09/06/16

Chris Forsyth & The Solar Motel Band "The Rarity of Experience"



A menos que um dia o próprio o decida divulgar, nunca saberemos com que intuito Chris Forsyth frequentou as aulas de Tom Verlaine. Se para melhorar a sua técnica instrumental, aproximar-se do estilo peculiar do mestre, ou ambas.

Uma dúvida que o novo registo de Forsyth com a Solar Motel Band  The rarity of Experience I & II” não esclarece em definitivo.

Na sequência do anterior “Intensity Ghost”,  este duplo cd é de uma intensidade extrema. Os dois primeiros temas ( “Anthem I” e “II” ) tudo pulverizam à sua passagem. As guitarras além de geométricas e sincopadas, são ostensivamente metálicas e quando conluiadas com uma percussão tribal como é o caso, deixam as canções em carne viva.

“The rarity of experience Part 2” soa como se Verlaine e Richard Lloyd regressassem do passado com uma versão actualizada de “Foxhole”. “High Castle Rock”, um extraordinário épico onde os intensos duelos entre as guitarras Forsyth e Nick Millevoi não fazem prisioneiros, é a verdadeira pedra de toque do álbum e aquilo que de mais parecido Forsyth terá com ele próprio. O jazzy “Harmonious Dance”, instrumentalmente menos exuberante, deixa algo a desejar em matéria de relevância.

O segundo cd vai mais longe na audácia. Mescla o estilo que já se conhecia com uma vertente experimentalista. Forsyth fã do “space rock”, do “free jazz” e de Richard Thompson. A confirmação encontra-se em “The first ten minutes of cocksucker blues” ou na ousada versão de “The Calvary Cross”.

Os próximos capítulos aguardam-se com justificada expectativa.

31/05/16

Lost Nuggets ( 105 )


Allan Wachs "Mountain Roads & City Streets" ( True Vine Records 121853 ) Insert, USA, 1979 


- "Adventures of the invisible dog"
- "Least of  my strangers"
- "Anna Lena"
- "Pretty face"
- "Dancer"
- "Mountain man breakdown"
- "The Lord will provide"
- "Travellin' light"
- "Mountain Roads"
- "Northwest passage"

Allan Wachs: canções, voz e guitarras, com Tony Recupido e Barry Soloman  ( guitarra ), Bob Gross e Paul Soloman  ( baixo ), Randy Barker ( bateria ), Steven Ray Pearlman ( violino e mandolim ), Judy Gameral ( concertina ), John Schlocker ( banjo ), Dave Pearlamn ( guitarra slide )

Produção: Allan Wachs

Capa: Patrice Marek ( ilustrações )

23/05/16

"Wayfaring Strangers: Cosmic American Music"




Cosmic American Music” é um rótulo “umbrella” debaixo do qual se abrigam muitas músicas.
Sabe-se hoje que, para cada Gram Parsons, Byrds ou Flying Burrito Bros, existem dezenas de outros nomes que nunca tiveram oportunidade de se cruzar com a fama ou tão pouco o reconhecimento.
Wayfaring Strangers, Cosmic American Music” compila alguns desses artistas cujas gravações, localizadas entre os anos de 1968 e 1980, comportam verdadeiras pérolas da música americana.
Jimmy Carter and Dallas County Green, Plain Jane, Deerfield, Allan Wachs, Sandy Harless, Bill Madison ou Arrogance ( onde em tempos militou Don Dixon ) são apenas alguns dos nomes que os leitores do Atalho seguramente gostarão de conhecer.
A maioria das gravações originais são impossíveis de encontrar, daí que esta colectânea, composta por 19 temas, seja uma excelente porta de entrada.

17/05/16

Artefactos ( 43 )


Por mera obra do acaso, fomos companheiros de escrita no semanário Sete na primeira metade dos anos 80.

Ele mais dedicado aos projectos nacionais, eu mais vocacionado para os estrangeiros. Muitas vezes não estivemos ( nem tínhamos de estar ) de acordo, mas este livro que o António publicou em 1984 permanece como uma das pedras de toque relativamente a tudo aquilo que se escreveu desde então sobre a nossa música popular.

Volto a ele com agradável frequência.

 

11/05/16

Glenn Jones "Fleeting"



Ainda que Glenn Jones venha colaborando com as irmãs Laura e Meg Baird, a música deste veterano de Cambridge no Massachusetts está hoje longe das avalanches psicadélicas dos Heron Oblivion.

Na verdade estão também distantes os tempos do experimentalismo vanguardista dos Cul de Sac ( a banda que liderou entre 1991 e 2004 ), um dos segredos musicais melhor guardados da música da costa este.

Desde há uma dúzia de anos, Glenn Jones abraçou a tradição da guitarra acústica americana e, dos seis álbuns a solo que gravou, transparece uma profunda paixão, quer pelo riquíssimo legado sonoro da cordilheira dos Apalaches, quer pelas reinterpretações que daquele fizeram talentos como John Fahey, Peter Walker, Robbie Basho, Harry Taussig ou Jack Rose.

Fleeting”, captado e produzido por Laura Baird, é o mais recente capítulo desta interessante saga. “Apenas” com recurso a uma guitarra acústica de seis cordas e um banjo, Jones conta-nos dez histórias singelas, inspiradas nos recantos, sons e paisagens do Rancocas Creek, um dos afluentes do Delaware River. E nada podia ser mais natural e tranquilo.

05/05/16

Heron Oblivion "S/t"



Existem numerosos exemplos da aplicação prática da teoria gestáltica. Na verdade, não é possível  conhecer o todo observando apenas as partes, pois o conjunto é frequentemente diverso da mera soma daquelas.

Atente-se por exemplo na banda californiana Heron Oblivion. Noel Harmonson e Ethan Miller são veteranos dos Comets on Fire, sendo que o último ainda alimenta os psiconautas Howlin’ Rain. Charlie Saufley assegurou a guitarra nos magníficos Assemble Head in Sunburst Sound e Meg Baird, a mais improvável dos amigos aqui presentes, é tudo aquilo que se sabe: Espers, colaborações várias ( Helena Espvall, Sharron Kraus ) e belíssimos discos a solo.

Com artífices deste calibre “Heron Oblivion” reunia todas as condições para ser um grande disco. É porém muito mais do que isso. É sublime, ou talvez mesmo mais.

A “west coast vibe” está presente ao longo de todo o álbum, funciona como espécie de fio condutor associado ao processo de criação e arranjo dos temas. Uma miríade de “happy trails” que conduzem a paisagens  “pastoral psych” que, ora optam por coloridas vertigens de “feedback”, ora procuram os silêncios da folk.


“Beneath Fields” é particularmente impressivo. Abre celestial, cortesia de Meg Baird, mas rapidamente deriva para as vibrações west coast, catapultado pelas guitarras gémeas de Harmonson e Saufley que, com mestria, gerem a tensão própria do vibrato que John Cipollina inventou há muitas décadas. “Oriar” é tudo isto acrescido de uma bateria tribal e de um feedback pirotécnico.

“Rama” são 10 minutos de pura beleza. A voz e percussão de Meg Baird percorrem um trilho de serenidade e gentileza que mais à frente irá desembocar num cruzamento, onde as guitarras ácidas de Saufley e Harmonson se digladiam, discutindo a prioridade. Imaginem Cipollina em plena altercação com Michio Kurihara e estão lá perto.

“Faro” poderiam ser os Dream Syndicate metamorfoseados de Opal e “Seventeen Landscaps” os Jefferson Airplane em modo “jam session”. A fechar, “Your hollows”, é o paraíso na terra; angelical e inspiradíssimo o canto de Meg, celestial e apocalítico o duelo fratricida das guitarras. Um final perfeito para um álbum mais que perfeito.

02/05/16

Les InRocks "La Bibliothèque Rock Idéale"


A língua francesa pode ser um problema. O critério que determinou as escolhas também.
Não obstante, retira-se sempre algo destes levantamentos periódicos de catálogos especializados.
"La Bibliothèque Rock Idéale" é uma opinião ( dos editores da revista InRocks ) mas fica bem ao lado destas outras edições que o tempo tem guardado.



28/04/16

Heroes are hard to find ( 33 )


Lonnie Mack

( 1941 - 2016 )

24/04/16

Lost Nuggets ( 104 )



Bob Brown "The Wall I Built Myself" ( Stormy Forest SFS 6007 ) USA, 1970

- "It takes the world to make a feather fall" (Bob Brown / David Franks )
- "Quiet waterfall"
- "Monday Virus" (Bob Brown /  David Franks )
- "First Light"
- "Winds of change" ( Bob Brown / David Franks )
- "Selina"
- "Seek the sun"
- "Icarus"


Bob Brown: canções, voz e guitarra acústica, com: Joe Clark ( piano e órgão ),Orin Smith ( guitarra eléctrica ), Marshall Hawkins ( baixo acústico ), Bill LaVorgna ( bateria ) e Roland Henderson ( violino e viola ).

Produção de Richie Havens

Capa: design de Richie Havens, fotos de Dick Lee

19/04/16

Dead Sea Apes "Spectral Domain" / Mugstar "Magnetic Seasons"


 

Do eixo Manchester / Liverpool acabam de chegar os novos Dead Sea Apes e Mugstar: “Spectral Domain” e “Magnetic Seasons” respectivamente.
Do trio mancuniano espera-se o “drone”, suportado por uma secção rítmica de betão, sobre a qual evoluem as espirais da guitarra de Brett Savage. Desde 2011 que os Dead Sea Apes vêm colecionando trabalhos importantes, através de uma linguagem aparentemente monolítica mas de janelas abertas para o pós-rock. A tudo isto adicionam um experimentalismo que os diferencia de todos os outros.
Spectral Domain”, como era previsível, transporta toda aquela tensão que emerge do confronto da guitarra com o baixo teutónico, deixando à bateria o ónus de colar os cacos. A novidade são porém os sintetizadores. Presença até aqui pouco habitual, surgem na peça de abertura “Universal Interrogator”, conferindo uma ainda maior textura a uma sonoridade já em si densa. Em crescendo e já vão no terceiro álbum.


Mais próximos da kosmische musik e da “urban guerrilla” inventado pelos Hawkwind, os Mugstar utilizam a fórmula para criar paisagens sonoras que oscilam entre o épico e o contemplativo. Umas e outras, cada uma a seu modo, são absolutamente aditivas. Ao quinto lp de originais – “Magnetic Seasons” - começa a não ser fácil inovar, mas as tão peculiares densidade e intensidade, permanecem aqui tão presentes como recomendáveis.

12/04/16

Jardins do Paraíso ( XXXXIX )



Por cada disco que trepa os tops, existem algures três ou quatro pérolas que passam ao lado da história. A história da música popular está repleta de casos destes.

Um exemplo:  Parable” dos White Light.

Publicado em 1974 através de uma edição privada, o álbum é uma preciosidade e um dos grandes discos saídos da Escócia na primeira metade dos 70s. Catalogada de ‘christian rock’, a música deste quarteto de Glasgow, ainda que faça amplo uso do órgão ( tal como os contemporâneos e compatriotas Beggar’s Opera ) tinha mais pontos de contacto com o universo de Pete Townshend ou Ray Davies.

Transversal a todo o álbum, a vertente espiritual é caldeada pelas guitarras em fuzz, pela sonoridade blues garage e por um psicadelismo que à época, no auge do progressivo, terá sido sinónimo de anacronismo.

Por essa razão ou não, “Parable” não descolou. Injustamente, pois é um tremendo disco. O longo épico “Prodigal” terá encontrado inspiração em “Tommy”, “Where did I belong” tem tudo o que John Mayall costumava aportar ao blues e a versão de “Awaiting on you all” remete para esse monumento que é “All things must pass” de George Harrison.

No final, estamos aqui a falar de uma urgência com mais de quatro décadas.

07/04/16

Gene Clark "The Lost Studio Sessions"



Há dias tratei de pré-encomendar as "Gene Clark The Lost Studio Sessions 1964-1982" de Gene Clark. Sendo o mais completo songwriter que passou pelos Byrds e um dos melhores do seu tempo, qualquer coisa sua, mesmo que em bruto, será sempre muito aliciante. Esperava receber o disco na data da respectiva publicação ou, quando muito, um daqueles códigos automáticos que permitem fazer os famigerados e impessoais downloads.

No entretanto o carteiro tocou, uma vez ( nunca toca duas ), e deixou na caixa do correio um pacote com um belíssimo CD-EP ( Bonus Acoustic CD ) que integra: "The Virgin", "She's the kind of girl", "1975" e "One in a hundred".

Apenas a voz e a guitarra acústica, captados por de Jim Dickson nos Word Pacific Studios de Hollywood em finais de 1970, princípios de 1971, período em que o autor preparava as gravações do futuro e enorme "White Light".

Se o que "The Lost Studio Sessions" trouxer for pelo menos tão bom como estas quatro maquetas originais, vale a pena a espera. Qualquer espera.

E fica sempre bem receber um "Official Acknowledgement of Receipt" da editora que está a tratar do assunto. Ou, como diz frequentemente um velho amigo: "a eles não lhes custa nada e a mim sabe-me bem".