06/10/16

Nathan Bowles "Whole & Cloven"



Depois do desaparecimento de Jack Rose, Nathan Bowles é hoje olhado por muitos como o “maverick” da chamada “american primitive guitar music”. 

Glenn Jones é excelente, mas “sofisticado”; William Tyler joga nos “sub 21”; Jack Fussell nos juniores e Daniel Bachman ainda tem muitos frangos para virar. Bowles por seu lado tem quase tudo o que Rose tinha, excepto, talvez, o apetite pelo bourbon.

Militou no colectivo Pelt ( tal como Jack Rose ), andou pelos Pigeons e pelos appalachianos Black Twig Pickers. Actualmente integra a banda de suporte de Steve Gunn, com o qual já gravou dois álbuns soberbos.

Depois de “Nansemond” em 2014, “Whole & Cloven” é o novo disco para a editora da Carolina do Norte Paradise of Bachelors. E tem dentro tudo o que nesta altura se poderia esperar de Nathan Bowles. A sonoridade inóspita que os vales das Blue Ridge Mountains albergam, a vertigem desafiadora que só os Appalaches propiciam, a desconstrução da música tradicional que os Black Twig Pickers perseguem a cada prestação e, claro, o virtuosismo de um instrumentista notável que, como poucos, utiliza banjo e guitarra acústica para dar som à iconoclastia.


“Gadarene Fugue” é um carrocel acústico que, entre o banjo, a guitarra e uma percussão primitiva, recua até um pretérito quase perfeito que, entre outras coisas, nos deixou “Deliverance”, o emblemático filme de John Boorman.  Em “Chiaroscuro”, sensorial, o piano substitui os instrumentos presentes no tema anterior, mas é igualmente avassalador na interacção que estabelece com o ouvinte.

“Blank Range: Hog Jank II” e “I miss my dog” regressam ao banjo appalachiano e caso fossem vocalizados por Steve Gunn poderiam ter sido incluídos no álbum que gravou com Black Twig Pickers. “Moonshine is the sunshine” ( uma versão do esquecido Jeffrey Cain ) e “Burnt Ends Rag” ( inspirado em Jack Rose ) encerram um disco que, juntando o melhor de dois mundos maravilhosos – “american primitive guitar” e o “avant-garde” –, se encontra muito perto da perfeição.

27/09/16

Lost Nuggets ( 108 )



Françoise Hardy "Françoise Hardy ( If you listen)" ( Kundalini KUN 65057 ) France, 1972

- "If you listen" ( Tommy Brown / Micky Jines )
- "Ocean" ( Beverley Martin )
- "Until it's time for you to go" ( Buffy Ste-Marie )
- "The Garden of Jane Delawnay" ( T. Boshell )
- "Sometimes" ( Alan Taylor )
- "Let my name be sorrow" ( Estardy / Chatelin / Habib )
- "Brulure" ( Françoise Hardy )
- "Can't get the one I want" ( Beverley Martin )
- "I think it's gonna rain today" ( Randy Newman )
- "Take my hand for a while" ( Buffy Ste-Marie )
- "Bown Bown Bown" (Tommy Brown / Micky Jones )
- "Till the morning comes" ( Neil Young )

Françoise Hardy: voz

Arranjos e direcção artística de Tony Cox, Herve Roy, Tommy Brown e Micky Jones.

Foto da capa: J. M. Perier

21/09/16

Artefactos ( 45 )



Davis Ackles integra o último lugar do meu Top 5 de compositores norte-americanos das últimas cinco décadas. Os outros são: Dylan, Tom Waits, Randy Newman e Springsteen; exactamente por esta ordem. Idiossincrasias ...

Durante anos soube que, em meados de 1968, havia sido publicado em Portugal um EP promocional ( edição regular julgo que nunca existiu nenhuma, mas é difícil afirmá-lo com toda a certeza ) que agrupava quatro canções retiradas ao álbum de estreia: "David Ackles".

Também, durante anos, sempre me disseram que a tal edição promocional não tinha capa ou seja, vinha dentro duma capa "genérica", indiferenciada.

Mas, a persistência tem as suas recompensas. A capa existe(iu) de facto e aí fica, gloriosamente laminada, na frente e no verso. 


 



17/09/16

FIR "Summer wasn't there"



Houve um tempo em que os super-grupos  faziam parte da actualidade. Colectivos artificiais dos quais se esperavam sempre grandes coisas mas que, salvo raras excepções, desiludiam.

Os FIR são hoje aquilo a que de forma ligeira se poderá chamar um “alt-pop super-grupo”. Matt Piucci esteve na origem dos Rain Parade, Rob Campanella nos Quarter After, Brent Rademaker nos Beachwood Sparks e Nelson Bragg na Brian Wilson Band.

Summer wasn’t there”,  o primeiro single, deixa no ar justificadas expectativas relativamente ao que aí virá, caso o projecto floresça. O tema título, uma melodia pop, serpenteia entre a Rickenbaker de Campanella e a guitarra solo de Piucci. Estival, permanece no ar muito tempo depois dos 3m e 46s que dura.

“Winter doesn’t care”, o lado B estabelece outro paradigma, mais calmo e atmosférico, ainda que a melodia, como é apanágio dos artífices envolvidos, seja de primeira água.

A seguir com a necessária prudência.

12/09/16

Lost Nuggets ( 107 )



Marlin Greene "Tiptoe past the dragon" ( Elektra EKS 75028 ) USA, 1972, with double insert

- "Grand Illusion"
- "Masquerade Ball"
- "Jonathan's Dream"
- "My Country Breakdown"
- "Forest Ranger"
- "Gemini Gypsy"
- "Ponce de Leon"
- "Who's the Captain of your ship of dreams"
- "Fields of clover" (Wayne Perkins)
- "Good Christian cowboy" (Wayne Perkins)
- "Tiptoe Past the Dragon"

Marlin Greene: canções, voz e guitarra, com: Larry Nicholson, Eddie Hinton e Wayne Perkins ( guitarras ), Roger Hawkins, Fred Prouty e Lou Mullenix ( bateria ), Barry Beckett e Chuck Level ( teclas ), Jerry Masters e David Hood ( baixo ) e Leo La Blanc ( guitarra slide ).

Produção de Marlin Greene

Capa: fotos de Frank Bez

Ilustração de Marlin Greene.

04/09/16

Steve Gunn "Eyes on the lines"



Prolífero, Steve Gunn parece melhorar a cada registo.

Depois de  Way out weather”, da colaboração com Mike Cooper  em “Cantos de Lisboa” e do fabuloso “Seasonal Hire” com os Black Twig Pickers, Gunn regressa ao lado de Nathan Bowles para um inspirado “Eyes on the lines”.

A cada novo disco, o guitarrista de Brooklyn, já não soma apenas competência e virtuosismo. Acrescenta algo que está apenas ao alcance de uns quantos criadores e que faz toda a diferença: a sofisticação.

Existe algo diferente, cosmopolita se quiserem, no discurso instrumental deste músico que faz dele não apenas um herdeiro e seguidor da escola da “american primitive guitar” como alguém que partindo das raízes, soube adaptar-se a uma sonoridade que não sendo ainda hegemónica, possui todos os ingredientes para  ser falada e consultada no futuro.

Escute-se por exemplo “Conditions Wild” ou “Heavy sails”; as melodias encantam, mas são as guitarras (eléctricas e acústicas) mais do que qualquer outro elemento que cativam e nos agarram aos temas. Para além destes, “Eyes of the lines” acolhe ainda a road song panorâmica que é  “Ancient Jules”, um  sincopado “Park Bench Smile”, assim como o hipnótico “Ark” que nasce nas seis cordas da uma guitarra acústica, prossegue numa espiral de wah wah, e lentamente desvanece até regressar à sonoridade acústica.

Orgânico e ao mesmo tempo refinado, está encontrado um dos discos do ano.

29/08/16

Terry Reid "The Other Side of The River"



Conta-se que Terry Reid terá sido a primeira escolha de Jimmy Page para ser a voz dos Led Zeppelin.

A escusa de Reid terá sido porventura o grande golpe de sorte para os Zeppelin, pois conhecendo o percurso ulterior daquele, é difícil imaginá-lo numa pose histriônica a balbuciar 39 melosos “babies” por canção, tal como Robert Plant viria a fazer com aparente naturalidade e, note-se, grande aceitação.

 Igual recusa receberam também aos Deep Purple, preferindo Reid apostar numa carreira a solo que, não tendo sido especialmente prolífera, inclui álbuns memoráveis como “Seed of Memory” ( produzido por Graham Nash )  e “River”.

Sobre este, há muito que corriam rumores sobre as sessões que lhe deram origem; nomeadamente quanto ao facto de existir material suficiente para publicar três álbuns. “The Other side of The River” é a clarificação de todos rumores e uma prova mais do enorme talento do cantor.

Decorria o ano de 1973. Tim Buckley, Van Morrison, John Martyn, Lowell George encontravam-se às portas do céu. Terry Reid andou por lá, misturando o folk, o blues, a soul, o rock e até os sons do Brasil ( uma cortesia de Gilberto Gil, presente nas sessões de gravação ).

The Other side of The River” acrescenta 6 excitantes canções inéditas  e 5 versões alternativas. Geminados, ainda que separados por 43 anos, os dois discos completam-se e são o testemunho real de um músico que preferiu seguir o seu talento a ser famoso.

23/08/16

Anne Briggs "Four songs"


Há discos assim, irresistíveis.
Quatro interpretações antigas, uma das quais ( "The Verdant Braes of Skreen" ), gravada ao vivo pela BBC em 1965, conhece aqui a sua primeira aparição em disco.
A simplicidade da perfeição.

17/08/16

The Owl Service "His Pride. No Spear. No friend"



Ao longo da já extensa vida do seu projecto The Owl Service, Steven Collins tem recuperado melodias ao cancioneiro tradicional britânico e, em simultâneo, proporcionado palco a algumas mas mais talentosas vozes femininas da folk contemporânea.
His Pride. No Spear. No Friend” não é excepção.
Incluindo seis temas tradicionais e três versões - “Sea Song” ( Caedmon ), “The Skater” ( Midwinter ) e “Living by the water” ( Anne Briggs ) -, o novo opus dos Owl Service alberga as habituais vozes de Diana Collier, Jo Lepine e Nancy Wallace, às quais se juntam Alison O’Donnell ( Mellow Candle ), Michelle Bappoo e Laura Hulse Davis.
Steven Collins, um tradicionalista sensato, percebeu que estas canções ficam bem ( melhor ) quando interpretadas no feminino, daí que as tenha entregue às senhoras.
Dir-se-à que a maioria destas lendas em forma de canção já foram tratadas por meio mundo desde a renascença da folk britânica em meados dos 60s. Mas é também verdade que o talento “silencioso” de Collier, Lepine, Wallace e O’Donnell acrescentam sempre uma perspectiva nova a cada interpretação.

12/08/16

Artefactos ( 44 )


Acabado de "aterrar" o # 6 da Terrascopedia.
18 páginas manualmente impressas pelo editor, como já é habitual.
Entrevistas com Sharron Kraus, Constantine e PSP. Críticas aos discos de Heron Oblivion, Constantine e à compilação "Paper Leaves"; todos já comentados aqui no Atalho.
100 exemplares apenas. Logo, mais um artefacto coleccionável.  



06/08/16

Kikagaku Moyo "House in the tall grass"



Tradicionalmente um viveiro de bandas underground com janelas para o folk, o psicadélico e a música de vanguarda, o Japão juntou mais um nome à sua já longa lista de obrigatoriedades: Kikagaku Moyo.  Começando pelo fim de “House in the tall grass”, “Cardigan Song” encerra numa atmosfera encantatória e bucólica um álbum que ousa ser diversificado sem que com isso perca coerência e unidade.

Entre o que ficou de Syd Barrett, dos The Ghost, Amon Duul ou até Neil Young, o quinteto de Tóquio elabora uma música que não sendo intrinsecamente nova, desafia. Na exacta medida em que nos leva até paisagens sonoras perdidas no tempo e que se revisitam com prazer. No fundo trata-se de um elegante jogo de sedução que simultaneamente estimula e absorve.

“Green Sugar” é puro krautrock, com aquela guitarra no final a apelar ao inesquecível “Yeti” dos Duul. “Kogarashi” oscila entre o pastoral folk e o “motorik” com a cítara a ter a última palavra. Este instrumento é de resto estrutural na construção da sonoridade Kikagaku Moyo, como se pode conferir no longo raga psicadélico “Silver Owl”, de onde só é desalojado pela guitarra mutante que conduz o tema até ao seu epílogo. “Trad” é mais um prolongado olhar paisagístico sobre o kraut, preparando o caminho para a filigrana  que ornamenta “Cardigan Song”. Um final absolutamente perfeito para um disco singular.

18/07/16

Matt Valentine "Blazing Grace"




Matt Valentine parece ter uma espécie de devoção perene por Neil Young. Um facto que por si só nada tem de negativo, pelo contrário. Desde que se atenha ao Young que mais importa, porque há vários,  como facilmente se percebe num artista com quase 50 anos de carreira.

Em “Blazing Grace” o novo disco a solo de Valentine, alguns dos temas remetem-nos para a chamada “trilogia doom” do autor canadiano. O lado A, acústico e mais atmosférico, com “Shine a light” e “Blasted in the Haze” em destaque, clama por “Ambulance” e “Revolution Blues” de “On the Beach”. “Slang yr life” e “Merge” enfeitadas  pela guitarra de Pat Gubler ( P.G. Six ) e sobretudo “River Run”, hesitam entre a concisão sombria de “Tonight’s the Night” e a desbunda semi-anárquica de “Time fades away”.

Tudo isto poderá não parecer óbvio nas audições iniciais, mas está lá tudo, ainda que camuflado pela utilização de alguma electrónica. Erika Elder, Meg Baird e J. Mascis também ajudam a fazer de “Blazing Grace” um álbum muito interessante, embora fundamental seja uma outra coisa.