07/12/10

Trembling Bells "New Year's Eve's the Loneliest Night of the Year / Feast of Stephen"


O "artwork" é de se lhe tirar o chapéu, o conteúdo nem tanto.

Bonnie 'Prince' Billy nunca foi muito popular por aqui pelo Atalho e não é com este "New Year's Eve's the Loneliest Night of the Year" que irá alterar tal estado de coisas.

O lado B arranca bastante mais consistente pois Mike Heron é farinha de outro saco. Não obstante a utilização avulsa dos metais e o protagonismo da bateria contribuem para desvirtuar a matriz da canção. De tal forma que no final não se percebe bem qual era a ideia.

Um single que serve sobretudo para marcar o terreno enquanto se aguarda pelo novo álbum, apontado para Março de 2011.

04/12/10

Jardins do Paraíso XXIII ( Ted Lucas )


Por momentos cheguei a temer que para apreciar verdadeiramente “Ted Lucas” fosse necessário estar pedrado.

Ao longo de anos habituei-me a conviver com inúmeras referências elogiosas ao disco. Porém, quando finalmente tive oportunidade de escutar a recente reedição, ao fim de 3 / 4 músicas, questionei-me sobre a razão de tantos comentários superlativos.

Ted Lucas viveu a maior parte da sua vida artística em Detroit. Em meados de 1965 liderava os Spike Drivers e, anos mais tarde integrou os Misty Wizards e os Horny Toads. Apesar de um pequeno conjunto de singles prometedores, o sucesso, seja lá o que isso for, andou sempre arredio e Lucas só entraria no radar dos apreciadores do folk-rock psicadélico muito mais tarde, já no rescaldo da publicação ( em 1975 ) do álbum homónimo na sua editora OM. O design/artwork da capa – autoria de Stanley Mouse –, ajudou certamente à criação do pequeno mito, acabando anos volvidos por estar na origem do logótipo dos insuportáveis Journey.


( The Spike Drivers )


Ted Lucas” principia da pior maneira. “Plain & Sam & Simple melody” e “It’s so easy” são, que me recorde, dos mais débeis temas de abertura para um disco com um tão grande capital de elogios. “Now that I know” é uma balada aceitável; “”Find a way” e “Baby where are you” pouco mais que inócuas e, a terminar o lado A, “It’s so nice to get stoned” ( lá está ! ) é apenas assustadora.

Lado B. A coisa só pode melhorar. “Robins ride”, repartindo democraticamente o virtuosismo entre a guitarra acústica de Lucas e as congas de Danny Ballas, é encorajador. Os 7 minutos que dura a suite “Sony Boy Blues” são um puro deleite com a guitarra acústica a percorrer os trilhos do delta-blues num absoluto frenesi, hesitando entre o formalismo da tradição negra e o desvario psicadélico.



O longo “Love & Peace Raga” constitui a “pièce de resistance” do disco. Perfeito na forma e no conteúdo, oferece-nos uma guitarra que poderia ter sido tocada por Robbie Basho ou John Fahey ( é verdade, Ted Lucas era também um excelente instrumentista ) enquanto lá atrás, como que servindo de lastro, a tambura de Carol Lucido sustenta toda a improvisação do solista. Notável.

Os meus receios iniciais revelaram-se afinal infundados. Para apreciar o disco bastará escolher os temas certos. “Ted Lucas” é um daqueles álbuns que viveria bem melhor no formato de EP.

30/11/10

Lost Nuggets ( 21 )


Mick Wills "Fern Hill" ( Woronzow Records, WOO 9 ) 1988


- "Fern Hill"
- "The storm"
- "Put down"
- "Jam #3, Extracted Decibelia"
- "Waterbird"
- "Saxifrage"
- "Sleepless night"
- "Lullabye"
- "Remembrance"
- "Waltz"
- "Spacewalk"
- "Phases of the Moon"
- "She looked down"

Mick Wills ( músicas e guitarras ), Nick Saloman ( textos, guitarra, baixo, dulcimer, bateria e orgão ), Jenny Brown ( voz ), Cyke Bancroft ( saxofone e harmónica ), Graham Cummings ( orgão ), Dominic Collette ( baixo ), Martin Crowley ( bateria ) e Mick Donovan ( bongos ).

Produção de Mick Wills e Nick Saloman.

Capa: Foto de Mike MacNamara; design/artwork de R. M. Bancroft

28/11/10

Artefactos ( 9 )


Do conjunto das diversas bandas satélite dos Feelies ( Speed the Plough, The Trypes, The Yung Wu, Wild Carnation ), Sunburst é por certo a menos conhecida. Talvez por nunca o ter chegado a ser verdadeiramente.

Um projecto fugaz que integrou John Baumgartner, Stanley Demeski, Glenn Mercer e Dave Weckerman, dos Sunburst apenas se conhece o artefacto aqui reproduzido. Um EP homónimo, numa edição privada datada de 2000, nunca oficialmente comercializada e que inclui três temas soberbos. Na linha do que melhor criaram e gravaram os Speed the Plough.

O número de exemplares postos a circular permanece, pelo menos para mim, um insondável mistério.

25/11/10

Bruce Springsteen "The Promise"


O álbum “Born to run” e em particular o tema homónimo, foram ( são ) a síntese perfeita e em formato “technicolor” das idiossincrasias e do legado de alguns dos meus heróis de sempre – Kerouac, Scorcese, Waits, Fuller, Malick, Ford, Dylan -; música maior do que a vida, estradas que morrem na linha do horizonte, pé na tábua e a recusa em fazer prisioneiros.

Mas se “Born to run” foi enorme e irrepetível, “Darkness on the edge of towntrês anos, muitos episódios e problemas depois, revela toda a essência de Springsteen, enquanto cronista da vida e do imaginário americanos dos 70s.

Mais de três décadas e de muitos discos volvidos, apesar de “The River”, “Nebraska” ou “The Ghost of Tom Joad”, não mudei de opinião. “Darkness” está acima de todos os outros, daí que por aqui “The Promise, The Lost Sessions: Darkness on the edge of town” tenha sido recebido com indisfarçável curiosidade.

As canções agora incluídas em “The Promise” foram escritas e gravadas entre 1975 e 1978, logo deveriam ter sido publicadas a seguir a “Born to run” e imediatamente antes de “Darkness”. Por vicissitudes várias, desde logo jurídicas , não o foram, tendo as respectivas fitas ( entre 50 e 60, o número varia consoante as fontes ) seguido directas para os arquivos, depois de escolhidos os 10 temas que fariam “Darkness”.



Algumas delas foram trazidas à superfície em discos posteriores do autor ou por via de nomes como Patti Smith, Pointer Sisters, Southside Johnny ou Gary U.S. Bonds, embora a grande maioria tenha permanecido na penumbra. Até agora!

Com frequência, os chamados “lost albums” bem como outras recuperações de arquivo, redundam em profundas desilusões. Não é todavia esse o caso de “The Promise”. As 21 canções que o integram faziam todo o sentido na época, tal como fazem todo o sentido hoje. Mais do que um elogio, trata-se de mera constatação.

Hits potenciais – “Rendezvous”, “Fire”, “Save my love”, “Because the night”, “Gotta get that feeling” – cruzam-se com os grandes épicos americanos – “Someday (we’ll be together)”, “The Brokenhearted”, “The Promise”, “Breakaway” -, e nesta viagem pelo mapa da América o ouvinte tanto pode dar de caras com Reed, Orbison ou Spector, como mergulhar no quotidiano de personagens que falam por Steinbeck, Mailer ou Waits.

E pouco importa se “City of Night” evoca “Walk on the wild side”, “Come on (Let’s go tonight)” mais não seja que “Factory” com outra letra ou ainda que “Racing in the Street 78” aparente ter perdido todo o romantismo quando comparada com a canção gémea de “Darkness”. No final tudo se resume a um único facto: com mais de 30 anos, “The Promise” é a melhor música que poderíamos escutar em 2010.

20/11/10

The Darrow Mosley Band "Desert Rain"


1973. Após abandonarem as bandas que ajudaram a formar, Kaleidoscope e Moby Grape respectivamente, Chris Darrow e Bob Mosley davam os primeiros passos a solo. Actividades relativamente mal sucedidas à época , apesar de “Artist proof” do primeiro e “Bob Mosley”, serem hoje olhados como peças importantes na história da música californiana dos 70s.

Cumplicidades pessoais e profissionais antigas, bem assim como um manager comum, foram o pretexto , - motivo e a oportunidade -, para uma óbvia colaboração entre ambos. Daí até ao nascimento da Darrow Mosley Band foi um tiro.

Para o efeito foram arregimentados: Frank Reckard ( guitarras ), John Craviotto ( bateria ), Loren Newkirk ( teclas ), Claudia Lennear, “Brown Sugar” para os Stones e Jennifer Warnes, Miss “Famous Blue Raincoat” para Cohen ( vozes ).

Sabe-se hoje que gravaram apenas três canções, com as quais tentaram convencer os executivos da Warner Bros. As fitas contudo acabaram guardadas numa cave, como por esta altura o leitor certamente já percebeu.



Em boa hora resgatadas e publicadas com o acordo dos criadores e restantes intervenientes, dão-nos finalmente a conhecer um colectivo que poderia ter sido enorme, caso lhe tivessem permitido abandonar os blocos de partida.

Em matéria de composição não existem em "Desert Rain" grandes novidades. “Albuquerque Rainbow” teve a sua estreia ainda no decorrer de 1973, no álbum homónimo de Chris Darrow; “I wish it would rain” fora imortalizado pelos Temptations em 1967; por seu turno, “Beautiful day” constitui a versão lenta de “It’s a beautiful day today”, um tema que Mosley escrevera para “Moby Grape 69”.

Porém, nas vertentes instrumental e vocal, a matriz é soberba e irá deixar a salivar os fãs dos Kaleidoscope, Moby Grape e de tudo o que fica pelo meio ( Flying Burrito Bros, Manassas, Jo Jo Gunne, etc ), com excepção dos Eagles.

Estão pois de parabéns a Shagrat Records e Nigel Cross pela descoberta e publicação de mais esta preciosidade perdida no tempo. O formato escolhido para a edição ( EP de 10” ) e o inspirado design de John Hurford , contribuem para realçar ainda mais a exclusividade deste magnifico artefacto. “A labour of love”.

18/11/10

"Fuzz Acid and Flowers" Vernon Joynson


Terceira edição da saga "Fuzz Acid and Flowers, a Comprehensive Guide to American Garage and Hippie-Rock" coordenada por Vernon Joynson.

O campo de pesquisa alargou-se mais uma vez ( encontra-se agora compreendido entre 1963 e 1977 ) e o número de páginas aumentou de 1100 para 1400. Opções que para além de começarem a parecer algo ridículas, tornam quase impossível o manuseamento do volume.

A qualidade dos textos nunca foi de primeira água. Ao contrário, a informação disponibilizada, revela-se útil e quase sempre fiável. Ainda assim longe do criterioso e conciso "The Acid Archives" de Patrick Lundborg ou do pioneiro "Le Rock Psychédélique Américain" de Philippe Thieyre que aqui abordarei por um destes dias.

16/11/10

Lost Nuggets ( 20 )


Gay & Terry Woods "Backwoods" ( Polydor Super 2383 322 ) UK 1975

- "I missed you"
- "The Hymn"
- "Dublin Town"
- "The Fair"
- "Side tracked"
- "Thinking of you"
- "Second hand sale"
- "Sorry friend"
- "Winter poem"
- "Dunlavin Green" ( Tradicional )

Gay & Terry Woods ( cancões, vozes, dulcimer, guitarras, concertina e mandolim ), Mike Giles ( bateria ), Dave Wintour ( baixo ), Geoff Whitehorn ( guitarra eléctrica ), Peter Arnesen ( piano ), Ed Dean ( guitarra slide ), Joe O'Donnel ( violino ) e Tony Carr ( congas ).

Produção de Tony Aktins.

Capa: Fotos de Tom Collins, design de Paul Welch.

14/11/10

Killers, Angels, Refugees ( 20 )


"Revolution Blues" ( Neil Young )

Well, we live in a trailer at the edge of town
You never see us 'cause we don't come around.
We got twenty five rifles just to keep the population down.
But we need you now, and that's why I'm hangin' 'round.
So you be good to me and I'll be good to you,
And in this land of conditions I'm not above suspicion
I won't attack you, but I won't back you.

Well, it's so good to be here, asleep on your lawn.
Remember your guard dog? Well, I'm afraid that he's gone.
It was such a drag to hear him whining all night long.
Yes, that was me with the doves, setting them free near the factory
Where you built your computer, love.
I hope you get the connection, 'cause I can't take the rejection
I won't deceive you, I just don't believe you.

Well, I'm a barrel of laughs, with my carbine on
I keep 'em hoppin', till my ammunition's gone.
But I'm still not happy, I feel like there's something wrong.
I got the revolution blues, I see bloody fountains,
And ten million dune buggies comin' down the mountains.
Well, I hear that Laurel Canyon is full of famous stars,
But I hate them worse than lepers and I'll kill them in their cars.



Hoje, durante a minha caminhada matinal, regressei a "Revolution Blues". Um facto recorrente desde que "On the Beach" foi publicado em 1974.

Não obstante, descubro sempre algo de novo, como se escutasse o tema pela primeira vez. E nunca me cansarei da guitarra ritmo de David Crosby, tal como é impossível alguém ficar indiferente perante uma das mais extraordinárias performances de um baixo eléctrico em estúdio; cortesia de um tal Rick Danko.

12/11/10

Chris Wilson "Love over Money"


Há anos que sigo com grande interesse a carreira de Chris Wilson. Um percurso intermitente, repleto de altos e baixos, mas onde é sempre possível descobrir aquela emoção genuína e sensorial que caracteriza o rock and roll, prosaico e despretensioso.

Por ter passado ao lado de uma grande carreira, ainda que o seu talento amplamente justificasse outro fado, este nativo da Califórnia transformou-se numa figura de culto junto do underground e dos apreciadores de um psicadelismo matizado de power-pop.

Dinamizado pelo guitarrista e compositor Anthony Clark, “Second lifeo disco de regresso de 2008, mereceu aplausos inesperados e foi objecto de várias reedições. “Love over Money”, o sucessor, procura seguir o mesmo trilho.



Ao fiel escudeiro Anthony Clark juntam-se agora Roy Loney, George Alexander, Mike Wilhelm, James Farrel ( todos antigos Flamin Groovies ), Robin Wills ( Barracudas ) e Matthew Fisher ( Procol Harum ). Se a grandeza dos nomes fosse directamente proporcional à qualidade da composição, “Love over Money” seria um trabalho do outro mundo. Como tal raramente se verifica, trata-se apenas de um bom disco de Chris Wilson.

Um trabalho onde as enciclopédicas guitarras do autor desenham insidiosas melodias pop (“Way too fast”, “Can’t let go”, “Fading away” ), recuperam antigas matrizes californianas (“Cold dark night”, “Bad dreams”) e, como seria expectável em Wilson detém-se demoradamente em Dylan; na circunstância o Dylan de “Blood on the tracks” (“Set free” , “Semaphore signals”).

Love over Money” não é definitivamente um disco deste tempo. Encontra-se “enfermo” de sonhos maiores que a vida, ingenuidades várias e muita nostalgia. Características, sabemos todos, difíceis de compaginar com a selvajaria, canalhice despudorada e completa ausência de valores com que todos os dias nos agridem. Apesar disso, embora não sendo brilhante, o seu encanto particular mais do que justifica a respectiva audição.

09/11/10

Galactic Ramble


É sempre bom ler alguém que sabe do que fala. Melhor ainda, se dos factos detiver uma correcta perspectiva histórica.

Dito isto, reputo o novo blog de Richard Morton Jack, Galactic Ramble, de absolutamente obrigatório para os habituais peregrinos do Atalho.

05/11/10

Artefactos ( 8 )


Peter Hammill, com ou sem Van der Graaf Generator, é objecto de um culto quase religioso aqui pelo Atalho. As razões são inúmeras e porventura também geracionais. Contudo, contabilizo a meu favor o facto de hoje ser já consensual que se trata de um artista sem paralelo na música inglesa das últimas décadas. Hermético por vezes, complexo sempre, emotivo a espaços, absolutamente independente e nunca adepto do facilitismo. Um "renegado do impressionismo" como alguém em tempos lhe chamou.

Nem todos os seus discos são essenciais, naturalmente. Mas na relação "número de álbuns/obras primas", o rácio das últimas encontra-se bastante acima da média. E apesar da persistente e continuada ausência de atenção por parte da imprensa "mainstream", já nem é necessário Johnny Rotten ou Julian Cope saírem em sua defesa. Após 40 anos, já não é mais possível ignorar o óbvio.

Ao acaso, reproduzo abaixo algumas provas materiais desta espécie de liturgia.


"Van der Graaf Generator, The Book" ( em cima ) por Jim Christopulos e Phil Smart, numa edição privada datada de 2005. Ao longo de mais de 300 páginas e outras tantas fotos, conta TODA a história de VDGG e Peter Hammill no período compreendido entre 1967 e 1978. Um "must" absoluto.

"Killers, Angels, Refugees" ( em baixo ) na edição original da Charisma Books datada de 1974. Inclui as letras dos temas de Hammill até ao álbum "Chameleon in the shadow of the night", comentários acerca das canções e algumas "short stories".


Por fim, duas pequenas contribuições do "yours truly" para a causa.


Texto publicado no número 93 do jornal "Musicalíssimo" ( 9 de Agosto de 1974 ) e uma foto da entrevista a Peter Hammill co-realizada com Belino Costa para o "Jornal Se7e" em Dezembro de 1982, na véspera dos concertos promocionais de "Enter K", dias 17 ( Pavilhão de Alvalade ) e 18 ( Pavilhão Infante de Sagres ).