04/08/08

Helena Espvall & Masaki Batoh - "S/t"


Existiam fundadas e justificadas expectativas relativamente a esta colaboração.

Masaki Batoh lidera há cerca de 20 anos o colectivo japonês Ghost, um projecto orientado para o avant-psych mas com repetidas e significativas incursões na folk. Natural da Suécia, Helena Espvall tem vindo a percorrer os trilhos do experimentalismo, do wyrd-folk, tem colaborado com Bert Jansch e há um par de anos integra os Espers, a banda que o americano Greg Weeks utiliza para renovar o vocabulário e sons do folk de inspiração celta, tal como a Incredible String Band os concebeu.

Tendo presente a expectativa que envolveu o projecto e o currículo dos músicos “Helena Espvall & Masaki Batoh” sabe a pouco. Resultará apenas como um conjunto de temas tradicionais escandinavos, intercalados por uma mão cheia de curtas improvisações de cariz pastoral e/ou medieval.

É notório o desequilíbrio. Há demasiada Helena Espvall e muito pouco Masaki Batoh ( bastará regressar ao magnífico “Damon & Naomi with Ghost” para se aquilatar da qualidade e da importância do guitarrista japonês ). Logo, o plano inclina-se indesejavelmente em direcção a Joanna Newsom, Marissa Nadler, Josephine Foster ou CocoRosie, o que como muito boa gente já percebeu não é de todo um bom sinal.

As atmosferas místicas, imagem reflectora de Batoh, tinham tudo para casar com as paisagens medievais aqui exploradas por Espvall, porém a inesperada fragilidade dos arranjos deixa no ar uma sensação de insegurança que acaba por comprometer as intervenções de um músico experimentado e versátil como Batoh.

Do conjunto, emergem “The Beautiful Crystal” ( muito bom o trabalho de guitarra da sueca ),”Death letter” um tema de Son House adaptado e interpretado por Masaki e “Uti Var Hage” uma canção tradicional da Suécia onde o conjunto das duas vozes e o filigranar das guitarras eléctricas se aproximam dos patamares de beleza e melancolia que caracterizam as criações do japonês.

Talvez a soma das duas personalidades resulte melhor em palco …

30/07/08

Jardins do Paraíso IV ( Cold Sun )


Custa a crer como foi possível que “Dark Shadows”, o fantástico primeiro e único álbum dos Cold Sun, cujas fitas foram gravadas em 1970, permanecesse inédito durante duas décadas, justamente até 1990 data em que a Rockadelic, com o acordo da banda e através de uma edição limitada de 300 exemplares, publicou finalmente os sete temas que estiveram na génese de “Dark Shadows”.

Depois, foi preciso esperar mais 18 anos para que o disco fosse objecto de uma reedição legal em CD e LP, colocando desta forma um ponto final na homérica cruzada dos fãs, - a busca insana de uma cópia da edição vinil da Rockadelic, raramente captada nos radares e, quando raramente tal acontecia, nunca aceitava mudar de mãos por menos de 500 dólares.

Only in Texas” como refere Jello Biafra nas notas de escreveu para o booklet que acompanha a reedição do álbum.

Depois de escutar o disco, eu ( e provavelmente a generalidade dos incondicionais do psicadelismo ) não hesito em catalogar “Dark Shadows” como um dos melhores registos saídos do Texas na segunda metade dos 60s. Dada a natureza do projecto, só espanta que os Cold Sun não tenham integrado o catálogo do International Artists, etiqueta responsável pela divulgação das melhores bandas texanas da época ( os mais curiosos poderão confirmá-lo em “Never Ever Land, 83 Texan Nuggets from International Artists Records 1965-1970”, uma compilação recentemente editada pela Charly ).


Com “Dark Shadows” Bill Miller ( futuro membro da banda de Roky Ericson ) e os Cold Sun, criaram um disco tão extraordinário quanto original. Um facto notável considerando que em 1970 no Texas, psicadelismo era sinónimo de 13th Floor Elevators e Golden Dawn. Porém “Dark Shadows” não é garage-rock, garage-punk, blues ou hard-rock. Trata-se de um puro registo psicadélico, alucinante, repleto de visões deslumbrantes , que apresenta o deserto texano como pano de fundo e o autoharp de Miller como guia. “Dark Shadows” deverá de resto ser o único disco psicadélico realmente importante onde o autoharp detém o papel de liderança.

“South Texas”, “Twisted Flower”, “Fall ou “Ra-Ma” são temas intensos, evolutivos e hipnóticos. Não surgem excessivamente datados, crescem a cada audição, mas tal como o conjunto de que fazem parte, carecem de um estado de espírito próprio para serem escutados e admirados na plenitude.

De novo, Jello Biafra não tem dúvidas: “… this is TRUE Texas psychedelic music progressive expansions long before prog realized how ‘progressive’ it was and lost the brain melt side of the plot.”

Cautelosa, a World in Sound optou por escrever na contracapa da reedição, “WARNING: do not operate motor vehicle or power tools while listening to these recordings.”

De facto, “só no Texas”.

25/07/08

"Thank you friends, The Ardent Records story"


They may call Nashville ‘Music City’, but that title belongs fairly and squarely to its southeasterly neighbour Memphis. For a century or more, popular music has been Memphis’ very fabric… Steeped in the blues, this was where rock’n’roll was born, the fount of Southern Soul, yet a significant minority of East Memphis youth in the late 60s and early 70s appeared to be besotted with the sound of British rock. This was not the mainstream Anglophilia of the mid-60s America, but an enthusiasm bordering on obsession, a Southern demi-monde where the Yardbirds and the Who reigned supreme, and Ardent Studios was its nexus.” ( Alec Palao )

Looking back, (Ardent) was an island in a sea of rhythm and blues, in a country that didn’t want the music that we wanted to make at that time. It was a very isolated situation” ( Terry Manning )

Vistas em perspectiva estas duas citações ajudam a compreender muito do que se passou nos estúdios da Ardent entre 1966 e 1977. Como foi afinal possível que tanta invenção, criatividade e paixão pudesse passar ao lado da grande massa de público.

Fundados pelos visionário John Fry ( foto da esquerda ), os Ardent Studios primeiro e a Ardent Records depois, cedo se transformaram no laboratório de trabalho dos novos alquimistas dos sons da cidade de Memphis. Terry Manning, Chris Bell, Alex Chilton, Don Nix e Jim Dickinson entre outros, estavam mais interessados na vertente anglófila do pop do que no rock’n’roll e no soul de Memphis e Detroit.
O primeiro CD da compilação “Thank you friends, The Ardent Records Story”, integrando música escrita e gravada entre 1966 e 1971, documenta-o na perfeição. De uma forma quase incestuosa, os músicos/compositores/engenheiros/produtores saltavam de projecto para projecto, banda para banda, sem outro objectivo que não o de criar e gravar a música de os inspirava. Donde, verdadeiras preciosidades como o beat dos The Avengers, o barroco de 1st Century, o garage-punk dos Goatdancers, o “psychedelic stuff” de Chris Bell e Icewater, o pop luminoso de Alex Chilton ou o “rock saloon” dos Rock City.

John Fry entretanto ligou-se à Stax Records e a recém-criada Ardent Records, enquanto subsidiária daquele grupo editorial, procurou apostar no mercado rock. Big Star, o novo colectivo de Alex Chilton e Chris Bell, os Cargoe, uma promessa de Oklahoma e os Hot Dogs foram as apostas de partida.

Os Cargoe gravaram um muito interessante álbum homónimo produzido por Terry Manning, enquanto Hot Dogs editava, “Say what you mean” em 1973. Quanto a Big Star pouca haverá a acrescentar, tal a reconhecida importância dos álbuns “#1 Record” e “Radio City”. À data, curiosamente, todos passaram despercebidos.


( Big Star )

O segundo Cd de “Thank you friends” recupera o período 1971-1977. O destaque vai directo para as demos e misturas inéditas de Big Star. Mas, Chris Bell a solo, duas pérolas retiradas do registo dos Cargoe e posteriores evoluções power-pop (Scruffs, Tommy Hoehn e Hot Dogs) também justificam referência.

O trabalho de compilação e anotação de “Thank you friends” possui a chancela de qualidade que é característica do músico/historiador/arquivista Alec Palao. Desta forma, um projecto que era à partida interessante, transformou-se numa edição indispensável.

22/07/08

Big Brother and the Holding Company "The Lost Tapes"



The Lost Tapes”, ou a arqueologia aplicada aos Big Brother and the Holding Company. Segundo os cronistas da época, no final de 1967, quando a Mainstream Records, cavalgando a onda de sucesso que resultou da performance da banda no festival de Monterey, se preparava para publicar o primeiro álbum – “Big Brother & The Holding Company” -, o grupo tentou opor-se , alegando que as fitas já não correspondiam à sua condição técnica e artística. Tinham razão, como se pode comprovar um ano após com a edição de “Cheap Thrills” ( gravado ao vivo em Março de 1968 ).

Admitindo que a edição “The Lost Tapes” foi licenciada pelos membros sobreviventes da banda, a sua publicação só se compreende por razões históricas. Arqueológicas, lá está.

As informações sobre a origem, data e enquadramento das gravações ao vivo reunidas em “Lost Tapes” são nulas. Um facto sempre irritante neste tipo de edições. No entanto, face ao carácter espartano dos arranjos e perante uma técnica instrumental ainda embrionária, tudo aponta para que estas fitas datem do verão de 1966, logo após a entrada de Janis Joplin para o grupo.

Aqui o termo de comparação poderá ser “Cheaper Thrills” uma compilação que a Made to Last primeiro e a Rhino logo após, publicaram em 1984/1985 e que registava extractos de um concerto gravado em Julho de 1968.



( Grande Ballroom, Detroit, 1968, Autor Gary Grimshaw )


Dos 12 títulos inéditos ( eu diria versões inéditas ) que compõem o primeiro CD de “Lost Tapes”, saliento pela consistência as interpretações de “All is loneliness” ( na origem um madrigal escrito por Moondog para o álbum “Moondog 2” ), “Light is faster than sound” e “Turtle blues”, três dos temas com que os Big Brother viriam a contribuir para a criação do paradigma da música de São Francisco.

O segundo CD é também um conjunto de temas captados ao vivo muito provavelmente em data posterior, pois o grupo evidencia uma maior dinâmica instrumental e Joplin assegura já a maioria das vocalizações, em contraste com o que sucedia nas fitas de 1966.

Concluindo, “The Lost Tapes” é uma edição claramente apontada aos incondicionais de Janis Joplin e demais adeptos de Big Brother and the Holding Company. Quanto aos restantes interessados no “psychedelic rock” de São Francisco, ousaria repetir uma evidência: os Big Brother nunca foram uns Jefferson Airplane e Joplin esteve sempre longe de Grace Slick…

19/07/08

The Moon Upstairs "Guarding the Golden Apple"


Os famosos 15 minutos de fama que falava Andy Warhol já lá vão. São passado. Na música moderna já não se procuram os tais 15 minutos, basta um “sound bite”; uma birra relacionada com a cor do verniz das unhas, a ideia de lançar um disco na net por meia dúzia de cêntimos, simular um corte com o sistema e assinar contrato com uma cadeia de cafés, surgir de braço dado com uma estrela de Hollywood… O resto, a música, aquilo que é realmente importante, a razão de ser de tudo isto, não interessa para nada. O sucesso está à partida assegurado por uma competente equipa de marketing e planeamento. É a cultura de irrelevância, como já alguém referiu.

Ocorreu-me esta conversa toda depois de ter escutado de novo o cd de estreia dos The Moon Upstairs. “Guarding the Golden Apple”, estando longe de ser um disco revolucionário é porém uma das edições mais consistentes de 2007. Apesar disso não me lembro de ter lido ou ouvido falar dele, salvo nos habituais fanzines que se movimentam nas margens do alternativo.
Oriundos de Los Angeles, os Moon Upstairs existem desde 2002 e expressam-se através de um rock psicadélico moderno mas de olhar atento sobre o passado. São particularmente elucidativas as influências em Sharif Dumani, o principal compositor: Beatles em matéria de “songwriting”, Pink Floyd ( período Syd Barrett primeiro e “Meddle”/”Obscured by clouds” a seguir ), Brian Epstein, Jack Nietzsche, Scott Walker ou Left Banke, pelos arranjos e orquestrações.



Neste campo as atmosferas luxuosas que enquadram “The Sun, the Moon and the Sky”, “Sogomiac, the Moon destroyer” e “My love” sugerem ainda um fascínio pelo barroco, fórmula compreensível do ponto de vista de quem se propõe abordar tão vincadamente o tema dos arranjos de cordas.

No mais, “Guarding the Golden Apple” espalha ondas de inteligência, assinalável bom gosto e um discurso formal que, repito, não sendo inovador recupera o que de mais interessante as várias escolas do pop do final dos anos sessenta início de 70 deixaram em legado.

Dito isto, “Guarding the Golden Apple” é mais um conjunto de temas para fãs de John Lennon, Pink Floyd ou Mercury Rev e menos um disco para adeptos de Quicksilver Messenger Service, Mad River ou Wooden Shjips.

16/07/08

Jardins do Paraíso III ( Clark-Hutchinson )




No inicio da década de setenta apenas uma ínfima minoria, que se encontrava em Londres no ano e no local certo, tomou contacto com Clark-Hutchinson. Uma imensa maioria, onde me incluo, chegou tarde a “A=MH2”, o disco estreia do duo.
Como consequência , a banda que Andy Clark e Mick Hutchinson formaram em 1969, naquele período charneira em que o blues rock e o psicadélico se preparavam para mutar em progressivo, foi injustamente atirada para o limbo da irrelevância de onde só sairia cerca de 25 anos depois.
Agora que “A=MH2” teve a merecida e cuidada reedição, percebe-se o que tanta gente andou a perder durante tanto tempo.
Gravado em Maio de 1969, duas sessões nocturnas de 12 horas cada, “A=MH2” ( Andy igual a Mick Hutchinson ao quadrado ) é um dos trabalhos mais notáveis a emergir do underground londrino da época. Constituído por cinco temas, nenhum deles negligenciável e cujos títulos são elucidativos – “Improvisation on a Model Scale”/”Acapulco Gold”/”Impromptu in ‘E’ Minor”/”Textures in ¾”/”Improvisation on a Indian Scale” – a música gravada por Clark ( baixo, piano, órgão, sax, maracas, guitarras, flauta, voz ) e Hutchinson (guitarras solo e ritmo, , baixo, bongos, pianos, flauta ) atravessa os territórios habitados pelo blues, jazz, raga e psicadélico, com a coragem própria dos pioneiros. “A=MH2” está para além de qualquer fronteira conhecida, quer antes quer depois de ter sido gravado. É arrasador e não deixa sobreviventes.
A completar a reedição, o segundo disco integra a totalidade daquele que deveria ter sido o primeiro álbum do duo: intitulado “Clark-Hutchinson”. Gravadas em Março de 1969, as respectivas fitas nunca chegariam a ser editadas pela Decca em devido tempo ( foram objecto de uma edição limitada em CD na alemã Wing of Refugees a meio dos anos 90 ).
São oito temas de um “acid-blues-rock” explosivo, perfeitamente em linha com a época. Ou seja: uma evidente influência da John Mayall Blues Band, modelada pelas derivações vizinhas dos Chicken Shack e Fleetwood Mac ( período Peter Green ) ou por fórmulas usadas pelos Tramp e Groundhogs, as quais antecipavam a inflexão progressiva mais à frente levada a cabo por Bakerloo ou Gravy Train.
Ainda que notáveis do ponto de vista puramente instrumental, estes oito temas servem aqui de bitola para medir a notável evolução deste duo em apenas dois meses. Precisamente o tempo que separa estas gravações de um “A=MH2” tão superior e visionário que ainda hoje impressiona, 40 anos passados.

14/07/08

"Tell me when it's over, Notes from the Paisley Underground"


Publicado em 2006 pela Rainfall Records & Books, “Tell me when it’s over, Notes from the Paisley Underground”, o livro editado por Clive Jones já não é exactamente uma novidade editorial. Porém face ao quase total silêncio que rodeou a sua publicação e posterior ausência de divulgação, aqui fica a referência.

Apontada aos fãs e curiosos do chamado Paisley Underground, movimento de cariz neo-pop e neo-psicadélico nascido na década de 80, também referido como “renascença rock americana”, a brochura compila artigos e entrevistas publicados em jornais e fanzines alternativos da época.

Os autores são, entre outros: Pat Thomas, Nigel Cross, Clive Jones, Fred Mills, Colin Hill, Jud Cost e Jon Storey. Os objectos da atenção, as bandas, dão pelo nome de Dream Syndicate, Three O’Clock, True West, Long Ryders, Green on Red, Weednesday Week, 28th Day, Rain Parade, Clay Allison, Opal e Mazzy Star.

Todos ou quase todos os nomes que interessam para se compreender o que de importante se passou naquela cena, durante aqueles anos.

11/07/08

The Plants "Photosynthesis"



Imaginem um cenário onde se sobrepõem os drones electrónicos de Edgar Froese e Klaus Schulze - nos primeiros álbuns a solo livres dos Tangerine Dream e Ash Ra Tempel - , com um Will Oldham ainda juvenil nos Palace Brothers, mas no feminino.
Acrescentem umas pitadas de folk-pagão e as influências orientais que Davy Graham e a Incredible String Band introduziram na música tradicional popular na segunda metade da década de 60.

Genericamente, é assim que soa “Photosynthesis” dos The Plants.


Ao quarto registo, o duo de Portland ( Josh Blanchard e Molly Griffith Blanchard ) atingiu a maturidade que procurava. “Photosynthesis” é subtil, sensível e filigrânico. Ao mesmo tempo tão natural que soa melhor escutado ao ar livre, em contacto directo com os elementos da natureza, pastoral e bucólica.
Poderá não ser completamente inovador ( facto a que estamos tão habituados que quase já ninguém se espanta ), mas define um espaço de uma beleza intimista e sem tempo. Muito provavelmente, um futuro clássico da linguagem “psychedelic folk rock” moderna.

09/07/08

"Psychedelica, Volumes One & Two"


Em 2006 Scott Causer e Andy Oliver, os dois “old chaps” que lideram a Northern Star Records propuseram-se organizar e publicar “the greatest compilation ever made”. Passe obviamente o exagero e a imodéstia, que deverá ser encarada como estratégia de marketing e não propriamente como defeito, a verdade é que “Psychedelica, Volume One” constitui um sampler com uma qualidade acima da média.

O subtítulo “The third wave of psychedelia” assenta como uma luva, pois salvo duas ou três excepções é de facto uma nova geração de bandas psicadélicas que ali se pode escutar.
O sucesso artístico foi considerável ( do comercial não há notícia ) e cerca de 1 ano depois conduziu à publicação do “Volume Two” ( o terceiro está na forja ), edição onde apenas uma ínfima parte dos nomes se repete.
Através destes dois duplos CDs é todo um universo de novas interpretações da linguagem psicadélica que nos é proposto. Unidas apenas por um conceito bastante lato de psicadelismo, coexistem em “Volume One” e “Two” de “Psychedelica” formas artísticas tão amplas que os fãs de correntes como o “garage”, o “fuzz”, o pop, o “folk-rock”, o “drone”, o “power pop”, o “pós-rock”, o “pós-punk” e até da música electrónica; todos, encontrarão aqui algo que certamente lhes agradará.

Pela minha parte, entre bandas novas, confirmações notórias e alguns pesos pesados, retive os nomes de: Black Angels, Lovetones, Quarter After ( ver post abaixo ), Soft Hearted Scientists, Dolly Rocker Movement, Flowers of Hell, Electric Prunes, Silver Apples, Fuzztones, Spacegarden, Lazily Spun, Black Nite Crash, God is na Astronaut e The Future Kings of England ( o nome desta banda pode não vir a ser apenas uma mera premonição ) cujo álbum do verão de 2007 - “The Fate of Old Mother Orvis” -, é algo de muito recomendável e a merecer investigação cuidada. Tal como os dois duplos CDs de “Psychedelica” …


07/07/08

The Quarter After "Changes near"


Está encontrado o meu disco para este verão. Chama-se “Changes near” e tem a assinatura dos californianos The Quarter After.

O segundo registo dos irmãos Campanella ( Dominic, Robert e às vezes, Christina e Andy ) é um daqueles álbuns de canções luminosas, de texturas coloridas, melodias atraentes, habitadas por vozes e harmonias vibrantes. Uma atmosfera tipicamente west-coast, a estabelecer pontes entre as várias gerações do folk-rock psicadélico, desde os Byrds ou Peanut Butter Conspiracy até aos Three O’Clock, Rain Parade ou Wrens. Pelo caminho ainda se detectam incursões na Inglaterra dos Smiths ou Stone Roses.

De resto, no ADN dos Quarter After, seja por via dos membros permanentes ou das colaborações, encontramos ainda células dos Velvet Crush ( Ric Menk ), Wondermints, Lovetones, Son Volt, Matthew Sweet, Brian Jonestown Massacre
Um conjunto de credenciais impecáveis para um disco quase perfeito que começa por apelar através da forma e termina cativando pelo conteúdo.



Na abertura, um riff de baixo muito Peter Hookiano, rapidamente se transforma num tema que legenda toda a história do folk-rock psicadélico com referências explicitas ao paisley underground dos anos 80. “Sanctuary” é neste particular um cartão de visita incontornável. Roger McGuinn se um dia ouvir “She revolves”, vai certamente perguntar-se por que razão nunca se lembrou de escrever aquela canção.”See how good it feels” é profusamente atravessada por riffs de guitarra que nos remetam para a escola do pop americano doa anos 90, com os Silver Scooter ali mesmo à espreita.

“Early morning rider”, “Nothing out of something” e “Turning away” continuam a percorrer as vibrações matizadas pelo sol de Los Angeles até que, “Sempre avanti ( Johnny Marr is not dead)”, na génese um country-garage rock, à medida que caminha para o fim, se vai metamorfoseando num guitar-drone tão surpreendente como inesperado. “Changes near” termina ali. É altura de carregar na tecla do repeat e voltar à excitação do verão.

Para assistir a um concerto dos Quarter After, agora, no zénite do seu processo criativo, até nem me importava de beber cerveja com pó, num dos muitos chamados festivais de verão que por aí estão, ao virar de cada esquina.

03/07/08

Mudcrutch - "S/t"


Em Novembro de 1979, a propósito de “Damn the torpedoes”, Philippe Garnier cronista atento e um dos mais consistentes críticos franceses, escrevia na revista “Rock & Folk”: “ Claro, sou parcial. Los Angeles é a cidade onde vivo. Los Angeles é a cidade de Tom Petty. Aqui toda a gente ou quase, gosta dele. Os mexicanos gostam de Tom Petty. Os Surfers gostam de Tom Petty. Os negros estão-se nas tintas, mas seria o fim do mundo se gostassem. Os punks detestam, talvez com mais virulência que ao restante rock “mainstream”. Um sinal de qualidade…”

Sempre gostei de Tom Petty. A par de Neil Young, talvez a menos “mainstream” das rock stars “mainstream” americanas. Tal como o canadiano, Petty sempre demonstrou saber quais as suas fraquezas, gerindo-as com a mesma sabedoria com que procurou evidenciar as qualidades. Mas, acima de tudo, sempre fez o que lhe apeteceu.

Mudcrutch”, o disco que acaba de lançar com a banda homónima ( a primeira que liderou no inicio dos anos 70 em Jacksonville, na Florida ), está fora do âmbito definido para este espaço de divulgação. Mas, caramba, ninguém é perfeito e “Mudcrutch” faz por merecer a inclusão.

Temporariamente fora de cena, os Heartbreakers dão agora lugar aos referidos Mudcrutch ( afinal , três quintos nos Heartbreakers ). E, para além de alguns pormenores formais ( Petty deixou a guitarra e passou para o baixo ), as diferenças são quase imperceptíveis. “Mudcrutch” é subtil, vertiginoso, derivativo, enérgico. Como quase todos os registos de Petty.


Para abreviar: a versão de “Shady grove” deveria ser estudada em todas as escolas de música públicas e privadas, particularmente as intervenções das guitarras de Mike Campbell e do piano de Benmont Tench; “Scare easy” e “Bootleg flyer”, directas já para uma edição actualizada do “Greatest Hits”; “Oh Maria” poderia ser um “outtake” do pastoral “Southern Accents”; “Lover of the Bayou” tem aqui a versão mais abrasiva e demolidora que conheço do tema de Roger McGuinn.

“Crystal river”, na construção e na duração ( 9 m 30 s ) constitui um dos títulos menos ortodoxos do “songbook” de Petty. Algo me diz que alguém nos Mudcrutch esteve a ouvir “The end” dos Doors antes da sessão de gravação ter inicio. Talvez no carro, a caminho do estúdio …

O carro. A estrada. Locais e ambientes perfeitos para escutar Tom Petty.

01/07/08

Jardins do Paraíso II ( David Crosby )


Toda a gente tem um disco preferido, o chamado álbum da ilha deserta. O meu, desde sempre, chama-se “If I could only remember my name” e foi assinado por David Crosby.

Provavelmente um dos cinco discos menos consensuais da história do rock, o registo que Crosby fez publicar em Maio de 1971 permanece, 37 anos depois, no que à música e atitude diz respeito, como o paradigma dos ideais e da contracultura hippie da costa-oeste dos finais da década de 60, inicio de 70. Uma opinião, dirão alguns. Pois. Exactamente por nunca ter reunido o mínimo consenso, este disco é tão incontornável quanto apaixonante.

Quando Crosby decidiu começar a coleccionar “takes” tendo em vista o seu primeiro álbum a solo, corria o Outono de 1970. O sonho hippie desvanecera. Os acontecimentos em Altamont e Ohio tinham deixado marcas. A namorada tinha encontrado a morte num acidente de viação, meses antes. As habituais guerras de egos entre Neil Young e Steve Stills estavam ao rubro no CSN & Y. Crosby vivia no barco numa marina, mas estava longe de se encontrar em paz consigo mesmo. A auto-destruição, tão característica nas rock stars da época, rondava como uma sombra. O disco nunca poderia pois ter uma génese normal.



As noites do Outono e Inverno de 70 foram passadas num estúdio na Hyde Street em São Francisco. Consoante a agenda de gravações ou a disponibilidade, apareciam Graham Nash, Neil Young, Phil Lesh, Bill Kreutzann, David Freiberg, Mickey Hart, Paul Kantner, Michael Shrieve, Jerry Garcia, Jack Casady, Jorma Kaukonen, Grace Slick,, Greg Rollie, Joni Mitchell ... À data, Crosby teve em estúdio, ao seu dispor, uma banda de suporte verdadeiramente notável que mais ninguém conseguiu reunir, antes ou depois.

Claro que tais personagens trouxeram um “apport” musical e instrumental absolutamente excepcional, facto que adicionado à original e nada ortodoxa veia criativa de Crosby, contribuiu para a criação de um disco extraordinário e sem paralelo.

Misto de “jam-session” e colectânea de melodias perfeitas, “If I could only remember my name”, soa como se o engenheiro de som Stephan Barncard, noite após noite, colocasse as fitas de gravação a correr e fosse para casa, deixando aos músicos a responsabilidade de carregarem no botão do stop, lá pela madrugada.



“Music is love”, “Cowboy movie” ( com um Garcia absolutamente enorme, ao nível de “Dark Star”), “What are their names”, “Tamalpais High (At about 3)” são tudo menos composições de um singer-songwriter típico que Crosby nunca foi. Nasceram do acaso, ao sabor preguiçoso da improvisação.

“Orleans” é Crosby, voz e guitarra acústica, num tema inspirado numa canção infantil francesa. A curta letra gravita em volta do nome de um par de catedrais de França. “Song with no words (Tree with no leaves)” e “Traction in the rain” reflectem a harmonia cósmica vivida naquele estúdio e alimentam uma tese corrente que sustenta que as melhores prestações de Jerry Garcia e Phil Lesh tiveram lugar fora dos Grateful Dead.

“Laughing” , a canção mais perfeita que Crosby escreveu, é enriquecida por um inesquecível solo da “slide-guitar” de Garcia que quase faz chorar as pedras da calçada, depois do caminho aberto pelas celestiais harmonias vocais, cortesia de Joni Mitchell. A experiência mais radical, “I’d swear there was somebody here” foi gravada em 13 minutos. Apenas a voz de Crosby acappella e uma câmara de eco. O resultado é um canto gregoriano versão “west-coast acid rock”.

Um disco tão notável ontem como hoje. Irrepetível, sempre.