28/08/08

Fairport Convention "Maidstone 1970"


Não se conhecem significativos testemunhos filmados das três primeiras formações dos Fairport Convention, particularmente das que gravaram “What we did on our holidays” , “Unhalfbricking” e “Liege and Lief”.

Quanto aos Fairport Convention 4 – Richard Thompson, Simon Nicol, Dave Mattacks, Dave Swarbrick e Dave Pegg-, a formação que gravou “Full House” e “House full”, sabia-se da existência de um documentário captado ao vivo e que terá passado nos cinemas do Reino Unido no inicio dos anos 70, mas que desde então desapareceu sem deixar rasto.

Tarde ou cedo, felizmente, os documentos históricos acabam por voltar à superfície e “Fairport Convention: Maidstone 1970” está de regresso, recuperado por Tony Palmer, o homem que o filmou há 38 anos.

Após a partida de Sandy Denny e com a crescente influência do violino e da personalidade de Swarbrick, os Fairport acrescentaram uma vertente mais instrumental ao portfolio de canções originais e de origem tradicional que interpretavam. Os “jigs” e os “reels” de que os três Daves (Swarbrick, Pegg e Mattacks ) tanto gostavam, ombreavam agora de igual para igual com temas como “Sloth”, “Walk awhile”, “Sir Patrick Spens” ou “Now be thankful”.


(Swarbrick, Mattacks, Nicol, Thompson e Pegg, na capa interior de "Full House")

Os Fairport Convention captados por Tony Palmer em 5 de Junho de 1970 na Maidstone Fiesta são exactamente assim. Instrumentalmente brilhantes ( é já uma redundância abordar esse particular no que toca a Thompson ), divertidos e entusiastas de uma música que, à época, note-se, não era objecto de tanta atenção como hoje. Num mundo mais justo, por exemplo, o tema que Thompson e Swarbrick escreveram a meias, “Now be thankful” ( ausente do álbum “Full House” mas editada em single ) deveria ter sido um estrondoso hit.
(Richard Thompson em Maidstone)

Naquela tarde de verão, as câmaras de Palmer filmaram também a actuação da Matthews Southern Comfort liderada pelo primeiro vocalista masculino dos Fairport, Iain Matthews, de partida em 1969 pois, ao contrário da linha maioritária que privilegiava a tradição folk inglesa, pretendia seguir a via do “country-rock” versão “west coast”. Conseguiu-o com o novo grupo e as versões de “My front pages” e “Southern Comfort” aqui presentes são uma eloquente prova disso mesmo.

Magnífica a recuperação deste pedaço de história, ao qual se adiciona uma entrevista recentemente efectuada a Tony Palmer. Quanto aos Fairport Convention jamais voltariam a ser tão obrigatórios; mesmo considerando que Sandy Denny regressou ao colectivo em 1974. Só que nessa altura já não estavam Simon Nicol e, sobretudo, Richard Thompson.

22/08/08

Jardins do Paraíso V ( Farm )




De acordo com o testemunho de alguns dos principais protagonistas, a história musical de “The innermost limits of pure fun”, o primeiro e único álbum dos californianos Farm, conta-se mais ou menos assim.

No verão de 1969 George Greenough, um jovem cineasta praticante de surf, regressou da Austrália com cerca de uma hora de película que filmara em cima de uma prancha nas águas dos antípodas. Consciente que tinha conseguido uma abordagem nova e revolucionária na forma de filmar o surf, estava determinado a montar as fitas e lançar um filme para o qual já tinha título: “The innermost limits of pure fun”. Necessitava no entanto de uma banda sonora.

Contactou um velho conhecido de Santa Barbara, Denny Aaberg, então empenhado em tocar guitarra em todos os “love ins” que a sua itinerância proporcionava. Denny comprou a ideia, arregimentou de imediato os “compadres” Ernie Knapp e Phil Pritchard, e tratou de convencer os irmãos Dragon (Doug, Dennis e Daryl ) que à data, sem grande sucesso, percorriam os cafés e bares de Los Angeles tocando sob o nome de família: The Dragons.



(The Dragons )


Uma química musical pouco usual terá emergido logo nos primeiros ensaios. Os Dragon eram no essencial adeptos do jazz. Aaberg um entusiasta do blues, do bebop e do rock. “The innermost limits of pure fun” nasceu por isso naturalmente eclético.

Gravado em Santa Barbara, praticamente ao vivo no estúdio (“Coming of the Dawn”, a jam que encerra o disco, foi criada e gravada enquanto as imagens captadas por Greenough nas praias australianas eram projectadas numa parede do estúdio ), o álbum constitui um oportuno e inspirado documento onde coabitam em harmonia o acid-jazz, o blues rural, o guitar picking ou o surf-rock psicadélico.

Daí que “The innermost limits of pure fun” visite territórios que à época eram desbravados por pioneiros como Gary Burton Quartet (“Wind n sea”), Booker T (“Animal”), Mose Allison (“Crumble car” e “The eater”), Malachi (“Snake charmer”), ou Freddie King, autor de um explosivo “San Ho Zay” aqui versionado.

Assinalável também, a curiosidade de “The Cruzer”, um tema de Aaberg ( foto da direita com Dennis Dragon na bateria ), cuja estrutura e arranjos pré-datam em cerca de um ano “Been down so long” que haveria de ser escrito pelos Doors para “L.A. Woman”. Por fim, a já referida live-jam “Coming of the Dawn”, espécie de sumário alargado de tudo o que ficou para trás, encerra na perfeição um registo que, enquadrado nos padrões da época, não pode deixar de se considerar notável.

A razão por que permaneceu obscuro durante tanto tempo, terá certamente a ver com o facto dos Farm nunca se terem afirmado como grupo. Depois da estreia do filme e perante o interesse que a banda sonora despertou, o grupo prensou 1.000 cópias de vinil, uma edição privada que colocou à venda nos balcões das lojas de artigos de surf ou vendeu pelo correio. A raridade da edição original é portanto monumental.

Ao longo do tempo o álbum foi objecto de duas reedições ( Austrália e Estados Unidos ) de legalidade e qualidade áudio questionáveis. Ainda assim permaneceu um artefacto obscuro. Até há poucos meses, quando a editora japonesa EM Records, com a autorização dos músicos e o trabalho de remasterização de Dennis Dragon, publicou a versão definitiva da banda sonora. Um trabalho áudio e gráfico finalmente à altura da música.

19/08/08

Randy Newman "Harps and Angels"


Ao longo de quatro décadas, Randy Newman deu corpo a três carreiras distintas, duas delas em simultâneo.

Nos anos 60 começou por ser um compositor de canções, assalariado da Metric Music, uma casa a que alguns cantores de renome (Cilla Black, Dusty Springfield, Harry Nilson, Scott Walker) recorriam em busca de potenciais hits.

Anos mais tarde, no inicio dos 70s, desiludido com algumas interpretações das canções que escrevia, decidiu começar a cantá-las, dando origem a uma das mais incontornáveis páginas da música americana.

Em 1981, com a banda sonora do filme de Milos Forman “Ragtime”, seguiu os passos dos tios ( Lionel, Alfred e Emil ) e deu o pontapé de saída na terceira carreira. Uma actividade que se prolonga até hoje e que já lhe proporcionou 15 nomeações para o Oscar e uma estatueta dourada por via da canção “If I didn’t have you” do filme “Monsters Inc”.

No fundo, não deixa de ser curioso o facto de Newman - depois de Dylan e a par de Tom Waits, talvez o mais lúcido, perspicaz e satírico cronista da sociedade americana -, ser hoje mais ouvido pelos nossos adolescentes ( sem que estes provavelmente se dêem conta ) por via das bandas sonoras que compõe, do que por todos aqueles que aprenderam a saborear as suas melodias e mordacidade em álbuns como “Sail away”, “Good old boys” ou “Little criminals”.

É verdade que quem não aparece esquece e Newman, nos últimos 20 anos, para além das referidas bandas sonoras, gravou apenas três discos de canções. Natural portanto o esquecimento. O novo “Harps and Angels” é contudo um convite irrecusável ao regresso.
O novo registo revela um compositor mais do que nunca mergulhado nas formas tradicionais da música americana ( blues, ragtime, jazz de New Orleans ), mas sempre com o cabaret berlinense por perto. Aliás, o burlesco musical de algumas das peças, casa perfeitamente com as letras e dissertações provocatórias sobre os tecidos urbano, moral e político. “Harps and angels” é uma notável visão das nossas sociedades através da objectiva de um Newman mais velho, é verdade, mas também por isso muito mais sábio.

O modo como os cidadãos dos Estados Unidos olham para o seu país, num dos melhores textos que Newman escreveu (“A few words in defense of our country”), a comercialização/apropriação das canções pelas marcas publicitárias (“A piece of the pie”), a política de educação ou a falta dela (“Korean parents”), a abordagem do amor “façon” Randy Newman (“Losing you”, “Only a girl”), a questão da emigração (“Laugh and be happy”), são algumas das preocupações que o compositor decidiu trazer a público, como fez questão de referir em entrevista recente “antes que o mandato de Bush termine”.

Por detrás da sátira, Newman foi quase sempre um artista auto-biográfico, mesmo quando o não parecia. Neste disco esse facto é ainda mais acentuado pela necessidade que o compositor sentiu em fazer-se ouvir, nove anos após “Bad love", o anterior opus de canções.

Está de volta o Randy Newman de “Good old boys” ou “Sail away”. Leitura social atenta, irónica, sempre crítica. Abrangente na forma de interpretar as diversas expressões da canção americana. Lúcido e coerente nas ideias, económico e minimalista nas palavras. Raymond Carver seria certamente um entusiasta.

12/08/08

Earthling Society "Beauty and the Beast"

A Earthling Society habituou-me a extensas peças de electrónica, onde o space-rock e as matrizes dominantes do chamado rock alemão constituíam o foco principal, familiar, da banda.

Ao quarto álbum, Fred Laird, Jon Blacow, David Fyall e Kevy Canavan optaram por mudar o paradigma. “Beauty and the Beast”diverge dos anteriores na medida em que, maioritariamente, desloca o centro do discurso musical do campo da electrónica para os terrenos mais atractivos da melodia.



Apresentado numa magnífica capa tripla, da autoria da americana Stacie Willoughby ( tal como Iker Spozio, outra artista/designer a seguir com atenção ), “Beauty and the Beast” rodopia em torno de um conjunto aleatório de conceitos. Reflecte um maior e significativo ecletismo e, por essa via, tanto pode recordar a luminosidade de uma balada dos Stones (“Candlemass” ), as aguarelas geométricas de Sylvian com Sakamoto (“Untitled” ), a propulsão imprevisível dos Can (“Drowned world”) ou a energia lisérgica dos Happy Mondays (“Sundropped”). Sendo que o retro-prog dos Yes de Rick Wakeman também por ali anda, detrás dos biombos do mellotron ou dos samples (“Valerie a tyden divu”).

Entre dúvidas e certezas, balanço feito, “Beauty and the Beast” não é melhor nem pior que os seus anteriores. É diferente, o que não é necessariamente uma coisa má. Tudo depende agora do que vier a seguir.

07/08/08

Schizo Fun Addict "Theme One"




Colectivo oriundo de Nova Iorque, os Schizo Fun Addict, - cujo som alguém com alguma dose de exagero já definiu como “early Sonic Youth jamming with Burning Spear” ou mais exageradamente ainda “ a sheer approximation of what might happen had Kim Deal sung with Velvet Underground” – têm já no activo um par de cds de qualidade e interesse desigual.

São referidos aqui no Atalho não naturalmente por isso, também não pelo facto de em 2007 terem publicado um single relativamente inócuo mas de título deveras intrigante: “Dream of the Portugal keeper” (???), mas pelo facto de terem inaugurado a nova colecção de singles da editora Fruits de Mer através do imperdível “Theme One/Ogden’s nut gone flake”.



Escrito por George Martin, “Theme One” ficou conhecido ao ser usado como música de abertura do programa Saturday Rock Show na BBC Radio One em 1970. Mais tarde foi versionado pelos Van der Graaf Generator, tendo sido publicado em single em Inglaterra e integrado ( ao que se sabe contra a vontade de Peter Hammill ) o alinhamento da edição americana de “Pawn Hearts”. Aqui, através dos arranjos “science-psychedelic-fiction” inventados pelos SFA, conhece porventura a sua versão definitiva.

Quanto a “Ogden’s nut gone flake” trata-se do tema título do histórico álbum que os Small Faces criaram em 1968, no zénite do psicadelismo inglês. A versão trabalhada pelos SFA reactualiza e reposiciona a canção sem comprometer.

Dito isto, pode muito bem acontecer que o futuro dos Schizo Fun Addict nos reserve alguma agradável surpresa …

04/08/08

Helena Espvall & Masaki Batoh - "S/t"


Existiam fundadas e justificadas expectativas relativamente a esta colaboração.

Masaki Batoh lidera há cerca de 20 anos o colectivo japonês Ghost, um projecto orientado para o avant-psych mas com repetidas e significativas incursões na folk. Natural da Suécia, Helena Espvall tem vindo a percorrer os trilhos do experimentalismo, do wyrd-folk, tem colaborado com Bert Jansch e há um par de anos integra os Espers, a banda que o americano Greg Weeks utiliza para renovar o vocabulário e sons do folk de inspiração celta, tal como a Incredible String Band os concebeu.

Tendo presente a expectativa que envolveu o projecto e o currículo dos músicos “Helena Espvall & Masaki Batoh” sabe a pouco. Resultará apenas como um conjunto de temas tradicionais escandinavos, intercalados por uma mão cheia de curtas improvisações de cariz pastoral e/ou medieval.

É notório o desequilíbrio. Há demasiada Helena Espvall e muito pouco Masaki Batoh ( bastará regressar ao magnífico “Damon & Naomi with Ghost” para se aquilatar da qualidade e da importância do guitarrista japonês ). Logo, o plano inclina-se indesejavelmente em direcção a Joanna Newsom, Marissa Nadler, Josephine Foster ou CocoRosie, o que como muito boa gente já percebeu não é de todo um bom sinal.

As atmosferas místicas, imagem reflectora de Batoh, tinham tudo para casar com as paisagens medievais aqui exploradas por Espvall, porém a inesperada fragilidade dos arranjos deixa no ar uma sensação de insegurança que acaba por comprometer as intervenções de um músico experimentado e versátil como Batoh.

Do conjunto, emergem “The Beautiful Crystal” ( muito bom o trabalho de guitarra da sueca ),”Death letter” um tema de Son House adaptado e interpretado por Masaki e “Uti Var Hage” uma canção tradicional da Suécia onde o conjunto das duas vozes e o filigranar das guitarras eléctricas se aproximam dos patamares de beleza e melancolia que caracterizam as criações do japonês.

Talvez a soma das duas personalidades resulte melhor em palco …

30/07/08

Jardins do Paraíso IV ( Cold Sun )


Custa a crer como foi possível que “Dark Shadows”, o fantástico primeiro e único álbum dos Cold Sun, cujas fitas foram gravadas em 1970, permanecesse inédito durante duas décadas, justamente até 1990 data em que a Rockadelic, com o acordo da banda e através de uma edição limitada de 300 exemplares, publicou finalmente os sete temas que estiveram na génese de “Dark Shadows”.

Depois, foi preciso esperar mais 18 anos para que o disco fosse objecto de uma reedição legal em CD e LP, colocando desta forma um ponto final na homérica cruzada dos fãs, - a busca insana de uma cópia da edição vinil da Rockadelic, raramente captada nos radares e, quando raramente tal acontecia, nunca aceitava mudar de mãos por menos de 500 dólares.

Only in Texas” como refere Jello Biafra nas notas de escreveu para o booklet que acompanha a reedição do álbum.

Depois de escutar o disco, eu ( e provavelmente a generalidade dos incondicionais do psicadelismo ) não hesito em catalogar “Dark Shadows” como um dos melhores registos saídos do Texas na segunda metade dos 60s. Dada a natureza do projecto, só espanta que os Cold Sun não tenham integrado o catálogo do International Artists, etiqueta responsável pela divulgação das melhores bandas texanas da época ( os mais curiosos poderão confirmá-lo em “Never Ever Land, 83 Texan Nuggets from International Artists Records 1965-1970”, uma compilação recentemente editada pela Charly ).


Com “Dark Shadows” Bill Miller ( futuro membro da banda de Roky Ericson ) e os Cold Sun, criaram um disco tão extraordinário quanto original. Um facto notável considerando que em 1970 no Texas, psicadelismo era sinónimo de 13th Floor Elevators e Golden Dawn. Porém “Dark Shadows” não é garage-rock, garage-punk, blues ou hard-rock. Trata-se de um puro registo psicadélico, alucinante, repleto de visões deslumbrantes , que apresenta o deserto texano como pano de fundo e o autoharp de Miller como guia. “Dark Shadows” deverá de resto ser o único disco psicadélico realmente importante onde o autoharp detém o papel de liderança.

“South Texas”, “Twisted Flower”, “Fall ou “Ra-Ma” são temas intensos, evolutivos e hipnóticos. Não surgem excessivamente datados, crescem a cada audição, mas tal como o conjunto de que fazem parte, carecem de um estado de espírito próprio para serem escutados e admirados na plenitude.

De novo, Jello Biafra não tem dúvidas: “… this is TRUE Texas psychedelic music progressive expansions long before prog realized how ‘progressive’ it was and lost the brain melt side of the plot.”

Cautelosa, a World in Sound optou por escrever na contracapa da reedição, “WARNING: do not operate motor vehicle or power tools while listening to these recordings.”

De facto, “só no Texas”.

25/07/08

"Thank you friends, The Ardent Records story"


They may call Nashville ‘Music City’, but that title belongs fairly and squarely to its southeasterly neighbour Memphis. For a century or more, popular music has been Memphis’ very fabric… Steeped in the blues, this was where rock’n’roll was born, the fount of Southern Soul, yet a significant minority of East Memphis youth in the late 60s and early 70s appeared to be besotted with the sound of British rock. This was not the mainstream Anglophilia of the mid-60s America, but an enthusiasm bordering on obsession, a Southern demi-monde where the Yardbirds and the Who reigned supreme, and Ardent Studios was its nexus.” ( Alec Palao )

Looking back, (Ardent) was an island in a sea of rhythm and blues, in a country that didn’t want the music that we wanted to make at that time. It was a very isolated situation” ( Terry Manning )

Vistas em perspectiva estas duas citações ajudam a compreender muito do que se passou nos estúdios da Ardent entre 1966 e 1977. Como foi afinal possível que tanta invenção, criatividade e paixão pudesse passar ao lado da grande massa de público.

Fundados pelos visionário John Fry ( foto da esquerda ), os Ardent Studios primeiro e a Ardent Records depois, cedo se transformaram no laboratório de trabalho dos novos alquimistas dos sons da cidade de Memphis. Terry Manning, Chris Bell, Alex Chilton, Don Nix e Jim Dickinson entre outros, estavam mais interessados na vertente anglófila do pop do que no rock’n’roll e no soul de Memphis e Detroit.
O primeiro CD da compilação “Thank you friends, The Ardent Records Story”, integrando música escrita e gravada entre 1966 e 1971, documenta-o na perfeição. De uma forma quase incestuosa, os músicos/compositores/engenheiros/produtores saltavam de projecto para projecto, banda para banda, sem outro objectivo que não o de criar e gravar a música de os inspirava. Donde, verdadeiras preciosidades como o beat dos The Avengers, o barroco de 1st Century, o garage-punk dos Goatdancers, o “psychedelic stuff” de Chris Bell e Icewater, o pop luminoso de Alex Chilton ou o “rock saloon” dos Rock City.

John Fry entretanto ligou-se à Stax Records e a recém-criada Ardent Records, enquanto subsidiária daquele grupo editorial, procurou apostar no mercado rock. Big Star, o novo colectivo de Alex Chilton e Chris Bell, os Cargoe, uma promessa de Oklahoma e os Hot Dogs foram as apostas de partida.

Os Cargoe gravaram um muito interessante álbum homónimo produzido por Terry Manning, enquanto Hot Dogs editava, “Say what you mean” em 1973. Quanto a Big Star pouca haverá a acrescentar, tal a reconhecida importância dos álbuns “#1 Record” e “Radio City”. À data, curiosamente, todos passaram despercebidos.


( Big Star )

O segundo Cd de “Thank you friends” recupera o período 1971-1977. O destaque vai directo para as demos e misturas inéditas de Big Star. Mas, Chris Bell a solo, duas pérolas retiradas do registo dos Cargoe e posteriores evoluções power-pop (Scruffs, Tommy Hoehn e Hot Dogs) também justificam referência.

O trabalho de compilação e anotação de “Thank you friends” possui a chancela de qualidade que é característica do músico/historiador/arquivista Alec Palao. Desta forma, um projecto que era à partida interessante, transformou-se numa edição indispensável.

22/07/08

Big Brother and the Holding Company "The Lost Tapes"



The Lost Tapes”, ou a arqueologia aplicada aos Big Brother and the Holding Company. Segundo os cronistas da época, no final de 1967, quando a Mainstream Records, cavalgando a onda de sucesso que resultou da performance da banda no festival de Monterey, se preparava para publicar o primeiro álbum – “Big Brother & The Holding Company” -, o grupo tentou opor-se , alegando que as fitas já não correspondiam à sua condição técnica e artística. Tinham razão, como se pode comprovar um ano após com a edição de “Cheap Thrills” ( gravado ao vivo em Março de 1968 ).

Admitindo que a edição “The Lost Tapes” foi licenciada pelos membros sobreviventes da banda, a sua publicação só se compreende por razões históricas. Arqueológicas, lá está.

As informações sobre a origem, data e enquadramento das gravações ao vivo reunidas em “Lost Tapes” são nulas. Um facto sempre irritante neste tipo de edições. No entanto, face ao carácter espartano dos arranjos e perante uma técnica instrumental ainda embrionária, tudo aponta para que estas fitas datem do verão de 1966, logo após a entrada de Janis Joplin para o grupo.

Aqui o termo de comparação poderá ser “Cheaper Thrills” uma compilação que a Made to Last primeiro e a Rhino logo após, publicaram em 1984/1985 e que registava extractos de um concerto gravado em Julho de 1968.



( Grande Ballroom, Detroit, 1968, Autor Gary Grimshaw )


Dos 12 títulos inéditos ( eu diria versões inéditas ) que compõem o primeiro CD de “Lost Tapes”, saliento pela consistência as interpretações de “All is loneliness” ( na origem um madrigal escrito por Moondog para o álbum “Moondog 2” ), “Light is faster than sound” e “Turtle blues”, três dos temas com que os Big Brother viriam a contribuir para a criação do paradigma da música de São Francisco.

O segundo CD é também um conjunto de temas captados ao vivo muito provavelmente em data posterior, pois o grupo evidencia uma maior dinâmica instrumental e Joplin assegura já a maioria das vocalizações, em contraste com o que sucedia nas fitas de 1966.

Concluindo, “The Lost Tapes” é uma edição claramente apontada aos incondicionais de Janis Joplin e demais adeptos de Big Brother and the Holding Company. Quanto aos restantes interessados no “psychedelic rock” de São Francisco, ousaria repetir uma evidência: os Big Brother nunca foram uns Jefferson Airplane e Joplin esteve sempre longe de Grace Slick…

19/07/08

The Moon Upstairs "Guarding the Golden Apple"


Os famosos 15 minutos de fama que falava Andy Warhol já lá vão. São passado. Na música moderna já não se procuram os tais 15 minutos, basta um “sound bite”; uma birra relacionada com a cor do verniz das unhas, a ideia de lançar um disco na net por meia dúzia de cêntimos, simular um corte com o sistema e assinar contrato com uma cadeia de cafés, surgir de braço dado com uma estrela de Hollywood… O resto, a música, aquilo que é realmente importante, a razão de ser de tudo isto, não interessa para nada. O sucesso está à partida assegurado por uma competente equipa de marketing e planeamento. É a cultura de irrelevância, como já alguém referiu.

Ocorreu-me esta conversa toda depois de ter escutado de novo o cd de estreia dos The Moon Upstairs. “Guarding the Golden Apple”, estando longe de ser um disco revolucionário é porém uma das edições mais consistentes de 2007. Apesar disso não me lembro de ter lido ou ouvido falar dele, salvo nos habituais fanzines que se movimentam nas margens do alternativo.
Oriundos de Los Angeles, os Moon Upstairs existem desde 2002 e expressam-se através de um rock psicadélico moderno mas de olhar atento sobre o passado. São particularmente elucidativas as influências em Sharif Dumani, o principal compositor: Beatles em matéria de “songwriting”, Pink Floyd ( período Syd Barrett primeiro e “Meddle”/”Obscured by clouds” a seguir ), Brian Epstein, Jack Nietzsche, Scott Walker ou Left Banke, pelos arranjos e orquestrações.



Neste campo as atmosferas luxuosas que enquadram “The Sun, the Moon and the Sky”, “Sogomiac, the Moon destroyer” e “My love” sugerem ainda um fascínio pelo barroco, fórmula compreensível do ponto de vista de quem se propõe abordar tão vincadamente o tema dos arranjos de cordas.

No mais, “Guarding the Golden Apple” espalha ondas de inteligência, assinalável bom gosto e um discurso formal que, repito, não sendo inovador recupera o que de mais interessante as várias escolas do pop do final dos anos sessenta início de 70 deixaram em legado.

Dito isto, “Guarding the Golden Apple” é mais um conjunto de temas para fãs de John Lennon, Pink Floyd ou Mercury Rev e menos um disco para adeptos de Quicksilver Messenger Service, Mad River ou Wooden Shjips.

16/07/08

Jardins do Paraíso III ( Clark-Hutchinson )




No inicio da década de setenta apenas uma ínfima minoria, que se encontrava em Londres no ano e no local certo, tomou contacto com Clark-Hutchinson. Uma imensa maioria, onde me incluo, chegou tarde a “A=MH2”, o disco estreia do duo.
Como consequência , a banda que Andy Clark e Mick Hutchinson formaram em 1969, naquele período charneira em que o blues rock e o psicadélico se preparavam para mutar em progressivo, foi injustamente atirada para o limbo da irrelevância de onde só sairia cerca de 25 anos depois.
Agora que “A=MH2” teve a merecida e cuidada reedição, percebe-se o que tanta gente andou a perder durante tanto tempo.
Gravado em Maio de 1969, duas sessões nocturnas de 12 horas cada, “A=MH2” ( Andy igual a Mick Hutchinson ao quadrado ) é um dos trabalhos mais notáveis a emergir do underground londrino da época. Constituído por cinco temas, nenhum deles negligenciável e cujos títulos são elucidativos – “Improvisation on a Model Scale”/”Acapulco Gold”/”Impromptu in ‘E’ Minor”/”Textures in ¾”/”Improvisation on a Indian Scale” – a música gravada por Clark ( baixo, piano, órgão, sax, maracas, guitarras, flauta, voz ) e Hutchinson (guitarras solo e ritmo, , baixo, bongos, pianos, flauta ) atravessa os territórios habitados pelo blues, jazz, raga e psicadélico, com a coragem própria dos pioneiros. “A=MH2” está para além de qualquer fronteira conhecida, quer antes quer depois de ter sido gravado. É arrasador e não deixa sobreviventes.
A completar a reedição, o segundo disco integra a totalidade daquele que deveria ter sido o primeiro álbum do duo: intitulado “Clark-Hutchinson”. Gravadas em Março de 1969, as respectivas fitas nunca chegariam a ser editadas pela Decca em devido tempo ( foram objecto de uma edição limitada em CD na alemã Wing of Refugees a meio dos anos 90 ).
São oito temas de um “acid-blues-rock” explosivo, perfeitamente em linha com a época. Ou seja: uma evidente influência da John Mayall Blues Band, modelada pelas derivações vizinhas dos Chicken Shack e Fleetwood Mac ( período Peter Green ) ou por fórmulas usadas pelos Tramp e Groundhogs, as quais antecipavam a inflexão progressiva mais à frente levada a cabo por Bakerloo ou Gravy Train.
Ainda que notáveis do ponto de vista puramente instrumental, estes oito temas servem aqui de bitola para medir a notável evolução deste duo em apenas dois meses. Precisamente o tempo que separa estas gravações de um “A=MH2” tão superior e visionário que ainda hoje impressiona, 40 anos passados.

14/07/08

"Tell me when it's over, Notes from the Paisley Underground"


Publicado em 2006 pela Rainfall Records & Books, “Tell me when it’s over, Notes from the Paisley Underground”, o livro editado por Clive Jones já não é exactamente uma novidade editorial. Porém face ao quase total silêncio que rodeou a sua publicação e posterior ausência de divulgação, aqui fica a referência.

Apontada aos fãs e curiosos do chamado Paisley Underground, movimento de cariz neo-pop e neo-psicadélico nascido na década de 80, também referido como “renascença rock americana”, a brochura compila artigos e entrevistas publicados em jornais e fanzines alternativos da época.

Os autores são, entre outros: Pat Thomas, Nigel Cross, Clive Jones, Fred Mills, Colin Hill, Jud Cost e Jon Storey. Os objectos da atenção, as bandas, dão pelo nome de Dream Syndicate, Three O’Clock, True West, Long Ryders, Green on Red, Weednesday Week, 28th Day, Rain Parade, Clay Allison, Opal e Mazzy Star.

Todos ou quase todos os nomes que interessam para se compreender o que de importante se passou naquela cena, durante aqueles anos.