Coisas importantes ...
09/01/17
Shirley Collins "Lodestar"
Apesar de não ter gravado uma única canção durante mais de 30
anos, Shirley Collins permaneceu
sempre a grande Dama do folk inglês. Sandy
Denny é passado e June Tabor, embora grande, não atinge aquele
patamar.
Nos dias de hoje trata-se de algo quase incompreensível. Mas
há coisas que não se explicam, sentem-se apenas. Aparentemente ultrapassados os
problemas de saúde que a impediram de cantar durante décadas, “Lodestar”,
é o primeiro disco novo desde 1979. Uma perfeição. As canções pairam sobre uma
atmosfera mágica.
Um dos grandes talentos de Collins foi saber, no momento
certo, escolher as canções que, observando
a tradição, serviam igualmente a sua voz. Esta já não tem a frescura de outrora;
está mais grave, profunda, naturalmente envelhecida. Não obstante, o dom
interpretativo continua a impressionar, pela convicção e autenticidade.
O resto, depois do talento, é bom gosto, simplicidade e
singeleza. Tal qual a tradição ancestral desta música, cujas canções não
necessitam de grandes arranjos ou acompanhamentos. Muitas das vezes o
“acapella” bastou para sobreviverem à história.
05/01/17
03/01/17
Wolf People "Ruins"
Li há dias na edição que comemora o quinquagésimo aniversário
da revista gaulesa ‘Rock & Folk’ que pouco tempo antes de falecer, o seu
fundador – Philippe Koechlin -, terá
confidenciado à família: “depois de
conhecer Jim Morrison e Jimi Hendrix, como poderei interessar-me por uma figura
como Robert Smith dos Cure?“.
Compreendo-o em parte. No que respeita à dimensão humana das
figuras em causa, terá provavelmente razão, embora o dinamismo dos tempos não
se compadeça com estaticismos. Discordo no entanto da tese que parece
subjacente à afirmação. Cada geração tem os seus ícones e existem grandes
criadores em todas as épocas.
Atente-se nos Wolf
People. A banda do Bedfordshire leva já cerca de uma década de existência,
período durante o qual publicou um conjunto importante de singles e três álbuns
de referência. O quarto “Ruins” acabado de sair, acrescenta
solidez e maturidade ao talento já evidenciado.
Na sua verdadeira essência, a música dos Wolf People só
poderia ser feita por ingleses. As raízes e o modelo que escolheram recriar são
definitivamente britânicos. Uma constatação óbvia, quer a abordagem seja feita
pelo lado do folk tradicional, quer pelo do blues rock.
No fundo, embora Jack
Sharp continue a sustentar que nunca tinha escutado os primeiros 3, 4
álbuns dos Jethro Tull até fãs e
crítica lhe terem mencionado as semelhanças, a verdade é que a música de “Ruins”,
ainda que contemporânea, estruturalmente evoca aquele extraordinária “mélange”
entre melodias tradicionais britânicas e a visão do blues rock que Ian Anderson
confeccionou na discografia dos Tull até 1971 quando publicou o seminal “Aqualung”.
E os ocasionais exercícios da flauta são um mero pormenor no
meio de toda a avalanche de guitarras, ora delicadas ora distorcidas,
reclamando um lugar no panteão do moderno psych folk-rock. Os impressionantes sete
minutos do épico “Kingfisher” não enganam. Ali está condensado tudo o que
importa na música de Jack Sharp. Talento, inspiração, virtuosismo e atenção às
raízes. Um dos discos do ano.
28/12/16
Lost Nuggets ( 110 )
Lackey & Sweeney "Junk Store Songs for Sale" ( Village Thing VTS 23 ) UK, 1973
- "Rosemary's Market"
- "Nothing to lose"
- "Twenty nine years"
- "Sparrow"
- "Drinking Blues"
- "Good to cry"
- "Yesterday did ride again"
- "Sweet Marie"
- "Comfort"
- "You are my sunshine"
Billy Lackey e Kathleen Sweeney: canções, vozes, guitarras e harmónica; com John Turner ( baixo acústico ), Joe Kucera ( flauta e sax ) e Graham Smith ( harmónica ).
Billy Lackey e Kathleen Sweeney: canções, vozes, guitarras e harmónica; com John Turner ( baixo acústico ), Joe Kucera ( flauta e sax ) e Graham Smith ( harmónica ).
Produção: Ian A. Anderson
Capa: fotos de Dave Mason
18/12/16
Eluvium "False readings on"
Em matéria de música ambiente, minimalista, electrónica e / ou
de vanguarda, Matthew Robert Cooper aka Eluvium
é uma referência cada vez mais consolidada.
No seu álbum mais recente, “False readings
on”, o experimentalista do Oregon afirma ter-se inspirado na teoria das
dissonâncias cognitivas e sua manifestação no quotidiano das sociedades
modernas.
O fosso entre crença e realidade, crê-se, existirá desde sempre. Hoje, eventualmente,
mostrar-se-á envolto numa maior sofisticação. Como a música de Cooper.
De registo para registo tem vindo a ganhar uma identidade
própria, a ponto das influências antigas ( Brian Eno, Max Richter, Terry Riley,
Cluster ou Labradford ) serem agora pequeninos pontos num horizonte passado.
Isto dito, “False readings on” é mais um registo
de escuta obrigatória. Fácil? Longe disso. A um tempo denso, celestial,
contemplativo e triste, estimula esse desafio gigantesco de encontrar o ponto
de equilíbrio entre o optimismo e o pessimismo.
12/12/16
Marvin Gardens "1968"
Ao que parece o baú psicadélico da São Francisco dos 60s permanece em efervescência.
A mais recente (re)descoberta dá pelo nome de Marvin Gardens, uma banda que perseguia os padrões psych
vigentes na época e que, liderada pela vocalista Carol Duke, tinha naturalmente
em Big Brother & The Holding Company, Jefferson Airplane ou Peanut Butter Conspiracy as suas maiores influências.
Agora publicados pela primeira vez, os Marvin Gardens têm em “1968”
uma antologia que não sendo propriamente um modelo de equilíbrio, permite
conhecer mais um projecto artístico soterrado no tempo.
À boleia da voz jopliniana de Carol Duke, a música do
quinteto bordejava o folk eléctrico e o garage num cocktail psicadélico por
vezes respaldado no pioneirismo dos conterrâneos The Charlatans.
Vários demos gravados para a Warner Bros, um EP auto
produzido e um conjunto de gravações captadas em 1968 no palco do lendário
Matrix fazem deste disco um momento de saudável nostalgia e uma das
recuperações mais interessantes do ano.
09/12/16
"Lindo Sonho Delirante - 100 Psychedelic Records from Brazil ( 1968-1975 )"
Não se trata exactamente de inventar a roda - muitos dos discos aqui listados estavam já profusamente referenciados -, mas é muito agradável ter toda a informação reunida num único livro.
Numa edição bilingue ( português/inglês ), graficamente muito apelativa, este trabalho do jornalista / colecionador Bento de Araújo é uma óptima ferramenta para todos os que se interessam pela matéria.
06/12/16
Glenn Phillips "At the Rainbow"
Que conste, Glenn
Phillips nunca integrou as listas dos “melhores guitarristas” do rock e
periferias. Não obstante é responsável por dois discos enormes: “Music
to eat”, no colectivo da Hampton
Grease Band ( 1971 ) e, a solo, “Lost at sea” ( 1975 ).
O americano nunca procurou ser um instrumentista
“convencional” – e dizendo isto, estamos a pensar em nomes como Lowell George,
Clapton, Mike Bloomfield ou mesmo Ry Cooder. Phillips é, como estes, tecnicamente
dotado, mas entra por territórios exploratórios adentro; como Roy Buchanan, Robert Fripp, Jerry Garcia
ou John McLaughlin.
“Glenn Phillips, At The Rainbow”, resulta da recuperação de
gravações efectuadas no palco do londrino Rainbow em Novembro de 1977. Com
excepção do inédito “Drive on”, os oito temas são recriações de títulos
incluídos nos dois primeiros álbuns: o já citado “Lost at sea” e o acabado
de publicar, “Swim in the wind”. Na contracapa do álbum, o texto refere que os
membros do trio que acompanha Phillips nestas actuações pouco tinha tocado junto
enquanto grupo. Algo que custa a acreditar quando se escuta a prestação do
conjunto nestas gravações.
Logo no inicio, através de “The Flu” ficamos a saber ao que vêm.
A abertura do tema relembra de imediato “Birds of fire”, esse monumento erigido
pela Mahavishnu Orchestra um par de anos antes. Depois, a partir daí e até ao fim é toda uma
incandescente sequência de solos de guitarra que se cruzam com os silêncios, evocações e urgência das melodias,
sempre com a guitarra funcionando como instrumento de liderança e coesão.
E quando se escutam as
versões de “Dogs” ou do épico “Phoebe”,
é difícil compreender como foi possível estas fitas terem permanecido tantos
anos na gaveta. E sim , Phillips é definitivamente um dos grandes guitarristas
da sua geração.
01/12/16
25/11/16
"Madman Across the Water", Elton John e Mick Ronson
Apenas para recordar aos mais esquecidos e a todos aqueles que porventura ainda por aqui não andavam que, em tempos, existiu um artista chamado Reginald Dwight - aka Elton John.
A demo acima, resultante das sessões que conduziram a "Tumbleweed Connection", acabou por ficar de fora do alinhamento deste.
Meses mais tarde, seria o tema título de "Madman across the water". A guitarra de Mick Ronson foi entretanto substituída pela de Chris Spedding e os arranjos de cordas de Paul Buckmaster requisitados para ocupar o espaço que ficara vazio.
Pessoalmente prefiro a versão longa com Mick Ronson.
A demo acima, resultante das sessões que conduziram a "Tumbleweed Connection", acabou por ficar de fora do alinhamento deste.
Meses mais tarde, seria o tema título de "Madman across the water". A guitarra de Mick Ronson foi entretanto substituída pela de Chris Spedding e os arranjos de cordas de Paul Buckmaster requisitados para ocupar o espaço que ficara vazio.
Pessoalmente prefiro a versão longa com Mick Ronson.
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