempo seguramente fará justiça. Tal como sucede já hoje com a esmagadora maioria dos álbuns ali mencionados.
07/05/17
Brinsley Schwarz "It's all over now"
Em 1975 o pub-rock precipitava-se na queda, muito por culpa
dos Dr. Feelgood que tendo dado
origem a dezenas de clones, contribuíram para baixar a qualidade.
Os Brinsley Schwarz que,
uns anos antes, com o produtor Dave
Edmunds haviam criado um muito interessante roots-rock “made in England”,
evoluíram para o pub-rock e tentaram dar o salto para o mercado americano. O
momento todavia tinha passado; a coisa correu mal e nem em casa nem na América.
Gravado no final de 1974, “It’s all over now” foi
parar às prateleiras da editora. Percebe-se o porquê, agora que foi resgatado
pelo guitarrista Ian Gomm.
O álbum revela-se um trabalho equívoco, hesitante entre o pub-rock,
o power-pop e até o reggae. Integra a primeira versão de “Cruel to be kind” que
Nick Lowe recuperaria em 79 com grande sucesso no álbum
solo “Labour of lust” e um
“Everybody” que, se tratado pelos Flamin
Groovies, teria sido galáctico. O restante material interessará sobretudo
aos historiadores.
01/05/17
Bruce Langhorne "The Hired Hands: A Tribute to Bruce Langhorne"
Bruce Langhorne, ou “Mr. Tambourine Man” como Dylan
o imortalizou, possui um curriculum extraordinário.
Artesão da música, tocou em muitos discos emblemáticos da chamada aristocracia folk americana ( Bob Dylan,
Carolyn Hester, Richard e Mimi Farina, Joan Baez, Fred Neil, Pat Kilroy,
Ritchie Havens, Odetta ).
Para além disso, inventou uma das mais fantásticas bandas
sonoras do cinema independente: “The Hired Hand”, realizado e
protagonizado por Peter Fonda, na sequela do enorme sucesso de “Easy
Rider”.
Nos últimos tempos, doente e carenciado, Bruce Langhorne foi
apoiado / homenageado por fãs e admiradores. Para o alinhamento da compilação “The Hired Hands: A Tribute to Bruce
Langhorne”, publicada pouco tempo antes do seu falecimento, existia apenas uma condição: todos as
contribuições ( versões ou não ) teriam de ser inspiradas na banda sonora “The
Hired Hand”.
O resultado é uma espécie de opus. 32 temas, construídos e
desconstruídos em redor das composições de Bruce por artífices como Lee
Ranaldo, Steve Gunn, Loren Connors, Nathan Bowles, Tom Carter, Chris Corsano,
Elliott Sharp, Boxhead Ensemble, John Fahey e Daniel Bachman, entre outros.
O conjunto é naturalmente majestoso e celebra a incrível
influência que Langhorne exerceu nas várias gerações de músicos americanos.
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