22/12/08

Damon & Naomi ( Concertos )


Damon & Naomi estão de volta a Portugal nos próximos dias 16 e 17 de Janeiro ( o poster criado por Diego Cano para as datas em Portugal e Espanha é reproduzido acima ). Um facto indiciador de que, pelo menos em matéria de concertos, 2009 não começa mal.

Este pequeno périplo pela Europa ocidental não é mais do que o prolongamento da tournée de lançamento de álbum “Within these walls”, a qual teve inicio em Janeiro de 2008 no Japão e se estendeu ao Estados Unidos na primavera/ verão.

Uma espécie de ante estreia para o que poderão ser as novas performances europeias, “Shibuya O-Nest Tokyo, Japan 2008” é um DVD que perpetua as duas actuações nipónicas do ano passado e já se encontra disponível ( via site do grupo ).





Com uma banda de apoio constituída por Michio Kurihara ( guitarra ), Bhob Rainey ( sax ), Helena Espvall ( cello ) e Masaki Batoh ( convidado para os temas retirados das colaborações com os Ghost ), Damon & Naomi recriam a quase totalidade de “Within These Walls” e ensaiam oportunas incursões em “Playback singers” através do magnífico “Eye of the storm”, “The earth is blue” com “Ueno Station”, “ with Ghost” com “New world” e “Song to the siren” com um “Love” cantado em japonês.

A captação das imagens e a realização são por vezes algo deficientes. A espaços, ignoram os músicos que no momento estão a protagonizar a intervenção mais significativa ( custa a entender como estando em palco um monstro como Kurihara, olimpicamente, a câmara o ignore quando a sua guitarra propulsora toma a liderança, preferindo procurar o cello de Espvall ou as teclas de Naomi ).



Não obstante, "Shibuya O-Nest Tokyo Japan 2008” é globalmente muito interessante e reflecte o estado actual de uma das bandas mais sólidas e intelectualmente sérias do psicadelismo americano.

Um bom lançamento para os dois concertos que se anunciam. Esperando e desejando que Michio Kurihara faça parte da bagagem...

17/12/08

Quicksilver Messenger Service


Na adolescência quando o meu grupo de amigos se reunia nas tardes de sábado em redor de um pequeno gira-discos, a disputa ocorria entre “Three friends” ( Gentle Giant ), “Volume IV” ( Black Sabbath ), “Foxtrot” ( Genesis ), “Kick out the jams” ( MC5 ) e “Happy Trails” (Quicksilver Messenger Service ). Invariavelmente, a levitar, acabávamos todos a escutar os delírios épicos de “Calvary” e o “vibrato” único de John Cipollina em “Mona”. Todo o glorioso lado B do vinil de “Happy Trails”, cujo exemplar ainda guardo, religiosamente.

Após a morte de Jerry Garcia em 1995, os Grateful Dead viram publicados dezenas de álbuns com gravações captadas ao vivo em diferentes períodos da respectiva história. Em anos recentes os Jefferson Airplane viram também editados alguns dos seus concertos mais marcantes ( embora a maioria sustente apenas significado histórico, pois a qualidade áudio é muito fraca ).

Dos três maiores grupos saídos de São Francisco/Haigh Ashbury 1965/67, Quicksilver Messenger Service era aquele que possuía publicado menor número de testemunhos ao vivo, excluindo naturalmente as dezenas de bootlegs que circulam entre fãs em circuito fechado e “Lost Gold and Silver”, uma fugaz e excelente edição Collector’s Choice de 1999.

Um facto que se estranhava pois é sabido que QMS foi à época o grupo da cidade que mais concertos promoveu, mesmo antes de gravar o primeiro álbum em 1968.

(esquerda para direita Gary Duncan, John Cipollina, Greg Elmore e David Freiberg)


A lacuna acaba de ser corrigida pela Bear Records que recorrendo aos arquivos dos Jefferson Starship/QMS publicou de uma assentada:

- “Live at the Avalon Ballroom, San Francisco, 9th September 1966
- “Live at the Avalon Ballroom, San Francisco, 28th October 1966"
- “Live at the Fillmore Auditorium, San Francisco, 4th February 1967
- “Live at the Fillmore Auditorium, San Francisco, 6th February 1967
- “Live at the Carousel Ballroom, San Francisco, 4th April 1968".

Todos os registos ocorreram em data prévia à gravação do álbum estreia “Quicksilver Messenger Service” ( QMS foi a última das grandes bandas de São Francisco a assinar um contrato discográfico), e possuem excelente qualidade áudio, um pormaior que vai permitir aos fãs colocar finalmente de lado os piratas manhosos que escutam há décadas. Mais importante ainda: todos eles acolhem a formação seminal do grupo: John Cipollina, Gary Duncan, David Freiberg e Greg Elmore.

Sem qualquer motivo justificável, o Atalho optou por destacar “Live at the Fillmore Auditorium, San Francisco, 4th February 1967”. O Cd é duplo e regista as prestações de QMS no palco do Fillmore West naquele fim de semana.


( poster do concerto, autor Wes Wilson )

Estão ali todas as componentes do mítico som Quicksilver. A permanente tensão entre as guitarras gémeas de Cipollina e Duncan que quase sempre arrastam o grupo para jams épicas e lisérgicas; a percussão de Greg Elmore, quase tribal pela necessidade de se fazer ouvir; a fluidez rítmica e o esforço titânico do baixo de Freiberg para manter unido um grupo que albergava snipers do calibre de Duncan e, sobretudo, Cipollina.

QMS era no essencial uma banda de palco. Ali respirava como poucas e sem esforço arregimentava para o seu lado as audiências; uma cumplicidade que se pode comprovar nestas gravações agora recuperadas. Reflectem a dinâmica e as idiossincrasias da banda como os discos de estúdio raramente conseguiram.



As versões de “Codine”, “Dino’s Song”, “I hear you knocking” – nesta em particular pode desfrutar-se do génio de Cipollina e compreender o culto de que é objecto por parte de alguns músicos contemporâneos com o japonês Michio Kurihara (Ghost, Stars, White Heaven, Boris, Damon & Naomi) à cabeça - “Mona, “Pride of man”, “Walkin blues” ou “Who do you love”, possuem uma urgência e dimensão que, exceptuando o tratamento que algumas delas obtiveram em “Happy Trails”, não é possível encontrar em mais nenhum disco de QMS.

Uma banda e um património a rever ou descobrir, consoante a idade ou a vivência.

12/12/08

Neil Young "Sugar Mountain, Live at Canterbury House 1968"



Retirado do enorme baú que é a carreira de Neil Young e não estando previsto integrar o projecto editorial dos “Arquivos”, “Sugar Mountain, Live at Canterbury House 1968”, acaba de ser resgatado aos “bootlegs” e conhece finalmente uma edição legal.

Cronológicamente as fitas que perpetuaram este concerto, situam-se entre o fim dos Buffalo Springfield, no verão de 68, e a publicação de “Neil Young” no Natal desse mesmo ano. Os concertos acústicos que o canadiano protagonizou serviram para testar a reacção do público face às canções que iriam integrar o primeiro álbum solo. E, a avaliar pelo que nos é possível escutar em “Sugar Mountain”, o teste só pode ter sido um sucesso.

Neil Young é um artista multifacetado, caprichoso, imprevisível e frequentemente incoerente. Mas é exactamente quando se apresenta rigorosamente a solo ( acompanhado pela guitarra acústica e/ou piano ) que atinge o cume da “sua” autenticidade. Por outras palavras: existem vários “Neil Young”, uns muito bons outros um pouco menos, porém é quando surge mais “desprotegido”, sem as guitarras em “feedback” e longe das cavalgadas apocalípticas Crazy Horse ou outros jogos de espelhos sonoros de inspiração “country” que Neil nos deixa perceber a verdadeira dimensão do seu talento. Como aqui.



Sugar Mountain” acolhe em inspiradas versões lo-fi as grandes contribuições do músico para os Springfield (“Mr. Soul”, “Expecting to fly”, “Broken arrow”, “Out of my mind”, “On the way home”) e adiciona-lhe “The loner”, “I’ve been waiting for you”, “The old laughing lady”, “If I could have her tonight” todas incluídas no disco de estreia, “Birds” (que surgiria em “After the goldrush”) e “Sugar Mountain”, esta só publicada em álbum através da compilação “Decade”.

O curioso e hoje talvez motivo de surpresa para muitos, reside no facto de ao escutarmos estas canções, interpretadas de forma simples e despojada ( sem os arranjos de matriz barroca que de alguma forma ajudaram um pouco a datar o álbum “Neil Young”), nos ser sugerida uma espécie de paragem no tempo. Afinal, não terão passado 40 anos. Paradoxalmente ou talvez não, os temas que Young abordou nestas canções são hoje, individual e colectivamente, tão importantes como o eram em 1968.

Porventura a melhor prova da sua extraordinária dimensão.



*** Nota a propósito da anunciada edição do 1º Volume dos “Arquivos”***


Mesmo para os apoiantes da primeira hora como eu, começa a faltar a paciência para o comportamento errático manifestado por Neil Young a propósito da publicação dos seus famosos "Arquivos".

Anunciada há mais de 10 anos, a edição já teve apontadas meia dúzia de datas. Todas alteradas porque o velho Neil não estava satisfeito com determinado pormenor ou simplesmente aguardava a última novidade tecnológica para suportar fisicamente a edição.

Agora, ao que parece, decidiu-se pelo DVD e pelo Blue-Ray e a data avançada para o lançamento é o final de Janeiro 2009. Só que os preços previstos ( nomeadamente pela Amazon e já contemplando o desconto promocional ), 310 dólares para a versão DVD e 324 dólares para o Blue- Ray, são no mínimo especulativos, para não lhes chamar obscenos. Como o primeiro volume dos “Arquivos” terá 10 discos, estamos a falar de uma média de 31 dólares cada, o dobro do que é normal e expectável. Um livro e uns quantos posters não justificam este desvario, sobretudo quando ao cabo e ao resto o que interessa aos fãs é basicamente a música.





Mais, de acordo com relatos oficiais, a caixa incluirá também “Live at Massey Hall 1971” e “Live at Fillmore East 1970” ambos recentemente publicados. E aqui uma de duas, ou Young não os integrava nos “Arquivos” ou, se o queria fazer, não os tinha lançado antes. Querer simultaneamente sol na eira e chuva no nabal é algo que um artista com o passado e a idade de Neil devia saber que não fica bem.

Com tanto tempo dedicado à preparação da edição dos “Arquivos” o músico deveria ter pensado numa solução que do ponto de vista do custo fosse menos ofensiva para todos aqueles que lhe apoiaram a carreira durante 4 décadas.

Dito isto, o Atalho não voltará a abordar o tema dos “Arquivos”.

Ps: enquanto ultimava estas linhas soube que, fruto das abundantes críticas ou simplesmente porque mudou de novo de opinião, o homem voltou a usar a barriga e empurrou a data de lançamento dos “Arquivos” para Abril / Maio 2009. Mais do mesmo portanto.

09/12/08

Wolf People "EP"


Wolf People! Façam o favor de reter este nome.

Se existisse uma ponta de vergonha e de justiça neste mundo, esta banda tinha antena assegurada no éter e chamadas de atenção em todas as revistas da especialidade. Como a vergonha é cada vez mais um conceito arcaico e a justiça, que deveria servir para repor a verdade dos factos quando a falta de vergonha impera, naturalmente para lá caminha, as rádios vão continuar a divulgar os habituais verbos de encher amestrados. Estes por seu lado irão continuar a integrar as listas dos “melhores do ano” e, por essa via, continuarão a ser promovidos.

O quinteto londrino que constitui Wolf People representa uma outra estirpe de músicos. Percebe-se de imediato que para além de gostarem do que fazem, possuem enorme bom gosto e já ouviram quase tudo o que realmente importa ouvir na música rock.

O cd EP auto produzido pela banda, compila temas anteriormente publicados em 3 singles. São 5 canções construídas em cima das maquetas que as duas guitarras esboçam. Trata-se portanto de música elaborada por apóstolos da guitarra eléctrica e tem como público alvo os amantes da mesma.

A sonoridade é consistentemente “west coast”. Aqui e ali, torna-se ainda mais colorida ao acolher o serpentear melódico da flauta, um instrumento que as mentes politicamente correctas tentam tornar proscrito desde “Thick as a brick”.


Para os meus ouvidos, os arranjos e o trabalho das guitarras em temas como “Caratacus” ou “Cotton Strands” só têm paralelo nos momentos altos dos galeses Man, nas live jam sessions protagonizadas pelos Quicksilver Messenger Service ou em algumas das páginas escritas pelos Country Joe & The Fish. Quem conhece os álbuns de estreia de Mad River ou Television vai naturalmente perceber o que andavam a ouvir os Wolf People quando escreveram “Storm Cloud”. O mesmo raciocínio se pode aplicar relativamente a Captain Beefheart e a “October Fires” , enquanto “Black Water” só ganha com a inesperada intromissão de uma “guitarra Gimme Shelter” que vem ajudar a colocar o tema num patamar superior.

Em resumo: os californianos inventaram os Wooden Shjips; os londrinos responderam com Wolf People.

Duas bandas com tal dimensão a emergirem do underground em tão curto espaço de tempo, só pode ser motivo de celebração. Depois não digam que ninguém os avisou.

05/12/08

"Shindig! Annual # 1"


Publicado em edições reduzidas e a circular intermitentemente desde 1993, o magazine britânico “Shindig!” tem sido comparado a velhas publicações independentes como Zigzag, Strange Things are Happening ou até Ptolemaic Terrascope, embora este último, na minha opinião, constitua um paradigma difícil de suplantar.

Nas palavras do seu editor Jon ‘Mojo’ Mills, “Shindig!” é “ uma revista sobre o psicadélico e outros excitantes e subvalorizados actos do pop, garage, folk e do prog” e, “uma fonte de informação para todos os interessados na música, cinema, literatura e cultura, ignorados pela imprensa mainstream”.

Recentemente a revista profissionalizou-se e passou a editar um número a cada dois meses. Os conteúdos mantêm o enfoque anterior, mas surgem do ponto de vista gráfico bastante melhor apresentados.

Acabado de lançar, “Shindig! Annual Number 1”, um volume com 112 páginas e capa grossa, é uma espécie de “Best of” e reabilita textos antigos que para o efeito foram objecto de um novo e mais apelativo grafismo.

Todavia mais do que o aspecto visual, o que motivará os interessados serão naturalmente os conteúdos. Recuperações que incidem sobre nomes como The Move, Grapefruit, Les Fleur de Lys, Ugly Ducklings, Kaleidoscope (UK), Buffalo Springfield, SRC, Action ou John’s Children.

Artigos de opinião, entrevistas, peças relatando histórias e episódios sui generis, etc. O difícil é mesmo ter ficado algum ângulo por analisar.

02/12/08

Hammock "Maybe they will sing for us tomorrow"


Para dar corpo ao quarto álbum, Hammock, um duo de Nashville constituído por Marc Byrd e Andrew Thompson, decidiu publicar a música que compôs para uma exposição de arte visual dos Riceboy Sleeps ( Jonsi Birgisson dos Sigur Ros e Alex Sommers dos Parachute ).

Algo diverso dos anteriores, “Maybe they will sing for us tomorrow” protagoniza a mais minimalista, subtil e melancólica das propostas de Hammock. Relaxante e inspirador, apela em primeiro lugar aos seguidores do período ambiental de Brian Eno ou ao mosaico modernista de Popol Vuh, ao mesmo tempo que concorre directamente com sonoridades mais recentes como as que emergem de Stars of Lid ou Windy & Carl.

Quase uma revelação espiritual, “Maybe they will…” promove o diálogo entre o espaço e a beleza, captando e reproduzindo a essência da paisagem que quer Byrd quer Thompson afirmam ser a sua principal fonte de inspiração: o Sul rural.



“… The scenery of the South can be idyllic and picturesque, but also desolate at the same time. There are stretches everywhere that are nothing but miles of shacks and burned-out barns overrun with kudzu. So we were expressing the melancholy of the South as well…” .

“Maybe they will sing…” percorre onze temas poderosos e emotivos. Vastos e invariavelmente belos, para serem escutados muito mais do que simplesmente ouvidos. De preferência num espaço onde só caiba o silêncio.

Pouco mais haverá a dizer. Excepto que, depois, talvez vos apeteça voltar a “Hosianna Mantra” ( Popol Vuh ) ou a “Apollo” ( Brian Eno ). Notável.

25/11/08

Jardins do Paraíso X ( Simones )




Al Simones protagoniza o mais estimulante anacronismo que o psicadelismo americano conheceu nos últimos 15 anos. Com grande simplicidade, veste a pele do artista misantropo e desafia-nos por trás da designação prosaica e, no caso absolutamente óbvia, de Simones.

Pouco se sabe da personagem. Natural de North Lima no Ohio, onde vive e gere ( ou geria ) a loja/editora Purple Phrogg, Al Simones configura o entusiasta da guitarra (acústica ou eléctrica ) enquanto instrumento catalisador de divagações sonoras e/ou manifestações de inspirado virtuosismo técnico.

O estilo que reinventa e molda no recato da sua garagem, radica em primeiro lugar na herança do rock psicadélico americano ( anos 1967-1970 ), a que depois adiciona outras derivas que conduzem às vertentes “fuzz” ou “ freakout solo guitar jams”.



A tónica tanto pode incidir nas opções acústicas como nas eléctricas. Porém sempre hipnóticas. Tal como hipnóticos foram (são) os álbuns “Mad River” ( Mad River ), “The Savage Resurrection” ( Savage Resurrection), “Outsideinside” (Blue Cheer ), “The family that plays together” (Spirit ), “Quicksilver Messenger Service" ( QMS ) ou os três primeiros de Hendrix.

Fosse Al Simones um “songwriter” da estirpe dos que integraram as bandas atrás citadas e em lugar de estarmos a falar apenas da melhor guitarra do psych-underground contemporâneo, estaríamos porventura também a dissertar sobre um émulo de Randy California, John Cippolina, Fred ‘Sonic’ Smith ou Leigh Stephens.

Os três álbuns que concebeu e gravou para a Purple Phrogg : “Corridor of dreams” ( 1992 ), “Enchanted Forest” ( 1997 ) e “Balloon ride” ( 1999 ), todos objecto de uma muito cuidada edição limitada de 500 exemplares, são hoje literalmente impossíveis de localizar, mesmo a preços insensatos.



Recentemente a South Side, uma editora da Georgia, procurou corrigir este estado de coisas ao compilar “Corridor of dreams” e “Enchanted forest” num único CD com uma capa dupla de cartão que reproduz na integra a escassa informação que Al disponibilizou nas edições originais.

Sendo certo que qualquer dos 3 discos é de audição obrigatória para todos os incondicionais do género, esta iniciativa da South Side passa por ser a melhor forma do comum dos mortais poder ter acesso a uma música ao mesmo tempo estranha e tremendamente cativante.

20/11/08

My Education "Bad vibrations"


My Education é um colectivo oriundo de Austin Texas e privilegia a música instrumental, uma opção que por vezes gosta de partilhar com bandas aparentadas como Pelican, Maserati ou Kinski.

Ao quarto álbum, com “Bad Vibrations”, My Education posiciona-se mais próximo da maturidade. O dialecto pós-rock funde-se agora com estruturas e paisagens psicadélicas e, nesse sentido, a banda diverge do monolitismo que caracteriza outros grupos texanos de que o exemplo contemporâneo mais proeminente serão os Explosions in the Sky.

Bad Vibrations” é um registo sereno. Apela à confidência e mergulha em ambientes contemplativos. Em simultâneo, replica a beleza quase folk de projectos transnacionais como Saint Joan ou Tanakh ( a viola de James Alexander , na ausência das vocalizações, constitui o grande elo de ligação ) juntando-lhe a convulsão épica inventada pelos nipónicos MONO. O exemplo mais feliz será o tema “Arch”: principia melancólico e intimista, como se John Cale e a sua secular viola estivessem presentes; perto do final evolui para a pirotecnia em direcção ao clímax. Previsível mas belíssimo.



Aqui e ali, como no tema título, as guitarras slide recuperam as sonoridades psicadélicas que Jesus Acedo e os Black Sun Ensemble praticam há anos, inspirados pelas paisagens do deserto do Arizona que penduraram na memória ou nas paredes do estúdio.

Dito isto, seja qual for o prisma por que se olhe para esta música ( Tortoise, Dirty Three, Six Organs of Admittance, ou qualquer um dos outros nomes já referidos ), não há nada de “mau” nestas “vibrações”. Muito antes pelo contrário.

16/11/08

Jardins do Paraíso IX ( Gary Farr )


Foi necessário esperar perto de 40 anos, uma eternidade, para que o primeiro álbum solo de Gary FarrTake something with you”, um dos mais inspirados discos de um singer songwriter a emergir do underground britânico, conhecesse finalmente uma reedição legal e capaz de lhe fazer justiça.

Natural do Sussex, e filho do pugilista e improvável herói galês Tommy Farr, que em 31 de Agosto de 1937, no Yankee Stadium de Nova Iorque, ficou a escassos pontos de derrotar o lendário “bombardeiro negro” Joe Louis num combate pelo título mundial de pesos pesados, desde cedo que o jovem Gary se interessou pela música, em particular pelo rhythm’n’blues. Uma paixão que materializou entre 1965 e 1967 ao liderar a banda Gary Farr and The T-Bones.

Terminado o projecto, Gary Farr começou a movimentar-se nas margens do underground psicadélico de Londres e em 1969 gravou para a Marmalade um single a meias com Kevin Westlake (Blossom Toes). O patrão da nova editora Giorgio Gomelsky ficou impressionado e colocou Gary em estúdio suportado no produtor Reggie King (ex-Action), pelo compositor galês Meic Stevens e por instrumentistas como Martin Stone, Ian Whiteman, Mike Evans, Roger Powel (todos Mighty Baby), Andy Leigh (Spooky Tooth) e Brian Belshaw, outro dos Blossom Toes.

O resultado, “Take something with you”, ficou concluído no final de 1968. Contudo só seria publicado no Natal seguinte, quando Gomelsky já se preparava para encerrar as portas da Marmalade e deixar cair os artistas, fruto de promoção e distribuição deficiente. Uma contrariedade que no caso vertente , nem uma bem sucedida participação de Farr no Isle of Wight Festival 1969 conseguiu vencer.



Tecnicamente a vida de “Take something with you” terminava ali. Só viria a renascer muitos anos mais tarde quando, na âmbito de um dos cíclicos movimentos de prospecção e recuperação do passado, se lhe atribuiu verdadeira importância e envergadura.

Melódico, consistente, bem vocalizado e melhor tocado, todo o disco é um inspirado trabalho que remete o ouvinte para o inesgotável universo do folk-rock do final dos 60s. Um idioma que à data era utilizado por inúmeros intérpretes, nos dois lados do Atlântico.

Excluindo os blues assumidos que são “The Vicar and the Pope” e “Dutsbin”, Gary Farr percorre em registo pastoral universos habitados pelo Van Morrison de “Astral Weeks” (“Don’t know why you bother, child” ), pelo Tim Buckley de “Goodbye and Hello” ( no enormíssimo “Time machine” e em “Curtain of sleep” ), Tim Hardin (“Take something with you”), Phil Ochs (“Goodbye”), ao mesmo tempo que antecipa o bucolismo que a guitarra acústica de Jimmy Page viria a decorar no “Led Zeppelin III” (“Two separate paths together”).

Muito provavelmente a reedição do ano para o Atalho, este “Take something with you” inclui ainda os 2 temas do single gravado com Kevin Westlake, bem como 15 demos registados em versão lo-fi entre 67 e 70, entre os quais 7 inéditos absolutos e “In the mud” o qual conheceria a sua versão definitiva em 1970, no também muito recomendável “Strange Fruit”.

Gary Farr viria a falecer em Agosto de 1994 em Lauren Canyon, vitima de um ataque cardíaco. Ganhava a vida como fotógrafo em Hollywood e na época estava a trabalhar na adaptação ao cinema da autobiografia do pai.

12/11/08

Alison O' Donnell "Day is done/Frozen warnings"


Muita água correu debaixo das pontes desde que a adolescente Alison Bools deixou o Holy Child Convent School em Dublin para integrar os Mellow Candle com os quais, já em Londres, gravou “Swaddling Songs”. Ancorado na mitologia irlandesa, trata-se de um álbum de folk progressivo do qual não sou particular entusiasta mas que inegavelmente possui o seu charme e, mais importante, uma legião de apreciadores; designadamente coleccionadores que confrontados com a ultra raridade do disco original, depressa o transformaram numa espécie de Santo Graal.

Por razões várias Mellow Candle não vingou. Alison partiu para a África do Sul onde formou os Fibbertigibbet com os quais gravou alguns álbuns. Mais tarde, já nos anos 90, voltaria à Europa, envolvendo-se em projectos de inspiração celta (Eishtlinn), jazz (Earthlings) ou exclusivamente vocal (Oeda), opções interessantes mas quase sempre inconsequentes.



( Mellow Candle, 1972 )

Recentemente, os mais jovens artesãos do neo-folk britânico, na impossibilidade de trazerem Shirley Collins - a sua musa inspiradora -, de volta às gravações (anos atrás, Collins perdeu as extraordinárias capacidades vocais que fizeram dela um mito e uma figura de culto), voltaram-se para Alison, agora O’Donnell, que utilizam como uma elo de ligação entre o glorioso passado do folk britânico que pretendem recuperar e o presente.

Só no último ano, Alison já cantou em projectos de Steven Collins/The Owl Service (“The Fabric of Folk” foi já aqui comentado no Atalho ), Agitated Radio Pilot, United Bible Studies e Greg Weeks, de quem o novo “Sheer Cliff off Elka Park” se anuncia para breve.

Na vertente solo, Alison O’Donnell aceitou o convite da Fruits de Mer para gravar um single que a editora americana acaba de publicar numa edição limitada e em vinil colorido. Os dois temas são versões de “Day is done” e “Frozen warnings”.



“Frozen warnings” constituiu uma escolha arriscada e resulta num tiro completamente falhado. Temo que ainda estejam para nascer aqueles que serão capazes de suplantar a intensidade dramática e a beleza glacial que emergem da voz de Nico e dos arranjos de John Cale no original de “The marble index”. Quando comparada com a cantora alemã, a estrutura vocal de Alison O’Donnell ganha em cor e afectividade; logo, sente-se desconfortável num tema tão espartano e gélido como é “Frozen warnings”.

Ao contrário, “Day is done” revela-se um aposta sensata. A voz move-se francamente mais à vontade nos labirintos líricos e espaços melancólicos habitados por Nick Drake no original de “Five leaves left” . “Day is done” terá aqui uma das interpretações mais optimistas e luminosas que a canção de Drake permite.

07/11/08

Jardins do Paraíso VIII ( Strawbs )


Ao longo da sua história os Strawbs debateram-se sempre com um dilema nunca resolvido. A música que escreviam era considerada demasiado “folk” para os adeptos do progressivo, continha excessivos elementos “prog” para os incondicionais do folk.

E no entanto, Dave Cousins e Tony Hooper tinham começado pelo bluegrass, evoluindo posteriormente para o “folk” contemporâneo que tocaram em numerosos clubes do género.

Em 1967, o acaso colocou-lhes Sandy Denny no caminho. Com a inclusão do baixista Ron Chesterman, o quarteto gravou “All our own work”, um trabalho que à data ninguém pareceu interessado em editar (acabou por só ver a luz do dia em 1973, muito por força do estatuto entretanto adquirido pela cantora). Perante o insucesso Sandy Denny optou por sair para os Fairport Convention e o resto da história é conhecida.



Cousins e Hopper entretanto seguiram o seu caminho. “Strawbs”, o primeiro álbum, saiu em 1969. Produzido por Gus Dudgeon, arranjado de forma nada despicienda por Tony Visconti (na época responsável por alguns sucessos de Bowie e Tyrannosaurus Rex) e credor das participações de Nicky Hopkins, John Paul Jones e Nosrati & His Arab Friends entre outros, “Strawbs” é um registo de folk rock psicadélico muito interessante e nada negligenciável.

Talvez o mais marcadamente “folk” dos álbuns da banda, propõe atmosferas correspondentes em “Poor Jimmy Wilson”, “The man who called himself Jesus” (uma balada concebida na melhor tradição Dylan, muito popular após receber um significativo empurrão ao ser banida da antena da BBC) ou “Tell me what you see in me”, esta última visitando os sons e a arquitectura da música do médio oriente.


Simultaneamente “Strawbs” deixava já adivinhar o discurso musical futuro. O tema “That which once was mine” transporta as sementes do barroco renascentista que caracterizaria discos como “From the Witchwood” ou “Grave new world”. “Pieces of 79 and 15” e “Or am I dreaming” ganham textura com as orquestrações e adornos com o mellotron (recordo que na época os Moody Blues eram um projecto muito apreciado e ainda em crescendo) mas, ainda assim, todas elas não perdem de vista a principal influência: o “folk”.

Uma linguagem que atinge o zénite em “The Battle” um épico inesquecível de inspiração medieval que permanece uma das composições mais brilhantes de Dave Cousins.

Strawbs” foi recentemente objecto de uma reedição que inclui duas novas versões – “That which once was mine” e “Poor Jimmy Wilson” – além de uma gravação ao vivo de “The Battle” no BBC Radio One Show de John Peel.

03/11/08

The Famous Charisma Label 1969 - 1986


Por estranho que possa parecer aos mais novos, houve um tempo em que não existiam plataformas ou tecnologias como: I-Pod, MP3/4, My Space, Blue Ray, SACD, DVD, dowloads, legais ou dos outros. Não existia sequer o CD.

Reporto-me a um tempo em que a música era maioritariamente editada, escutada, transportada e guardada em rodelas, grandes ou pequenas, de vinil preto; quase sempre embaladas em deliciosas capas cuja concepção era entregue a gráficos e designers, artistas emergentes ou já conceituados.

Basicamente uma época em que os fãs, para além de escutarem a música, usufruíam do prazer suplementar de admirar o conjunto: disco, etiqueta, capa ( simples ou dupla ), inserts vários e, muitas vezes, booklets e posters. O mero facto dos interessados terem de se deslocar a uma loja, manusear dezenas, centenas, de artefactos como os descritos e no fim serem obrigados ao difícil exercício de escolher um deles, constituía em si mesmo um acontecimento.

Era pois quase impossível que o velho vinil não se transformasse num objecto de culto e colecção.



Toda esta prosa vem a propósito da publicação do livro “The Famous Charisma Label 1969-1986”, o terceiro volume da série The Famous British Collectable Record Labels ( depois de “Island Records 1962-1977” e “Harvest Label 1969-1980” ) que o afável e enciclopédico Yuri Grishin concebe e lança em edição bilingue ( russo e inglês ).

“The Famous Charisma Label”, tal como os anteriores, revela-se um paraíso para qualquer coleccionador ou interessado na matéria. No caso vertente contam-se episódios e histórias de pequenas empresas que vendiam singles porta a porta como a B&C ( Beat & Commercial ) Records , uma empírica joint-venture lançada por Chris Blackwell e um tal Tony Stratton-Smith, futuro dono da Charisma.



Pelo meio são dissecados pormenores e acontecimentos que levaram à criação da Trojan, Stable, Pegasus, PEG, B&C ou Mooncrest, etiquetas que antecederam ou de algum modo estiveram ligadas à Charisma Records.

Depois há espaço, muito espaço, para abordar cada um dos discos editados no período. Fotografias das capas, etiquetas e inserts. Pormenorizadas descrições das primeiras, segundas ou posteriores edições, números de matrizes, ano de publicação, tipo de capa e respectivos autores. Indices de fotógrafos, engenheiros de som, produtores e estúdios. Diferentes designs das etiquetas e indicação do preço de mercado estimado para exemplares em bom estado.




Um verdadeiro manancial de informação e um infindável objecto de entretenimento para todos os que interessam pelo tema ( possuam ou não os discos em apreço ). Com edição limitada a 1000 exemplares, graficamente irrepreensível, “The Famous Charisma Label” não tem um preço de capa muito acessível, contudo é o tipo de livro capaz de preencher muitos serões das noites de inverno que se aproximam.

Mais fotos e detalhes disponíveis em http://www.collectable-records.ru/