06/02/17

Heroes are hard to find ( 38 )



Deke Leonard ( Man )

( 1944 - 2017 )

31/01/17

Terry Dolan "S/t"



A terminar 2016, o acaso ou um feliz alinhamento dos astros, permitiram a publicação de um conjunto de gravações inéditas que, em rigor, tinham tudo para o não serem. A mais extraordinária delas, porventura a grande redescoberta do ano - “Terry Dolan” -, esteve guardada nos arquivos da Warner Brothers desde 1972.

Natural do Connecticut, Terry Dolan começou por cantar nos clubes e cafés folk de Washington. Como muitos outros não demorou a mudar-se para São Francisco.  Insistiu no folk, mas as suas composições pediam outros voos. Conheceu a nata dos músicos californianos da época e quase sem dar por isso, os Country Weather eram a sua banda de suporte.

Em 1970 gravou duas demos. Uma delas, “Inlaws and Outlaws”, transformou-se num hit nas principais rádios underground da Califórnia. O público procurava nas lojas, mas não havia disco. Em 1971, a WB decidiu então financiar as primeiras gravações.


Concluído em duas fases, o álbum teve como produtores dois alquimistas – Nicky Hopkins e Pete Sears – curiosamente ambos ingleses, exímios pianistas e donos de invejável curriculum. John Cipollina, Greg Douglass, Neal Schon, Spencer Dryden e as Pointer Sisters juntaram-se-lhes. A edição foi agendada para Janeiro de 1973 mas, inexplicavelmente e sem razão aduzida, a Warner Brothers abortou o projecto.

Devastado, Dolan fundou os Terry & The Pirates, “a mais underground das bandas underground saídas de São Francisco”. Faleceu em 2012 sem nunca ter visto o sua maior criação publicada. Impossível saber o que teria acontecido à carreira deste criador caso o álbum tivesse saído em tempo. Mas o brilhantismo dos temas, a qualidade superlativa das prestações musicais e o talento dos dois mágicos que o produziram, teriam certamente feito dele um dos clássicos da época. Chegou finalmente, 43 anos depois.

23/01/17

Lost Nuggets ( 111 )


"The Peoria Folk Anthology, Volume Three" ( Webster's Last Word Records, WLWs 3825, Stereo ) USA, 1970


- "Pedalling"
- Dan Young "Slow Fade" ( Jendras )
- Jennie Pearl "Maybe in another year" ( Pearl )
- Lou Jendras "Artificial Heart Transplant Blues" ( Jendras )
- Bruce Brown "Trolly Car Song" ( Durham )
- Chuck and Mary Perrin "Help us Jesus" ( Hardin )
- Lou Jendras "I didn't realise that I couldn't harmonize with you" ( Jendras )
- Dan Young "Life is a stream" (Johnson )
- Bruce Brown "Sittin on the curb" ( Durham )
- Jennie Pearl "Bye-gones" ( Pearl )
- Chuck and Mary Perrin "Morning" ( Perrin )
- "Climax"


Compilação; "Recorded Live at Golden Voice Sound Studios, South Pekin, Illinois"

Produção: Chuck Perrin

Capa: direcção e design de Bruce Brown.

13/01/17

09/01/17

Shirley Collins "Lodestar"



Apesar de não ter gravado uma única canção durante mais de 30 anos, Shirley Collins permaneceu sempre a grande Dama do folk inglês. Sandy Denny é passado e June Tabor, embora grande, não atinge aquele patamar.

Nos dias de hoje trata-se de algo quase incompreensível. Mas há coisas que não se explicam, sentem-se apenas. Aparentemente ultrapassados os problemas de saúde que a impediram de cantar durante décadas, “Lodestar”, é o primeiro disco novo desde 1979. Uma perfeição. As canções pairam sobre uma atmosfera mágica.

Um dos grandes talentos de Collins foi saber, no momento certo,  escolher as canções que, observando a tradição, serviam igualmente a sua voz. Esta já não tem a frescura de outrora; está mais grave, profunda, naturalmente envelhecida. Não obstante, o dom interpretativo continua a impressionar, pela convicção e autenticidade.

O resto, depois do talento, é bom gosto, simplicidade e singeleza. Tal qual a tradição ancestral desta música, cujas canções não necessitam de grandes arranjos ou acompanhamentos. Muitas das vezes o “acapella” bastou para sobreviverem à história.

03/01/17

Wolf People "Ruins"



Li há dias na edição que comemora o quinquagésimo aniversário da revista gaulesa ‘Rock & Folk’ que pouco tempo antes de falecer, o seu fundador – Philippe Koechlin -, terá confidenciado à família: “depois de conhecer Jim Morrison e Jimi Hendrix, como poderei interessar-me por uma figura como Robert Smith dos Cure?“.

Compreendo-o em parte. No que respeita à dimensão humana das figuras em causa, terá provavelmente razão, embora o dinamismo dos tempos não se compadeça com estaticismos. Discordo no entanto da tese que parece subjacente à afirmação. Cada geração tem os seus ícones e existem grandes criadores em todas as épocas.

Atente-se nos Wolf People. A banda do Bedfordshire leva já cerca de uma década de existência, período durante o qual publicou um conjunto importante de singles e três álbuns de referência. O quarto “Ruins” acabado de sair, acrescenta solidez e maturidade ao talento já evidenciado.


Na sua verdadeira essência, a música dos Wolf People só poderia ser feita por ingleses. As raízes e o modelo que escolheram recriar são definitivamente britânicos. Uma constatação óbvia, quer a abordagem seja feita pelo lado do folk tradicional, quer pelo do blues rock.

No fundo, embora Jack Sharp continue a sustentar que nunca tinha escutado os primeiros 3, 4 álbuns dos Jethro Tull até fãs e crítica lhe terem mencionado as semelhanças, a verdade é que a música de “Ruins”, ainda que contemporânea, estruturalmente evoca aquele extraordinária “mélange” entre melodias tradicionais britânicas e a visão do blues rock que Ian Anderson confeccionou na discografia dos Tull até 1971 quando publicou o seminal “Aqualung”.

E os ocasionais exercícios da flauta são um mero pormenor no meio de toda a avalanche de guitarras, ora delicadas ora distorcidas, reclamando um lugar no panteão do moderno psych folk-rock. Os impressionantes sete minutos do épico “Kingfisher” não enganam. Ali está condensado tudo o que importa na música de Jack Sharp. Talento, inspiração, virtuosismo e atenção às raízes. Um dos discos do ano.

28/12/16

Lost Nuggets ( 110 )


Lackey & Sweeney "Junk Store Songs for Sale" ( Village Thing VTS 23 ) UK, 1973


- "Rosemary's Market"
- "Nothing to lose"
- "Twenty nine years"
- "Sparrow"
- "Drinking Blues"
- "Good to cry"
- "Yesterday did ride again"
- "Sweet Marie"
- "Comfort"
- "You are my sunshine"

Billy Lackey e Kathleen Sweeney: canções, vozes, guitarras e harmónica; com John Turner ( baixo acústico ), Joe Kucera ( flauta e sax ) e Graham Smith ( harmónica ).

Produção: Ian A. Anderson

Capa: fotos de Dave Mason

18/12/16

Eluvium "False readings on"




Em matéria de música ambiente, minimalista, electrónica e / ou de vanguarda, Matthew Robert Cooper aka Eluvium é uma referência cada vez mais consolidada.

No seu álbum mais recente, “False readings on”, o experimentalista do Oregon afirma ter-se inspirado na teoria das dissonâncias cognitivas e sua manifestação no quotidiano das sociedades modernas.

O fosso entre crença e realidade, crê-se,  existirá desde sempre. Hoje, eventualmente, mostrar-se-á envolto numa maior sofisticação. Como a música de Cooper.


De registo para registo tem vindo a ganhar uma identidade própria, a ponto das influências antigas ( Brian Eno, Max Richter, Terry Riley, Cluster ou Labradford ) serem agora pequeninos pontos num horizonte passado.

Isto dito, “False readings on” é mais um registo de escuta obrigatória. Fácil? Longe disso. A um tempo denso, celestial, contemplativo e triste, estimula esse desafio gigantesco de encontrar o ponto de equilíbrio entre o optimismo e o pessimismo.

12/12/16

Marvin Gardens "1968"



Ao que parece o baú psicadélico da São Francisco dos 60s permanece em efervescência.
A mais recente (re)descoberta dá pelo nome de Marvin Gardens, uma banda que perseguia os padrões psych vigentes na época e que, liderada pela vocalista Carol Duke, tinha naturalmente em Big Brother & The Holding Company, Jefferson Airplane ou Peanut Butter Conspiracy as suas maiores influências.
Agora publicados pela primeira vez, os Marvin Gardens têm em “1968” uma antologia que não sendo propriamente um modelo de equilíbrio, permite conhecer mais um projecto artístico soterrado no tempo.

À boleia da voz jopliniana de Carol Duke, a música do quinteto bordejava o folk eléctrico e o garage num cocktail psicadélico por vezes respaldado no pioneirismo dos conterrâneos The Charlatans.
Vários demos gravados para a Warner Bros, um EP auto produzido e um conjunto de gravações captadas em 1968 no palco do lendário Matrix fazem deste disco um momento de saudável nostalgia e uma das recuperações mais interessantes do ano.