02/12/08

Hammock "Maybe they will sing for us tomorrow"


Para dar corpo ao quarto álbum, Hammock, um duo de Nashville constituído por Marc Byrd e Andrew Thompson, decidiu publicar a música que compôs para uma exposição de arte visual dos Riceboy Sleeps ( Jonsi Birgisson dos Sigur Ros e Alex Sommers dos Parachute ).

Algo diverso dos anteriores, “Maybe they will sing for us tomorrow” protagoniza a mais minimalista, subtil e melancólica das propostas de Hammock. Relaxante e inspirador, apela em primeiro lugar aos seguidores do período ambiental de Brian Eno ou ao mosaico modernista de Popol Vuh, ao mesmo tempo que concorre directamente com sonoridades mais recentes como as que emergem de Stars of Lid ou Windy & Carl.

Quase uma revelação espiritual, “Maybe they will…” promove o diálogo entre o espaço e a beleza, captando e reproduzindo a essência da paisagem que quer Byrd quer Thompson afirmam ser a sua principal fonte de inspiração: o Sul rural.



“… The scenery of the South can be idyllic and picturesque, but also desolate at the same time. There are stretches everywhere that are nothing but miles of shacks and burned-out barns overrun with kudzu. So we were expressing the melancholy of the South as well…” .

“Maybe they will sing…” percorre onze temas poderosos e emotivos. Vastos e invariavelmente belos, para serem escutados muito mais do que simplesmente ouvidos. De preferência num espaço onde só caiba o silêncio.

Pouco mais haverá a dizer. Excepto que, depois, talvez vos apeteça voltar a “Hosianna Mantra” ( Popol Vuh ) ou a “Apollo” ( Brian Eno ). Notável.

25/11/08

Jardins do Paraíso X ( Simones )




Al Simones protagoniza o mais estimulante anacronismo que o psicadelismo americano conheceu nos últimos 15 anos. Com grande simplicidade, veste a pele do artista misantropo e desafia-nos por trás da designação prosaica e, no caso absolutamente óbvia, de Simones.

Pouco se sabe da personagem. Natural de North Lima no Ohio, onde vive e gere ( ou geria ) a loja/editora Purple Phrogg, Al Simones configura o entusiasta da guitarra (acústica ou eléctrica ) enquanto instrumento catalisador de divagações sonoras e/ou manifestações de inspirado virtuosismo técnico.

O estilo que reinventa e molda no recato da sua garagem, radica em primeiro lugar na herança do rock psicadélico americano ( anos 1967-1970 ), a que depois adiciona outras derivas que conduzem às vertentes “fuzz” ou “ freakout solo guitar jams”.



A tónica tanto pode incidir nas opções acústicas como nas eléctricas. Porém sempre hipnóticas. Tal como hipnóticos foram (são) os álbuns “Mad River” ( Mad River ), “The Savage Resurrection” ( Savage Resurrection), “Outsideinside” (Blue Cheer ), “The family that plays together” (Spirit ), “Quicksilver Messenger Service" ( QMS ) ou os três primeiros de Hendrix.

Fosse Al Simones um “songwriter” da estirpe dos que integraram as bandas atrás citadas e em lugar de estarmos a falar apenas da melhor guitarra do psych-underground contemporâneo, estaríamos porventura também a dissertar sobre um émulo de Randy California, John Cippolina, Fred ‘Sonic’ Smith ou Leigh Stephens.

Os três álbuns que concebeu e gravou para a Purple Phrogg : “Corridor of dreams” ( 1992 ), “Enchanted Forest” ( 1997 ) e “Balloon ride” ( 1999 ), todos objecto de uma muito cuidada edição limitada de 500 exemplares, são hoje literalmente impossíveis de localizar, mesmo a preços insensatos.



Recentemente a South Side, uma editora da Georgia, procurou corrigir este estado de coisas ao compilar “Corridor of dreams” e “Enchanted forest” num único CD com uma capa dupla de cartão que reproduz na integra a escassa informação que Al disponibilizou nas edições originais.

Sendo certo que qualquer dos 3 discos é de audição obrigatória para todos os incondicionais do género, esta iniciativa da South Side passa por ser a melhor forma do comum dos mortais poder ter acesso a uma música ao mesmo tempo estranha e tremendamente cativante.

20/11/08

My Education "Bad vibrations"


My Education é um colectivo oriundo de Austin Texas e privilegia a música instrumental, uma opção que por vezes gosta de partilhar com bandas aparentadas como Pelican, Maserati ou Kinski.

Ao quarto álbum, com “Bad Vibrations”, My Education posiciona-se mais próximo da maturidade. O dialecto pós-rock funde-se agora com estruturas e paisagens psicadélicas e, nesse sentido, a banda diverge do monolitismo que caracteriza outros grupos texanos de que o exemplo contemporâneo mais proeminente serão os Explosions in the Sky.

Bad Vibrations” é um registo sereno. Apela à confidência e mergulha em ambientes contemplativos. Em simultâneo, replica a beleza quase folk de projectos transnacionais como Saint Joan ou Tanakh ( a viola de James Alexander , na ausência das vocalizações, constitui o grande elo de ligação ) juntando-lhe a convulsão épica inventada pelos nipónicos MONO. O exemplo mais feliz será o tema “Arch”: principia melancólico e intimista, como se John Cale e a sua secular viola estivessem presentes; perto do final evolui para a pirotecnia em direcção ao clímax. Previsível mas belíssimo.



Aqui e ali, como no tema título, as guitarras slide recuperam as sonoridades psicadélicas que Jesus Acedo e os Black Sun Ensemble praticam há anos, inspirados pelas paisagens do deserto do Arizona que penduraram na memória ou nas paredes do estúdio.

Dito isto, seja qual for o prisma por que se olhe para esta música ( Tortoise, Dirty Three, Six Organs of Admittance, ou qualquer um dos outros nomes já referidos ), não há nada de “mau” nestas “vibrações”. Muito antes pelo contrário.

16/11/08

Jardins do Paraíso IX ( Gary Farr )


Foi necessário esperar perto de 40 anos, uma eternidade, para que o primeiro álbum solo de Gary FarrTake something with you”, um dos mais inspirados discos de um singer songwriter a emergir do underground britânico, conhecesse finalmente uma reedição legal e capaz de lhe fazer justiça.

Natural do Sussex, e filho do pugilista e improvável herói galês Tommy Farr, que em 31 de Agosto de 1937, no Yankee Stadium de Nova Iorque, ficou a escassos pontos de derrotar o lendário “bombardeiro negro” Joe Louis num combate pelo título mundial de pesos pesados, desde cedo que o jovem Gary se interessou pela música, em particular pelo rhythm’n’blues. Uma paixão que materializou entre 1965 e 1967 ao liderar a banda Gary Farr and The T-Bones.

Terminado o projecto, Gary Farr começou a movimentar-se nas margens do underground psicadélico de Londres e em 1969 gravou para a Marmalade um single a meias com Kevin Westlake (Blossom Toes). O patrão da nova editora Giorgio Gomelsky ficou impressionado e colocou Gary em estúdio suportado no produtor Reggie King (ex-Action), pelo compositor galês Meic Stevens e por instrumentistas como Martin Stone, Ian Whiteman, Mike Evans, Roger Powel (todos Mighty Baby), Andy Leigh (Spooky Tooth) e Brian Belshaw, outro dos Blossom Toes.

O resultado, “Take something with you”, ficou concluído no final de 1968. Contudo só seria publicado no Natal seguinte, quando Gomelsky já se preparava para encerrar as portas da Marmalade e deixar cair os artistas, fruto de promoção e distribuição deficiente. Uma contrariedade que no caso vertente , nem uma bem sucedida participação de Farr no Isle of Wight Festival 1969 conseguiu vencer.



Tecnicamente a vida de “Take something with you” terminava ali. Só viria a renascer muitos anos mais tarde quando, na âmbito de um dos cíclicos movimentos de prospecção e recuperação do passado, se lhe atribuiu verdadeira importância e envergadura.

Melódico, consistente, bem vocalizado e melhor tocado, todo o disco é um inspirado trabalho que remete o ouvinte para o inesgotável universo do folk-rock do final dos 60s. Um idioma que à data era utilizado por inúmeros intérpretes, nos dois lados do Atlântico.

Excluindo os blues assumidos que são “The Vicar and the Pope” e “Dutsbin”, Gary Farr percorre em registo pastoral universos habitados pelo Van Morrison de “Astral Weeks” (“Don’t know why you bother, child” ), pelo Tim Buckley de “Goodbye and Hello” ( no enormíssimo “Time machine” e em “Curtain of sleep” ), Tim Hardin (“Take something with you”), Phil Ochs (“Goodbye”), ao mesmo tempo que antecipa o bucolismo que a guitarra acústica de Jimmy Page viria a decorar no “Led Zeppelin III” (“Two separate paths together”).

Muito provavelmente a reedição do ano para o Atalho, este “Take something with you” inclui ainda os 2 temas do single gravado com Kevin Westlake, bem como 15 demos registados em versão lo-fi entre 67 e 70, entre os quais 7 inéditos absolutos e “In the mud” o qual conheceria a sua versão definitiva em 1970, no também muito recomendável “Strange Fruit”.

Gary Farr viria a falecer em Agosto de 1994 em Lauren Canyon, vitima de um ataque cardíaco. Ganhava a vida como fotógrafo em Hollywood e na época estava a trabalhar na adaptação ao cinema da autobiografia do pai.

12/11/08

Alison O' Donnell "Day is done/Frozen warnings"


Muita água correu debaixo das pontes desde que a adolescente Alison Bools deixou o Holy Child Convent School em Dublin para integrar os Mellow Candle com os quais, já em Londres, gravou “Swaddling Songs”. Ancorado na mitologia irlandesa, trata-se de um álbum de folk progressivo do qual não sou particular entusiasta mas que inegavelmente possui o seu charme e, mais importante, uma legião de apreciadores; designadamente coleccionadores que confrontados com a ultra raridade do disco original, depressa o transformaram numa espécie de Santo Graal.

Por razões várias Mellow Candle não vingou. Alison partiu para a África do Sul onde formou os Fibbertigibbet com os quais gravou alguns álbuns. Mais tarde, já nos anos 90, voltaria à Europa, envolvendo-se em projectos de inspiração celta (Eishtlinn), jazz (Earthlings) ou exclusivamente vocal (Oeda), opções interessantes mas quase sempre inconsequentes.



( Mellow Candle, 1972 )

Recentemente, os mais jovens artesãos do neo-folk britânico, na impossibilidade de trazerem Shirley Collins - a sua musa inspiradora -, de volta às gravações (anos atrás, Collins perdeu as extraordinárias capacidades vocais que fizeram dela um mito e uma figura de culto), voltaram-se para Alison, agora O’Donnell, que utilizam como uma elo de ligação entre o glorioso passado do folk britânico que pretendem recuperar e o presente.

Só no último ano, Alison já cantou em projectos de Steven Collins/The Owl Service (“The Fabric of Folk” foi já aqui comentado no Atalho ), Agitated Radio Pilot, United Bible Studies e Greg Weeks, de quem o novo “Sheer Cliff off Elka Park” se anuncia para breve.

Na vertente solo, Alison O’Donnell aceitou o convite da Fruits de Mer para gravar um single que a editora americana acaba de publicar numa edição limitada e em vinil colorido. Os dois temas são versões de “Day is done” e “Frozen warnings”.



“Frozen warnings” constituiu uma escolha arriscada e resulta num tiro completamente falhado. Temo que ainda estejam para nascer aqueles que serão capazes de suplantar a intensidade dramática e a beleza glacial que emergem da voz de Nico e dos arranjos de John Cale no original de “The marble index”. Quando comparada com a cantora alemã, a estrutura vocal de Alison O’Donnell ganha em cor e afectividade; logo, sente-se desconfortável num tema tão espartano e gélido como é “Frozen warnings”.

Ao contrário, “Day is done” revela-se um aposta sensata. A voz move-se francamente mais à vontade nos labirintos líricos e espaços melancólicos habitados por Nick Drake no original de “Five leaves left” . “Day is done” terá aqui uma das interpretações mais optimistas e luminosas que a canção de Drake permite.

07/11/08

Jardins do Paraíso VIII ( Strawbs )


Ao longo da sua história os Strawbs debateram-se sempre com um dilema nunca resolvido. A música que escreviam era considerada demasiado “folk” para os adeptos do progressivo, continha excessivos elementos “prog” para os incondicionais do folk.

E no entanto, Dave Cousins e Tony Hooper tinham começado pelo bluegrass, evoluindo posteriormente para o “folk” contemporâneo que tocaram em numerosos clubes do género.

Em 1967, o acaso colocou-lhes Sandy Denny no caminho. Com a inclusão do baixista Ron Chesterman, o quarteto gravou “All our own work”, um trabalho que à data ninguém pareceu interessado em editar (acabou por só ver a luz do dia em 1973, muito por força do estatuto entretanto adquirido pela cantora). Perante o insucesso Sandy Denny optou por sair para os Fairport Convention e o resto da história é conhecida.



Cousins e Hopper entretanto seguiram o seu caminho. “Strawbs”, o primeiro álbum, saiu em 1969. Produzido por Gus Dudgeon, arranjado de forma nada despicienda por Tony Visconti (na época responsável por alguns sucessos de Bowie e Tyrannosaurus Rex) e credor das participações de Nicky Hopkins, John Paul Jones e Nosrati & His Arab Friends entre outros, “Strawbs” é um registo de folk rock psicadélico muito interessante e nada negligenciável.

Talvez o mais marcadamente “folk” dos álbuns da banda, propõe atmosferas correspondentes em “Poor Jimmy Wilson”, “The man who called himself Jesus” (uma balada concebida na melhor tradição Dylan, muito popular após receber um significativo empurrão ao ser banida da antena da BBC) ou “Tell me what you see in me”, esta última visitando os sons e a arquitectura da música do médio oriente.


Simultaneamente “Strawbs” deixava já adivinhar o discurso musical futuro. O tema “That which once was mine” transporta as sementes do barroco renascentista que caracterizaria discos como “From the Witchwood” ou “Grave new world”. “Pieces of 79 and 15” e “Or am I dreaming” ganham textura com as orquestrações e adornos com o mellotron (recordo que na época os Moody Blues eram um projecto muito apreciado e ainda em crescendo) mas, ainda assim, todas elas não perdem de vista a principal influência: o “folk”.

Uma linguagem que atinge o zénite em “The Battle” um épico inesquecível de inspiração medieval que permanece uma das composições mais brilhantes de Dave Cousins.

Strawbs” foi recentemente objecto de uma reedição que inclui duas novas versões – “That which once was mine” e “Poor Jimmy Wilson” – além de uma gravação ao vivo de “The Battle” no BBC Radio One Show de John Peel.

03/11/08

The Famous Charisma Label 1969 - 1986


Por estranho que possa parecer aos mais novos, houve um tempo em que não existiam plataformas ou tecnologias como: I-Pod, MP3/4, My Space, Blue Ray, SACD, DVD, dowloads, legais ou dos outros. Não existia sequer o CD.

Reporto-me a um tempo em que a música era maioritariamente editada, escutada, transportada e guardada em rodelas, grandes ou pequenas, de vinil preto; quase sempre embaladas em deliciosas capas cuja concepção era entregue a gráficos e designers, artistas emergentes ou já conceituados.

Basicamente uma época em que os fãs, para além de escutarem a música, usufruíam do prazer suplementar de admirar o conjunto: disco, etiqueta, capa ( simples ou dupla ), inserts vários e, muitas vezes, booklets e posters. O mero facto dos interessados terem de se deslocar a uma loja, manusear dezenas, centenas, de artefactos como os descritos e no fim serem obrigados ao difícil exercício de escolher um deles, constituía em si mesmo um acontecimento.

Era pois quase impossível que o velho vinil não se transformasse num objecto de culto e colecção.



Toda esta prosa vem a propósito da publicação do livro “The Famous Charisma Label 1969-1986”, o terceiro volume da série The Famous British Collectable Record Labels ( depois de “Island Records 1962-1977” e “Harvest Label 1969-1980” ) que o afável e enciclopédico Yuri Grishin concebe e lança em edição bilingue ( russo e inglês ).

“The Famous Charisma Label”, tal como os anteriores, revela-se um paraíso para qualquer coleccionador ou interessado na matéria. No caso vertente contam-se episódios e histórias de pequenas empresas que vendiam singles porta a porta como a B&C ( Beat & Commercial ) Records , uma empírica joint-venture lançada por Chris Blackwell e um tal Tony Stratton-Smith, futuro dono da Charisma.



Pelo meio são dissecados pormenores e acontecimentos que levaram à criação da Trojan, Stable, Pegasus, PEG, B&C ou Mooncrest, etiquetas que antecederam ou de algum modo estiveram ligadas à Charisma Records.

Depois há espaço, muito espaço, para abordar cada um dos discos editados no período. Fotografias das capas, etiquetas e inserts. Pormenorizadas descrições das primeiras, segundas ou posteriores edições, números de matrizes, ano de publicação, tipo de capa e respectivos autores. Indices de fotógrafos, engenheiros de som, produtores e estúdios. Diferentes designs das etiquetas e indicação do preço de mercado estimado para exemplares em bom estado.




Um verdadeiro manancial de informação e um infindável objecto de entretenimento para todos os que interessam pelo tema ( possuam ou não os discos em apreço ). Com edição limitada a 1000 exemplares, graficamente irrepreensível, “The Famous Charisma Label” não tem um preço de capa muito acessível, contudo é o tipo de livro capaz de preencher muitos serões das noites de inverno que se aproximam.

Mais fotos e detalhes disponíveis em http://www.collectable-records.ru/

29/10/08

Windy & Carl "Songs for the broken hearted"


Tem sido comentada excelente música aqui no Atalho. Pese embora o facto, não me recordo de um álbum que celebre a vida tão intensamente como “Songs for the broken hearted” de Windy & Carl.

Naturais de Dearborn no Michigan, Windy Weber e Carl Hultgren funcionam como duo, na vida e na música, desde o princípio dos anos 90. Desde então gravaram mais de uma dezena de discos onde o drone e o psicadélico planam sobre um interminável manto de emoções, que tanto podem assumir contornos épicos como melancólicos e contemplativos.

Songs for the broken hearted” ( o título em si mesmo já sugere pistas ) é um trabalho espiritual, percorrido pelas emoções que decorrem dos diversos estados de alma associados ao quotidiano de uma relação a dois. Em nenhum outro trabalho anterior o duo percorreu patamares tão elevados de desespero ou de vazio; os quais, no campo oposto, são compensados por elegantes manifestações de euforia, cumplicidade e esperança.



Dois campos tão marcadamente antagónicos que durante os cerca de 71 minutos que dura o álbum, várias vezes dei comigo a tentar perceber em qual deles se encaixa cada um dos temas, “agarrado” pela hipnótica sonoridade drone que emerge das teclas, pela fluidez quase silenciosa das guitarras ou pelos murmúrios vocais sob a forma de palavras.

Os dez temas de “Songs for the broken hearted” representam uma elegia à vida. Independentemente de se constituírem em gritos de desespero como acontece em “La Douleur” ( assim de repente, os 12 minutos e 39 segundos mais belos e intensos que me recordo de ouvir nos últimos tempos ) ou luminosos interlúdios de felicidade como em “Snow covers everything”. A viver intensamente, uns e outros.

24/10/08

"Real Life Permanent Dreams, a Cornucopia of British Psychedelia 1965-1970"


Conhecer o passado significa melhor compreender o presente. A todos os que se interessam pelo fenómeno particular da música de matriz psicadélica, é aconselhável fazer visitas periódicas ao respectivo passado. Um investimento que, entre outras coisas, permite avaliar com maior rigor as propostas actuais, colocando-as em perspectiva.

No que concerne à primeira geração do psicadelismo inglês, têm sido muitas e variadas as abordagens ao tema. Em matéria de compilações, uma das que, sem perder o desejável equilíbrio, propõe um leque de nomes bastante abrangente sendo em simultâneo informativa quanto baste, dá pelo nome de “Real Life Permanent Dreams, A Cornucópia of British Psychedelia 1965-1970” e traz a assinatura de David Wells.

( Poster que assinala a criação da Apple Records, autoria The Fool, 1968 )

Novamente disponível, depois de em 2007 a edição original ter esgotado rapidamente, a compilação integra 99 títulos distribuídos por 4 CDs mais um colorido booklet de 50 páginas onde Wells introduz e situa, no tempo e no espaço, as bandas e os respectivos temas.

Pérolas do psicadelismo 60s interpretadas por Honeybus, Fleur de Lys, Hardin-York, Picadilly Line, Sam Gopal, West Coast Consortium, End, Icarus, Orange Bicycle, Velvett Fogg, Soft Machine ou Andwella’s Dream ( citando apenas alguns dos nomes menos obscuros ), apesar de num caso ou outro poderem soar algo datadas, permanecem na generalidade exemplos de criação artística, construções musicais em filigrana que ainda hoje teimam em impressionar todos os que sobre elas se debruçam.

20/10/08

Grails "Doomsdayer's holiday"


Imperturbáveis, por entre nuvens de chuva ácida, os Grails continuam a sua viagem cósmica em direcção à Supernova mais próxima.

Depois de “Burning off impurities” se ter alicerçado em estruturas orientais e no pós-rock psicadélico, “Doomsdayer’s Holiday” procura trajectórias porventura ainda mais ousadas.

“Reincarnation Blues” fornece o tom. Abre com ondas de sons radicados no médio oriente, eleva-se em picos de heavy-rock, desliza por entre o emaranhado das cordas da sitar. Mais à frente, no espaço “Predestination Blues”, recupera as coordenadas, - depois do quase interstício drone que é “The natural man”- e faz deslocar o epicentro da tempestade cósmica para os vales e planaltos da Turquia rural.



“Reincarnation” e “Predestination Blues” são os dois temas âncora de um trabalho de sonoridade invulgarmente ampla e registo conciso ( apenas cerca de 38 minutos de duração é coisa hoje rara num CD ). Que não termina sem que “Acid rain”, por via da matriz sonora Pink Floyd, nos conduza às imagens outrora exóticas de “La Vallée”, o filme pioneiro que Barbet Schroeder realizou em 1972 na planícies da Nova Guiné e a que os Floyd juntaram o som ocre de “Obscured by clouds”.

Não se deixem enganar pela débil impressão que fica da primeira audição. “Doomsdayer’s Holiday” é um registo notável, quer pela pulsão experimental, quer pela convicção performativa.

16/10/08

Chris Wilson "Second life"


No espaço onde se encaixam o garage-rock e o power pop, Flamin Groovies e Barracudas são duas das bandas mais apreciadas aqui no Atalho. Os Groovies, enquadrados na década de 70 ( embora com duas abordagens antagónicas, na forma e no tempo ); colorindo o arranque dos 80’s, os Barracudas.

De modo similar, os dois grupos cultivavam aquela imagem/atitude a que os franceses gostam de chamar “bordélique” e que no caso, tanto podia vestir a roupagem do “biker” que se move perto das fronteiras delinquentes de um gang, como a de um “surfer”, cantarolando “I wish it could be 1965 again” na crista de uma onda.

O verdadeiro elo de ligação entre os dois projectos foi contudo a presença do guitarrista Chris Wilson.

Natural de Boston, apenas com 17 anos, Wilson viu-se integrado nos Loose Gravel. Um conjunto de “desperados” tão efémero quanto mítico, posto de pé por Mike Wilhelm depois do fim dos californianos Charlatans. Existem relatos de participações em concertos, mas não é conhecida a intervenção de Chris Wilson nos poucos temas que os Loose Gravel registaram em estúdio.



( Loose Gravel 1970 )

Em 1972 foi desafiado a substituir Roy Loney nos Flamin Groovies. O grupo mudou-se de São Francisco para Londres e, entre 1976 e 1979, já entregue aos cuidados do produtor Dave Edmunds, gravou para a Sire três dos álbuns que melhor se movimentam nas margens do garage-rock e do power-pop: “Shake some action”, “Now” e “Jumpin in the night”. À época, o rolo compressor do punk contribuiu para o empalidecer da estrela dos Groovies. Wilson abandonou e submergiu.

Reaparecerá em 1983 na formação vintage dos Barracudas, cujos primeiros dois álbuns, “Mean time” e “Endeavour to persevere”, trataram de forma exemplar o garage rock and roll, o punk-rock, o mersey beat e o folk-rock psicadélico.

Depois da intervenção no mosaico sonoro dos Barracudas, Wilson integrou os Fortunate Sons, banda sem brilho nem história para contar. Os anos 90 foram passados entre Londres, Paris, Madrid e São Francisco. Concertos avulso com Barracudas, projectos a solo, colaborações com os Kingsnakes de Zé Moita, os Sneetches ou Kim Fowley. Depois o silêncio, aqui e ali interrompido pelas tentativas de recuperar os Groovies.


( Flamin Groovies 1976 )

Até Setembro passado, momento em que respaldado nos Shameless Pickups, Chris Wilson publica “Second life” em edição privada, um trabalho premonitório de um músico que merece uma outra oportunidade.

Second life” é de outro tempo. As canções começam como deve ser; com um riff. São tricotadas por solos de guitarra, ora frenéticos ora preguiçosos, consoante Wilson e o “compadre” Anthony Clark sentem a necessidade de incendiar ou serenar o discurso.

“All the action”, “Shake that feeling”, “Set free” e “Blaze away” aceleram em direcção à estratosfera. “Sweet deceit” , “Never love again” ( título já publicado no álbum “Chris Wilson & The Sneetches”, aqui numa versão refém da sacarina ) e “Not for real” reduzem o índice de partículas abrasivas. “Second life”, a canção, remete-nos para Laurel Canyon 1970 e para as cordas da guitarra acústica de Stephen Stills.


( Barracudas 1983 )

Ao contrário do que é hábito em Chris Wilson, não são os Stones ou os Byrds as referências utilizadas para ancorar esta colectânea de canções. Dylan foi desta vez o escolhido e “Visions of Johanna” acenta como uma luva em “Second life”.

Não arriscarei muito se disser que, nos tempos que correm, este registo tal como foi concebido e acabado nunca poderá ser um sucesso . Será escutado apenas pelos fãs e por duas dúzias de curiosos. Para além destes, só os músicos para quem a arte de tocar guitarra não constitui uma ciência exacta se interessarão por estas músicas. Foi a pensar neles que escrevi estas linhas.

13/10/08

"Dreams, Fantasies and Nightmares"


Segunda edição revista e aumentada deste volume escrito e coordenado por Vernon Joynson.

Dreams, Fantasies and Nightmares, from far away Lands revisited”, mergulha no período compreendido entre 1963 e 1976 e constitui um contributo importante para o conhecimento da história do pop/rock canadiano, australiano, neo-zelandês, latino-americano, sul-africano e, respectivas discografias.

Ao longo de 770 páginas, divididas em cinco secções ( Canadá, Austrália, Nova Zelândia, América Latina e África do Sul ), encontramos referências naturalmente óbvias e outras nem tanto assim.
Leonard Cohen, Band, Neil Young, Joni Mitchell têm como contraponto artigos sobre bandas canadianas de carácter bem mais obscuro como Plastic Cloud, Reign Ghost, Nucleus ou Simply Saucer.

No capítulo australiano, entre nomes mainstream como Bee Gees ou AC/DC, surgem páginas dedicadas a Galadriel, Kahvas Jute, Trevor Lucas, Tully, Taman Shud ou Twilights.

América Latina e África do Sul serão porventura os capítulos mais débeis. Citações de carácter obrigatório para os Tropicalistas ( Gal, Caetano, Gil ), Mutantes, Secos e Molhados ou Rita Lee. Mas, estão lá também nomes que percorreram as margens do underground psicadélico: Aguaturbia, Som Imaginário, Laghonia, Zé Ramalho, Módulo 1000, Satwa ou Freedoms Children.

O conceito e o método são idênticos aos utilizados por Vernon Joynson em “Tapestry of delights, the compreensive guide to british music of the Beat, R&B, Psychedelic and Progressive eras 1963-1976” e em “Fuzz Acid and Flowers, a compreensive guide to American Garage, Psychedelic and Hippie rock 1964-1975”.

Os destinatários alvo, continuarão por certo a ser os mesmos: historiadores do tema, legiões de coleccionadores de vinil e/ou amantes da música rock que não perderão a oportunidade de utilizar o livro para descobrir novas fronteiras.