24/10/08

"Real Life Permanent Dreams, a Cornucopia of British Psychedelia 1965-1970"


Conhecer o passado significa melhor compreender o presente. A todos os que se interessam pelo fenómeno particular da música de matriz psicadélica, é aconselhável fazer visitas periódicas ao respectivo passado. Um investimento que, entre outras coisas, permite avaliar com maior rigor as propostas actuais, colocando-as em perspectiva.

No que concerne à primeira geração do psicadelismo inglês, têm sido muitas e variadas as abordagens ao tema. Em matéria de compilações, uma das que, sem perder o desejável equilíbrio, propõe um leque de nomes bastante abrangente sendo em simultâneo informativa quanto baste, dá pelo nome de “Real Life Permanent Dreams, A Cornucópia of British Psychedelia 1965-1970” e traz a assinatura de David Wells.

( Poster que assinala a criação da Apple Records, autoria The Fool, 1968 )

Novamente disponível, depois de em 2007 a edição original ter esgotado rapidamente, a compilação integra 99 títulos distribuídos por 4 CDs mais um colorido booklet de 50 páginas onde Wells introduz e situa, no tempo e no espaço, as bandas e os respectivos temas.

Pérolas do psicadelismo 60s interpretadas por Honeybus, Fleur de Lys, Hardin-York, Picadilly Line, Sam Gopal, West Coast Consortium, End, Icarus, Orange Bicycle, Velvett Fogg, Soft Machine ou Andwella’s Dream ( citando apenas alguns dos nomes menos obscuros ), apesar de num caso ou outro poderem soar algo datadas, permanecem na generalidade exemplos de criação artística, construções musicais em filigrana que ainda hoje teimam em impressionar todos os que sobre elas se debruçam.

20/10/08

Grails "Doomsdayer's holiday"


Imperturbáveis, por entre nuvens de chuva ácida, os Grails continuam a sua viagem cósmica em direcção à Supernova mais próxima.

Depois de “Burning off impurities” se ter alicerçado em estruturas orientais e no pós-rock psicadélico, “Doomsdayer’s Holiday” procura trajectórias porventura ainda mais ousadas.

“Reincarnation Blues” fornece o tom. Abre com ondas de sons radicados no médio oriente, eleva-se em picos de heavy-rock, desliza por entre o emaranhado das cordas da sitar. Mais à frente, no espaço “Predestination Blues”, recupera as coordenadas, - depois do quase interstício drone que é “The natural man”- e faz deslocar o epicentro da tempestade cósmica para os vales e planaltos da Turquia rural.



“Reincarnation” e “Predestination Blues” são os dois temas âncora de um trabalho de sonoridade invulgarmente ampla e registo conciso ( apenas cerca de 38 minutos de duração é coisa hoje rara num CD ). Que não termina sem que “Acid rain”, por via da matriz sonora Pink Floyd, nos conduza às imagens outrora exóticas de “La Vallée”, o filme pioneiro que Barbet Schroeder realizou em 1972 na planícies da Nova Guiné e a que os Floyd juntaram o som ocre de “Obscured by clouds”.

Não se deixem enganar pela débil impressão que fica da primeira audição. “Doomsdayer’s Holiday” é um registo notável, quer pela pulsão experimental, quer pela convicção performativa.

16/10/08

Chris Wilson "Second life"


No espaço onde se encaixam o garage-rock e o power pop, Flamin Groovies e Barracudas são duas das bandas mais apreciadas aqui no Atalho. Os Groovies, enquadrados na década de 70 ( embora com duas abordagens antagónicas, na forma e no tempo ); colorindo o arranque dos 80’s, os Barracudas.

De modo similar, os dois grupos cultivavam aquela imagem/atitude a que os franceses gostam de chamar “bordélique” e que no caso, tanto podia vestir a roupagem do “biker” que se move perto das fronteiras delinquentes de um gang, como a de um “surfer”, cantarolando “I wish it could be 1965 again” na crista de uma onda.

O verdadeiro elo de ligação entre os dois projectos foi contudo a presença do guitarrista Chris Wilson.

Natural de Boston, apenas com 17 anos, Wilson viu-se integrado nos Loose Gravel. Um conjunto de “desperados” tão efémero quanto mítico, posto de pé por Mike Wilhelm depois do fim dos californianos Charlatans. Existem relatos de participações em concertos, mas não é conhecida a intervenção de Chris Wilson nos poucos temas que os Loose Gravel registaram em estúdio.



( Loose Gravel 1970 )

Em 1972 foi desafiado a substituir Roy Loney nos Flamin Groovies. O grupo mudou-se de São Francisco para Londres e, entre 1976 e 1979, já entregue aos cuidados do produtor Dave Edmunds, gravou para a Sire três dos álbuns que melhor se movimentam nas margens do garage-rock e do power-pop: “Shake some action”, “Now” e “Jumpin in the night”. À época, o rolo compressor do punk contribuiu para o empalidecer da estrela dos Groovies. Wilson abandonou e submergiu.

Reaparecerá em 1983 na formação vintage dos Barracudas, cujos primeiros dois álbuns, “Mean time” e “Endeavour to persevere”, trataram de forma exemplar o garage rock and roll, o punk-rock, o mersey beat e o folk-rock psicadélico.

Depois da intervenção no mosaico sonoro dos Barracudas, Wilson integrou os Fortunate Sons, banda sem brilho nem história para contar. Os anos 90 foram passados entre Londres, Paris, Madrid e São Francisco. Concertos avulso com Barracudas, projectos a solo, colaborações com os Kingsnakes de Zé Moita, os Sneetches ou Kim Fowley. Depois o silêncio, aqui e ali interrompido pelas tentativas de recuperar os Groovies.


( Flamin Groovies 1976 )

Até Setembro passado, momento em que respaldado nos Shameless Pickups, Chris Wilson publica “Second life” em edição privada, um trabalho premonitório de um músico que merece uma outra oportunidade.

Second life” é de outro tempo. As canções começam como deve ser; com um riff. São tricotadas por solos de guitarra, ora frenéticos ora preguiçosos, consoante Wilson e o “compadre” Anthony Clark sentem a necessidade de incendiar ou serenar o discurso.

“All the action”, “Shake that feeling”, “Set free” e “Blaze away” aceleram em direcção à estratosfera. “Sweet deceit” , “Never love again” ( título já publicado no álbum “Chris Wilson & The Sneetches”, aqui numa versão refém da sacarina ) e “Not for real” reduzem o índice de partículas abrasivas. “Second life”, a canção, remete-nos para Laurel Canyon 1970 e para as cordas da guitarra acústica de Stephen Stills.


( Barracudas 1983 )

Ao contrário do que é hábito em Chris Wilson, não são os Stones ou os Byrds as referências utilizadas para ancorar esta colectânea de canções. Dylan foi desta vez o escolhido e “Visions of Johanna” acenta como uma luva em “Second life”.

Não arriscarei muito se disser que, nos tempos que correm, este registo tal como foi concebido e acabado nunca poderá ser um sucesso . Será escutado apenas pelos fãs e por duas dúzias de curiosos. Para além destes, só os músicos para quem a arte de tocar guitarra não constitui uma ciência exacta se interessarão por estas músicas. Foi a pensar neles que escrevi estas linhas.

13/10/08

"Dreams, Fantasies and Nightmares"


Segunda edição revista e aumentada deste volume escrito e coordenado por Vernon Joynson.

Dreams, Fantasies and Nightmares, from far away Lands revisited”, mergulha no período compreendido entre 1963 e 1976 e constitui um contributo importante para o conhecimento da história do pop/rock canadiano, australiano, neo-zelandês, latino-americano, sul-africano e, respectivas discografias.

Ao longo de 770 páginas, divididas em cinco secções ( Canadá, Austrália, Nova Zelândia, América Latina e África do Sul ), encontramos referências naturalmente óbvias e outras nem tanto assim.
Leonard Cohen, Band, Neil Young, Joni Mitchell têm como contraponto artigos sobre bandas canadianas de carácter bem mais obscuro como Plastic Cloud, Reign Ghost, Nucleus ou Simply Saucer.

No capítulo australiano, entre nomes mainstream como Bee Gees ou AC/DC, surgem páginas dedicadas a Galadriel, Kahvas Jute, Trevor Lucas, Tully, Taman Shud ou Twilights.

América Latina e África do Sul serão porventura os capítulos mais débeis. Citações de carácter obrigatório para os Tropicalistas ( Gal, Caetano, Gil ), Mutantes, Secos e Molhados ou Rita Lee. Mas, estão lá também nomes que percorreram as margens do underground psicadélico: Aguaturbia, Som Imaginário, Laghonia, Zé Ramalho, Módulo 1000, Satwa ou Freedoms Children.

O conceito e o método são idênticos aos utilizados por Vernon Joynson em “Tapestry of delights, the compreensive guide to british music of the Beat, R&B, Psychedelic and Progressive eras 1963-1976” e em “Fuzz Acid and Flowers, a compreensive guide to American Garage, Psychedelic and Hippie rock 1964-1975”.

Os destinatários alvo, continuarão por certo a ser os mesmos: historiadores do tema, legiões de coleccionadores de vinil e/ou amantes da música rock que não perderão a oportunidade de utilizar o livro para descobrir novas fronteiras.

09/10/08

Heathern Haints "S/t" ( EP)



Imaginem um cruzamento rodoviário algures no Tennessee, fora do perímetro urbano de Nashville.

No centro do cruzamento, chegados cada um de sua via, encontram-se os Velvet Underground, Wooden Shjips, Julian Cope e Galaxie 500. Desorientados, meio perdidos numa paisagem que lhes é estranha, alucinadamente, discutem sobre qual a direcção a tomar.

O resultado é lisérgico e ganha corpo na música dos Heathern Haints.

O Atalho regozija. Afinal, ainda há espaço para a esperança.

Os 4 temas que constituem o primeiro EP homónimo e auto editado deste trio de Nashville, são um verdadeiro mosaico onde cabe tudo o que acima referi, bem como eventuais ilustrações psicadélicas avulsas desenhadas por Residual Echoes, Spacemen 3, Matt Valentine, Windy & Carl e, às vezes, Ben Chasny.

A seguir com e devida atenção.

06/10/08

Fotheringay "2"


Durante anos julgou-se que o trabalho de estúdio associado aos Fotheringay se resumia aos “takes” das canções que integraram o álbum homónimo de 1970. Em 2004, quando o disco foi reeditado, principiaram a circular rumores que apontavam para a existência de fitas com temas inéditos e que resultariam de sessões destinadas à gravação de um segundo álbum. No ano seguinte, o produtor Joe Boyd confirmou a existência das ditas sessões no livro autobiográfico “White bicycles, making music in the 1960’s”.

O interesse foi tanto que os três Fotheringay sobreviventes, impulsionados Jerry Donahue, decidiram iniciar uma cruzada tendo em vista a recuperação das fitas e maquetas dispersas. O resultado chamou-se “2” e está finalmente disponível.

Os Fotheringay ( Sandy Denny, Trevor Lucas, Jerry Donahue, Gerry Conway e Pat Donaldson ) nasceram em Março de 1970, pouco tempo depois de Sandy abandonar os Fairport Convention. À data, a cantora tinha todas as condições para se lançar numa carreira a solo de sucesso – Joe Boyd de resto apostava nisso -, mas preferiu refugiar-se na maior segurança que uma banda proporciona; opção que seguramente deverá ter tido em conta a relação emocional que mantinha com Trevor Lucas.

( capa interior de "Fotheringay" )

Quando editado no verão de 1970, o álbum “Fotheringay” foi objecto de atenção e experimentou um relativo sucesso, porém uma série de equívocos promocionais relacionados com datas, locais e bandas de suporte para concertos, aliados ao problema que constituía a aerofobia de Denny, hipotecaram, praticamente aniquilaram, o futuro da banda.

Ainda assim, no outono de 1970 os Fotheringay voltaram ao estúdio. Gravaram um conjunto de maquetas e quando em Janeiro seguinte se preparavam para iniciar as misturas, Sandy Denny anunciou a saída. A aventura terminara ali e as fitas das sessões mergulharam no esquecimento.
Hoje, após um trabalho de recuperação brilhante, escutar as onze canções que integram Fotheringay “2” constitui certamente um prazer enorme quer para os fãs, quer para os interessados neste tipo de factos históricos.

Do ponto de vista musical “2” é um artefacto notável. Tendo em conta que as vocalizações que ouvimos foram gravadas ao vivo com a secção rítmica, com o objectivo nunca concretizado de serem trabalhadas mais à frente, o resultado é extraordinário. Mesmo considerando que poderão ter sido ajustadas com recurso às actuais tecnologias.


No conjunto, “2” propõe 11 temas. 5 dos quais inéditos absolutos no universo de Sandy Denny: os tradicionais “Eppie Moray”, “Wild mountain thyme” e “Bold Jack Donahue” ( um título já gravado em 1966 por Trevor Lucas em “Overlander”, um disco a solo muito referido mas que pouca gente viu e menos ainda escutaram ), “Knights of the road” e a versão “basement tapes” da composição “I don’t believe you” de Dylan.

Depois, as primeiras versões conhecidas de “John the Gun” e “Late November”, que haveriam de ser regravadas para “The North star grassman and the ravens” a estreia a solo de Denny. “John the Gun” aparece aqui sem a guitarra de Richard Thompson e o violino de Barry Dransfield, componentes que a inclusão do saxofone de Sam Donahue não consegue fazer esquecer. A versão de “Late November”, lenta e intimista, é já conhecida do sampler “El Pea” e da compilação “Who knows where the time goes?”. “Two weeks last summer” de Dave Cousins revela aqui uma versão inédita em estúdio, “Restless” integra as bases do tema de Lucas desenvolvido mais tarde em “Rising for the moon”, enquanto “Gypsy Davey” e “Silver threads and golden needles” repetem as versões já publicadas em “A boxful of treasures”.

No todo, “2” não estará porventura à altura de “Fotheringay” mas, mais do que uma nota de rodapé no universo da arte de Sandy Denny, representa uma etapa necessária e muito relevante no percurso que a levaria ao topo em “The north star grassman and the ravens” e “Sandy”.

01/10/08

Matthew Robert Cooper "Miniatures"


Matthew Robert Cooper é um jovem cidadão que vive em Portland no Oregon e que habitualmente grava e edita sob o nome de Eluvium.

Desde 2003, tem sido responsável por alguma da mais tranquila e excitante música instrumental contemporânea. E, tem-no conseguido, sempre em crescendo estético e qualitativo, como qualquer audição cronológica dos seus discos pode atestar. “Copia”, o mais recente enquanto Eluvium foi um dos meus álbuns de 2006, porventura “O meu disco” de 2006.

Miniatures”, que assinou como Matthew Robert Cooper, tende a distanciar-se da roupagem neo-clássica que caracteriza a linguagem Eluvium, ao mesmo tempo que mergulha no que se percebe serem as influências mais vincadas de Cooper: o minimalismo e a “ambient music”.

Embora mutante, este processo de abordagem não retirou beleza à música e os nove temas que constituem “Miniatures” transportam-nos para mundos fantásticos onde levitam Wim Mertens, Charlemagne Palestine, Brian Eno, Michael Nyman, Satie, John Cale ou Virginia Astley.
Daí que, entre a audição de “Miniature 1” e “Miniature 9”, fácil e tranquilamente, regressem à memória pedaços de “Another green world”, “Before and after science”, “From gardens where we feel secure”, “Fragments of a rainy season” ou “Paris s’eveille”, num estimulante processo de fusão de ambientes, cores e linguagens musicais.

Por agora apenas disponível numa edição de vinil colorido limitada a 1000 exemplares e envolvido numa belíssima capa que reproduz um dos primeiros daguerreótipos da autoria de pioneiro da fotografia americana Platt D. Babbitt, “Miniatures” é um excelente motivo para escutar o silêncio e olhar, vendo, as paisagens do nosso contentamento.

26/09/08

Jardins do Paraíso VII ( Gordon Smith )


A música moderna do Reino Unido encontra-se repleta de exemplos que provam como o blues e o country-blues americanos representaram a principal influência dos seus jovens músicos, particularmente no período compreendido entre 1962 e 1970. Os casos de sucesso são conhecidos, embora uns mais do que outros. Sabe-se como começaram e sabe-se como acabaram. Ao contrário, nos inúmeros casos em que o sucesso não se compaginou com a história, existe uma vaga ideia de como as coisas começaram mas pouco mais.

Facilmente enquadrável no grupo daqueles para quem o sucesso foi avesso, Gordon Smith permanece há décadas como um dos segredos mais bem guardados da música inglesa.

Tinha exactamente 20 anos e 15 dias quando o seu primeiro álbum, “Long overdue” foi publicado pela Blue Horizon, em 28 de Março de 1969. Influenciado pelo country-blues, o guitarrista criou um disco que percorre temas de Sleepy John Estes, Blind Lemon Jefferson, Robert Johnson e J.B. Lenoir, ao mesmo tempo que propõe um conjunto de originais escritos numa linguagem próxima da utilizada pelos mestres.

A guitarra, acústica ou “slide” ( nesta última a técnica bootleneck de Smith atinge picos de verdadeira excelência ), a harmónica e a voz, que o homem utiliza como se não existisse amanhã, são os instrumentos privilegiados em “Long overdue”. Um registo subtil e tremendamente inspirado que vendeu mais de 6.000 exemplares embora nunca tenha sido reeditado; algo difícil de entender sobretudo num tempo em que o blues era tão popular como o psicadelismo.


A totalidade de “Long overdue” foi finalmente reeditada e integra o conjunto que é “Gordon Smith, The complete Blue Horizon sessions”. Aqui encontram-se os 14 títulos originais do álbum ( consta que as respectivas gravações demoraram apenas 5 horas a completar, facto que surpreendeu os Fleetwood Mac, banda de suporte em 3 temas ) mais uma dúzia de títulos e/ou “takes” inéditos, bem como os dois lados do single “Too Long/Funk pedal” que o guitarrista gravou ainda em 1969 para a Blue Horizon.

Profusamente ilustrada e devidamente contextualizada pelo produtor Mike Vernon, esta reedição constitui a oportunidade para tomar contacto com a música de um artista invulgarmente talentoso mas que permaneceu demasiado tempo fora dos radares que detectam e orientam o sucesso.

24/09/08

"Cosmic Price Guide to original Krautrock records"


Foi já publicada a nova edição do livro “Cosmic Price Guide to original Krautrock records” da autoria de Ulrich Klatte.

Revista, actualizada e aumentada, esta terceira edição possui 448 páginas - mais 140 que a anterior e mais 270 do que a primeira edição -, e como é hábito fornece profusa informação sobre a discografia vinil do rock alemão onde, para além de referenciar as edições, dá particular destaque a referências, datas de publicação e actual preço de mercado.

Inclui ainda 2.500 fotos coloridas que se repartem por capas de discos, labels, posters e/ou inserts.

Publicado em língua inglesa, numa versão “hard cover” e usando papel acetinado de grande qualidade, Cosmic Price Guide constitui fonte de informação e consulta indispensável para qualquer coleccionador ou amante do Krautrock.

19/09/08

Jardins do Paraíso VI ( The 13th Floor Elevators )


4 décadas volvidas, está finalmente disponível através do selo Sundazed a reedição do primeiro álbum dos 13Th Floor Elevators em versão mono.

E então?”, pareceu-me ter ouvido aí desse lado.

Bom, tão simples quanto isto: desde a sua edição original em Novembro de 1966, que não era disponibilizada uma reedição legal da versão mono deste histórico álbum ( os poucos originais que aqui e ali surgem à superfície, atingem preços absolutamente especulativos ).

Esta cuidada reedição, apesar de não ter sido produzida a partir das misturas originais ( as fitas, durante décadas julgadas perdidas, foram recentemente redescobertas pelo biógrafo do grupo e, segundo os rumores, “Sign of the three eyed men” a box-set dos Elevators anunciada para o final do ano, já será concebida a partir delas ), não obstante possui a qualidade e o colorido suficientes para a tornar preferível a qualquer edição em stereo.

Dito isto, “The psychedelic sounds of” é o tipo de disco que qualquer leitor do Atalho deverá possuir.

Através dele os Elevators:

1 ) em 1966, nos Estados Unidos, foram a par dos Blues Magoos e dos Deep, o primeiro grupo a utilizar a palavra “psychedelic” no título de um disco

2 ) colocaram o Texas e a cidade de Austin no mapa do psicadelismo, como rota alternativa a São Francisco onde o conceito já germinara ( os Airplane editaram “Takes Off” em Agosto ), mas que só explodiria em 1967

3 ) criaram uma música que revela uma harmoniosa coabitação entre o folk-rock, o garage e o psicadélico, concretizada em temas incontornáveis como “You’re gonna miss me”, “Kingdom of heaven”, “Roller Coaster” ou “Fire Engine”.

Em “The psychdelic sounds of the 13th Floor Elevators”, Roky Erickson, Stacey Sutherland, Tommy Hall, Benny Thurman e John Walton foram pioneiros o suficiente para definir um género . O tempo e a história apenas se encarregaram de o sublinhar.

16/09/08

The Owl Service "The bitter Night EP" e The Owl Service and Allison O' Donnell "The Fabric of Folk"

Um dos projectos favoritos do Atalho no campo do neo-folk britânico, os Owl Service de Steve Collins têm tido um excelente ano em 2008. As datas avançadas para concertos são cada vez mais frequentes e as edições musicais , particularmente as de carácter semi-privado, escoam ainda antes da respectiva publicação.

De há muito esgotada, a primeira e limitada edição de “A garland of song” ( já aqui abordada ) conheceu muito recentemente a sua primeira reedição. Foi objecto de reavaliação áudio, tendo também a capa recebido um novo grafismo.


Por seu turno, “The bitter night”, uma incursão no vinil, acaba de ser publicado. Revestindo a forma de um velho EP com capa de cartolina, o registo propõe três temas novos e uma recuperação.

As razões que conduziram a que, por exemplo, “A lyke wake dirge” ficasse de fora de “A garland of song” são óbvias: o tema soa como se os Velvet Underground procurassem reproduzir a sonoridade Pentangle; um desafio que não casava de todo com a atmosfera bucólica do primeiro CD. “The stone bequest” e “The church grim” são por seu lado, duas pequenas peças instrumentais que se encaixam nas atmosferas negras e esotéricas herdeiras da tradição folk pagã. Finalmente “Fine Horseman”, a recuperação, experimenta aqui uma nova abordagem de Steven Collins, depois de uma primeira versão no single “Wake the vaulted echo”. Um original de Lal Waterson, “Fine Horseman” foi oferecido a Anne Briggs que o cantou em “The time has come” e, mais adiante, recuperado por Lal & Mike Waterson em “Bright Phoebus”, um dos discos lendários do folk inglês.


Neste EP Steven Collins revê a sua própria versão. Retira-lhe as cordas, alguma contemporaneidade, ao mesmo tempo que utiliza a magnífica voz de Nancy Wallace para se aproximar da paisagem e atmosfera perfeitas que resultavam da interpretação de Briggs em 1971.

Mas, como se o que está para trás não fosse já suficiente, existe ainda “The Fabric of Folk”, uma colaboração com Alison O’ Donnell (co-vocalista dos irlandeses Mellow Candle, cujo álbum “Swaddling Songs” de 1972 foi objecto de recente reedição).


Integrando cinco temas, dois tradicionais, dois originais e um pequeno interlúdio assinado por Collins, “The Fabric of Folk” afasta-se do até aqui habitual acid-folk estruturante em Owl Service, coloca em stand-by as influências inglesas (Fairport, Shirley Collins, Albion Band) e estabelece novas pontes musicais e temáticas com a herança irlandesa ( ao escutar os tradicionais “William & Earl Richard’s daughter” ou “Flodden field”, regressa à memória “Backwoods” de Gay & Terry Woods ou as canções épicas dos dublinners Sweeney’s Men ), o que apesar de constituir uma variante surpreendente, não é uma má notícia.

Aos ambientes sépia típicos em Collins, são agora adicionados: o colorido que emerge da voz calorosa de Alison e o mistério associado aos temas que se inspiram nas lendas e mitologias da Irlanda. Por tudo isto, “The Fabric of Folk” é francamente recomendável e pode muito bem vir a significar um marco nos percursos até aqui díspares de Alison O’ Donnell e Steven Collins.

28/08/08

Fairport Convention "Maidstone 1970"


Não se conhecem significativos testemunhos filmados das três primeiras formações dos Fairport Convention, particularmente das que gravaram “What we did on our holidays” , “Unhalfbricking” e “Liege and Lief”.

Quanto aos Fairport Convention 4 – Richard Thompson, Simon Nicol, Dave Mattacks, Dave Swarbrick e Dave Pegg-, a formação que gravou “Full House” e “House full”, sabia-se da existência de um documentário captado ao vivo e que terá passado nos cinemas do Reino Unido no inicio dos anos 70, mas que desde então desapareceu sem deixar rasto.

Tarde ou cedo, felizmente, os documentos históricos acabam por voltar à superfície e “Fairport Convention: Maidstone 1970” está de regresso, recuperado por Tony Palmer, o homem que o filmou há 38 anos.

Após a partida de Sandy Denny e com a crescente influência do violino e da personalidade de Swarbrick, os Fairport acrescentaram uma vertente mais instrumental ao portfolio de canções originais e de origem tradicional que interpretavam. Os “jigs” e os “reels” de que os três Daves (Swarbrick, Pegg e Mattacks ) tanto gostavam, ombreavam agora de igual para igual com temas como “Sloth”, “Walk awhile”, “Sir Patrick Spens” ou “Now be thankful”.


(Swarbrick, Mattacks, Nicol, Thompson e Pegg, na capa interior de "Full House")

Os Fairport Convention captados por Tony Palmer em 5 de Junho de 1970 na Maidstone Fiesta são exactamente assim. Instrumentalmente brilhantes ( é já uma redundância abordar esse particular no que toca a Thompson ), divertidos e entusiastas de uma música que, à época, note-se, não era objecto de tanta atenção como hoje. Num mundo mais justo, por exemplo, o tema que Thompson e Swarbrick escreveram a meias, “Now be thankful” ( ausente do álbum “Full House” mas editada em single ) deveria ter sido um estrondoso hit.
(Richard Thompson em Maidstone)

Naquela tarde de verão, as câmaras de Palmer filmaram também a actuação da Matthews Southern Comfort liderada pelo primeiro vocalista masculino dos Fairport, Iain Matthews, de partida em 1969 pois, ao contrário da linha maioritária que privilegiava a tradição folk inglesa, pretendia seguir a via do “country-rock” versão “west coast”. Conseguiu-o com o novo grupo e as versões de “My front pages” e “Southern Comfort” aqui presentes são uma eloquente prova disso mesmo.

Magnífica a recuperação deste pedaço de história, ao qual se adiciona uma entrevista recentemente efectuada a Tony Palmer. Quanto aos Fairport Convention jamais voltariam a ser tão obrigatórios; mesmo considerando que Sandy Denny regressou ao colectivo em 1974. Só que nessa altura já não estavam Simon Nicol e, sobretudo, Richard Thompson.