11/07/08

The Plants "Photosynthesis"



Imaginem um cenário onde se sobrepõem os drones electrónicos de Edgar Froese e Klaus Schulze - nos primeiros álbuns a solo livres dos Tangerine Dream e Ash Ra Tempel - , com um Will Oldham ainda juvenil nos Palace Brothers, mas no feminino.
Acrescentem umas pitadas de folk-pagão e as influências orientais que Davy Graham e a Incredible String Band introduziram na música tradicional popular na segunda metade da década de 60.

Genericamente, é assim que soa “Photosynthesis” dos The Plants.


Ao quarto registo, o duo de Portland ( Josh Blanchard e Molly Griffith Blanchard ) atingiu a maturidade que procurava. “Photosynthesis” é subtil, sensível e filigrânico. Ao mesmo tempo tão natural que soa melhor escutado ao ar livre, em contacto directo com os elementos da natureza, pastoral e bucólica.
Poderá não ser completamente inovador ( facto a que estamos tão habituados que quase já ninguém se espanta ), mas define um espaço de uma beleza intimista e sem tempo. Muito provavelmente, um futuro clássico da linguagem “psychedelic folk rock” moderna.

09/07/08

"Psychedelica, Volumes One & Two"


Em 2006 Scott Causer e Andy Oliver, os dois “old chaps” que lideram a Northern Star Records propuseram-se organizar e publicar “the greatest compilation ever made”. Passe obviamente o exagero e a imodéstia, que deverá ser encarada como estratégia de marketing e não propriamente como defeito, a verdade é que “Psychedelica, Volume One” constitui um sampler com uma qualidade acima da média.

O subtítulo “The third wave of psychedelia” assenta como uma luva, pois salvo duas ou três excepções é de facto uma nova geração de bandas psicadélicas que ali se pode escutar.
O sucesso artístico foi considerável ( do comercial não há notícia ) e cerca de 1 ano depois conduziu à publicação do “Volume Two” ( o terceiro está na forja ), edição onde apenas uma ínfima parte dos nomes se repete.
Através destes dois duplos CDs é todo um universo de novas interpretações da linguagem psicadélica que nos é proposto. Unidas apenas por um conceito bastante lato de psicadelismo, coexistem em “Volume One” e “Two” de “Psychedelica” formas artísticas tão amplas que os fãs de correntes como o “garage”, o “fuzz”, o pop, o “folk-rock”, o “drone”, o “power pop”, o “pós-rock”, o “pós-punk” e até da música electrónica; todos, encontrarão aqui algo que certamente lhes agradará.

Pela minha parte, entre bandas novas, confirmações notórias e alguns pesos pesados, retive os nomes de: Black Angels, Lovetones, Quarter After ( ver post abaixo ), Soft Hearted Scientists, Dolly Rocker Movement, Flowers of Hell, Electric Prunes, Silver Apples, Fuzztones, Spacegarden, Lazily Spun, Black Nite Crash, God is na Astronaut e The Future Kings of England ( o nome desta banda pode não vir a ser apenas uma mera premonição ) cujo álbum do verão de 2007 - “The Fate of Old Mother Orvis” -, é algo de muito recomendável e a merecer investigação cuidada. Tal como os dois duplos CDs de “Psychedelica” …


07/07/08

The Quarter After "Changes near"


Está encontrado o meu disco para este verão. Chama-se “Changes near” e tem a assinatura dos californianos The Quarter After.

O segundo registo dos irmãos Campanella ( Dominic, Robert e às vezes, Christina e Andy ) é um daqueles álbuns de canções luminosas, de texturas coloridas, melodias atraentes, habitadas por vozes e harmonias vibrantes. Uma atmosfera tipicamente west-coast, a estabelecer pontes entre as várias gerações do folk-rock psicadélico, desde os Byrds ou Peanut Butter Conspiracy até aos Three O’Clock, Rain Parade ou Wrens. Pelo caminho ainda se detectam incursões na Inglaterra dos Smiths ou Stone Roses.

De resto, no ADN dos Quarter After, seja por via dos membros permanentes ou das colaborações, encontramos ainda células dos Velvet Crush ( Ric Menk ), Wondermints, Lovetones, Son Volt, Matthew Sweet, Brian Jonestown Massacre
Um conjunto de credenciais impecáveis para um disco quase perfeito que começa por apelar através da forma e termina cativando pelo conteúdo.



Na abertura, um riff de baixo muito Peter Hookiano, rapidamente se transforma num tema que legenda toda a história do folk-rock psicadélico com referências explicitas ao paisley underground dos anos 80. “Sanctuary” é neste particular um cartão de visita incontornável. Roger McGuinn se um dia ouvir “She revolves”, vai certamente perguntar-se por que razão nunca se lembrou de escrever aquela canção.”See how good it feels” é profusamente atravessada por riffs de guitarra que nos remetam para a escola do pop americano doa anos 90, com os Silver Scooter ali mesmo à espreita.

“Early morning rider”, “Nothing out of something” e “Turning away” continuam a percorrer as vibrações matizadas pelo sol de Los Angeles até que, “Sempre avanti ( Johnny Marr is not dead)”, na génese um country-garage rock, à medida que caminha para o fim, se vai metamorfoseando num guitar-drone tão surpreendente como inesperado. “Changes near” termina ali. É altura de carregar na tecla do repeat e voltar à excitação do verão.

Para assistir a um concerto dos Quarter After, agora, no zénite do seu processo criativo, até nem me importava de beber cerveja com pó, num dos muitos chamados festivais de verão que por aí estão, ao virar de cada esquina.

03/07/08

Mudcrutch - "S/t"


Em Novembro de 1979, a propósito de “Damn the torpedoes”, Philippe Garnier cronista atento e um dos mais consistentes críticos franceses, escrevia na revista “Rock & Folk”: “ Claro, sou parcial. Los Angeles é a cidade onde vivo. Los Angeles é a cidade de Tom Petty. Aqui toda a gente ou quase, gosta dele. Os mexicanos gostam de Tom Petty. Os Surfers gostam de Tom Petty. Os negros estão-se nas tintas, mas seria o fim do mundo se gostassem. Os punks detestam, talvez com mais virulência que ao restante rock “mainstream”. Um sinal de qualidade…”

Sempre gostei de Tom Petty. A par de Neil Young, talvez a menos “mainstream” das rock stars “mainstream” americanas. Tal como o canadiano, Petty sempre demonstrou saber quais as suas fraquezas, gerindo-as com a mesma sabedoria com que procurou evidenciar as qualidades. Mas, acima de tudo, sempre fez o que lhe apeteceu.

Mudcrutch”, o disco que acaba de lançar com a banda homónima ( a primeira que liderou no inicio dos anos 70 em Jacksonville, na Florida ), está fora do âmbito definido para este espaço de divulgação. Mas, caramba, ninguém é perfeito e “Mudcrutch” faz por merecer a inclusão.

Temporariamente fora de cena, os Heartbreakers dão agora lugar aos referidos Mudcrutch ( afinal , três quintos nos Heartbreakers ). E, para além de alguns pormenores formais ( Petty deixou a guitarra e passou para o baixo ), as diferenças são quase imperceptíveis. “Mudcrutch” é subtil, vertiginoso, derivativo, enérgico. Como quase todos os registos de Petty.


Para abreviar: a versão de “Shady grove” deveria ser estudada em todas as escolas de música públicas e privadas, particularmente as intervenções das guitarras de Mike Campbell e do piano de Benmont Tench; “Scare easy” e “Bootleg flyer”, directas já para uma edição actualizada do “Greatest Hits”; “Oh Maria” poderia ser um “outtake” do pastoral “Southern Accents”; “Lover of the Bayou” tem aqui a versão mais abrasiva e demolidora que conheço do tema de Roger McGuinn.

“Crystal river”, na construção e na duração ( 9 m 30 s ) constitui um dos títulos menos ortodoxos do “songbook” de Petty. Algo me diz que alguém nos Mudcrutch esteve a ouvir “The end” dos Doors antes da sessão de gravação ter inicio. Talvez no carro, a caminho do estúdio …

O carro. A estrada. Locais e ambientes perfeitos para escutar Tom Petty.

01/07/08

Jardins do Paraíso II ( David Crosby )


Toda a gente tem um disco preferido, o chamado álbum da ilha deserta. O meu, desde sempre, chama-se “If I could only remember my name” e foi assinado por David Crosby.

Provavelmente um dos cinco discos menos consensuais da história do rock, o registo que Crosby fez publicar em Maio de 1971 permanece, 37 anos depois, no que à música e atitude diz respeito, como o paradigma dos ideais e da contracultura hippie da costa-oeste dos finais da década de 60, inicio de 70. Uma opinião, dirão alguns. Pois. Exactamente por nunca ter reunido o mínimo consenso, este disco é tão incontornável quanto apaixonante.

Quando Crosby decidiu começar a coleccionar “takes” tendo em vista o seu primeiro álbum a solo, corria o Outono de 1970. O sonho hippie desvanecera. Os acontecimentos em Altamont e Ohio tinham deixado marcas. A namorada tinha encontrado a morte num acidente de viação, meses antes. As habituais guerras de egos entre Neil Young e Steve Stills estavam ao rubro no CSN & Y. Crosby vivia no barco numa marina, mas estava longe de se encontrar em paz consigo mesmo. A auto-destruição, tão característica nas rock stars da época, rondava como uma sombra. O disco nunca poderia pois ter uma génese normal.



As noites do Outono e Inverno de 70 foram passadas num estúdio na Hyde Street em São Francisco. Consoante a agenda de gravações ou a disponibilidade, apareciam Graham Nash, Neil Young, Phil Lesh, Bill Kreutzann, David Freiberg, Mickey Hart, Paul Kantner, Michael Shrieve, Jerry Garcia, Jack Casady, Jorma Kaukonen, Grace Slick,, Greg Rollie, Joni Mitchell ... À data, Crosby teve em estúdio, ao seu dispor, uma banda de suporte verdadeiramente notável que mais ninguém conseguiu reunir, antes ou depois.

Claro que tais personagens trouxeram um “apport” musical e instrumental absolutamente excepcional, facto que adicionado à original e nada ortodoxa veia criativa de Crosby, contribuiu para a criação de um disco extraordinário e sem paralelo.

Misto de “jam-session” e colectânea de melodias perfeitas, “If I could only remember my name”, soa como se o engenheiro de som Stephan Barncard, noite após noite, colocasse as fitas de gravação a correr e fosse para casa, deixando aos músicos a responsabilidade de carregarem no botão do stop, lá pela madrugada.



“Music is love”, “Cowboy movie” ( com um Garcia absolutamente enorme, ao nível de “Dark Star”), “What are their names”, “Tamalpais High (At about 3)” são tudo menos composições de um singer-songwriter típico que Crosby nunca foi. Nasceram do acaso, ao sabor preguiçoso da improvisação.

“Orleans” é Crosby, voz e guitarra acústica, num tema inspirado numa canção infantil francesa. A curta letra gravita em volta do nome de um par de catedrais de França. “Song with no words (Tree with no leaves)” e “Traction in the rain” reflectem a harmonia cósmica vivida naquele estúdio e alimentam uma tese corrente que sustenta que as melhores prestações de Jerry Garcia e Phil Lesh tiveram lugar fora dos Grateful Dead.

“Laughing” , a canção mais perfeita que Crosby escreveu, é enriquecida por um inesquecível solo da “slide-guitar” de Garcia que quase faz chorar as pedras da calçada, depois do caminho aberto pelas celestiais harmonias vocais, cortesia de Joni Mitchell. A experiência mais radical, “I’d swear there was somebody here” foi gravada em 13 minutos. Apenas a voz de Crosby acappella e uma câmara de eco. O resultado é um canto gregoriano versão “west-coast acid rock”.

Um disco tão notável ontem como hoje. Irrepetível, sempre.


27/06/08

The Seventh Ring of Saturn - "S/t"


Há discos assim. Não serão nunca considerados indispensáveis, face aos padrões pessoais habitualmente utilizados para o medir, todavia possuem um toque especial, algo “cosy”, que faz com que se agarrem aos nossos ouvidos como lapas e quase nos obriguem a rever conceitos.

O registo homónimo dos The Seventh Ring of Saturn é um desses discos. A banda de Atlanta sabe tudo sobre o pop e o neo-psicadélico. Pratica-os com efeitos devastadores junto dos ouvintes.

Em “In time” e “Colonel Green” logo a abrir, estamos naquela zona de fronteira, espécie de terra de ninguém, onde se separam os territórios pop e as paisagens psicadélicas. Do lado de “In time” as melodias pop irresistíveis; do outro lado, o horizonte neo-psych tal qual os Petals o praticam.

“Yedikule” é uma versão cósmica de um tema do compositor grego Vangelis Papazoglu, enquanto “Sour milk sea” emergiu em 1968 das cordas da guitarra de George Harrison e parte agora em direcção a Saturno.

Os primeiros cinco minutos de “Alice Sunshine” poderão servir como nota de rodapé a qualquer enciclopédia que aborde o pop ou o power pop ( e os Grip Weeds assomam à memória ). A segunda metade do tema - em rigor deveria ser outra canção -, posiciona-se na cauda do cometa Sun Ra, muito provavelmente no interior dos anéis de Saturno.

A terminar, rumo parcialmente corrigido em “Pillsbury Palace”, um lugar especial, algures noutra galáxia, entre Saturno e a imaginação de Ted Selke, um jovem e promissor astronauta de Atlanta.

24/06/08

Jardins do Paraíso I ( Dennis Wilson )



Após longos anos de disputas legais para se saber quem detinha de facto os direitos de “Pacific Ocean Blue”, eis que finalmente este magnífico artefacto está novamente disponível, mais de 30 anos depois de ter sido publicado, em Setembro de 1977.

Para aqueles que como eu, lidam mal com o paradigma Beach Boys, esqueçam que Dennis Wilson foi alguma vez um Beach Boy, curiosamente e ao que consta, o único que praticava surf.
Pacific Ocean Blue” está para os Beach Boys como “Plastic Ono Band” de Lennon está para os Beatles, “If I could only remember my name” de David Crosby para Crosby, Stills, Nash & Young ou “No other” de Gene Clark para os Byrds. Nada a ver.

É verdade que coexistem na construção musical e em alguns arranjos pontos de contacto com a fórmula Beach Boys (o irmão Carl, ainda que não mencionado por razões contratuais, colabora no disco e existem suspeitas que Brian também passou pelo estúdio ), mas tudo o resto tem outra génese.

O mote fica dado com a abertura: “River Song”. Cinematográfica, lírica, enorme na forma e na substância. Pelo caminho “Farewell my friend”, “Moonshine” e “End of the show”, retratos do estado de alma de Dennis, em permanente luta com os seus fantasmas ( amigos que partem, a droga, a falta de reconhecimento artístico no seio e fora da banda, crises familiares ). Aqui e ali, um refúgio de tranquilidade (“Thoughts of you”, “Time” ) ou locais de escapatória possível (“México”, “Pacific Ocean Blue” o tema título ).



No fim, um registo esplendoroso e sem tempo, que nos convoca a reler Malcolm Lowry (“Debaixo de um vulcão” ), Kerouac (“Big Sur”) ou a rever o road movie “Two-Lane Blacktop” ( “Corrida sem fim” em português ), realizado por Monte Hellman em 1970 e protagonizado pelo próprio Dennis Wilson, James Taylor e por esse pequeno grande actor que se chamou Warren Oates. Um filme que ajuda a perceber melhor a alma atormentada e o espírito indomável de Dennis.

Para além da qualidade da canções, a reedição de “Pacific Ocean Blue” é francamente recomendável. Mais quatro temas até agora oficialmente inéditos, bem como a totalidade das sessões que produziram “Bambu”, o álbum que Dennis gravou posteriormente e que salvo alguns “bootlegs”, nunca foi legalmente editado. Recuperação áudio e trabalho gráfico extraordinários.

Um dos raros casos em que uma reedição acrescenta algo ao original.

22/06/08

The Green Pajamas "Box of Secrets"

Um dia vai ser necessário realizar um seminário para discutir o conjunto da obra dos Green Pajamas. Depois, vai ser preciso organizar uma bateria de conferências, para se perceber por que razão Jeff Kelly, apesar de já ter escrito, gravado e publicado ( com Green Pajamas, Goblin Market ou a solo ) mais de 300 canções, permanece um autor de culto restrito e objecto de divulgação quase nula.

Sigo a banda de Seattle desde meados dos anos 90 quando, com uma década de estrada, os Pajamas eram já uma instituição do folk-rock psicadélico, ainda que não devidamente reconhecida.

Durante aquele período negro em que Robert Forster e Grant McLennan estiveram de costas voltadas nos Go- Betweens, foi Jeff Kelly, naquele seu jeito inato para criar melodias e atmosferas pop, quem manteve a bandeira hasteada. Só que também aí, quase ninguém deu por isso.

Com um histórico de cerca de duas dezenas de discos onde a subtileza viveu sempre paredes meias com um talento peregrino que, partindo da herança Beatles, demandou paragens tão diversas como as habitadas por Leonard Cohen, Charles Dickens, Nick Cave, Bram Stoker, Rain Parade, Emile Brontë, Byrds ou Go Betweens.

Refiro aqui o álbum “Box of Secrets – Northern Gothic Season Two”, não por ser o melhor ou mais importante, mas apenas por ser o mais recente. Não sendo uma peça dotada da elegância de “Strung behind the Sun” ( 1997 ), talvez o disco em que os Green Pajamas melhor sintetizaram a estética que emergiu dos Beatles ( fase “Revolver” ) ou dos Byrds de “5th dimension”, com os delírios ficcionais dos Spirit de Randy California, “Box of Secrets” recenseia trilhos já anteriormente percorridos e acrescenta ao mapa novos atalhos, por onde passaram as caravanas dos Walkabouts, Triffids ou Olivia Tremor Control. De caminho ainda se dispõe a revisitar as sombras cohenianas ou as clareiras apalachianas dos Iron & Wine ou Woven Hand.

Como em quase todos os registos em que Jeff Kelly participa, “Box of secrets” é como um jogo de sombras que ora nos distrai, ora nos hipnotiza. A sedução essa fica para sempre.

14/06/08

MONO "The sky remains the same as ever"


Ao colectivo MONO tem sido insistentemente colada a etiqueta ”post-rock”. Talvez por que o quarteto japonês preenche os mínimos para integrar a fórmula ( sons em crescendo apocalíptico, versus momentos de silêncio ou desconcertante acalmia ).

Julgo que no caso a definição é redutora. Para além da previsibilidade, característica principal do grosso dos praticantes do género, a banda de Tokyo elabora uma música tão natural como o simples acto de respirar. Onde a surpresa é um elemento sempre presente, seja através da beleza onírica das melodias, da sustentação até ao limite do suportável das explosões sonoras, ou na sublime gestão dos silêncios.

O DVD “The sky remains the same as ever” publicado este ano, recolhe e compagina imagens de gravações de estúdio ( o produtor Steve Albini, explica na perfeição a dinâmica sonora do grupo ) e com maior detalhe incide sobre a tournée mundial de 2007, percorrendo os locais e respectivos públicos.

Não se trata apenas de um filme de concertos, mais uma derivação de um “road movie” onde o espectador é convidado a seguir os MONO num conjunto fragmentado de actuações, por vezes justapostas, onde o público assume o papel do actor principal. A música serve como banda sonora que alimenta e justifica o sentimento e pose litúrgicas que, como por hipnose, tomam conta das plateias.

Um fenómeno notável, tocante, nada comum em concertos de rock tradicionais. Mais um argumento a juntar à patente originalidade do quarteto e à perenidade de uma música a que alguns já ousaram chamar de clássica.

12/06/08

Nudity "The nightfeeders"

Klaus Dinger, membro fundador dos Kraftwerk, Neu e La Dusseldorf, morreu em Março último. “The nightfeeders” a estreia oficial dos Nudity foi publicada pouco depois. Objectivamente sem relação, os dois factos acabam por ter uma ligação: o estilo metronómico da bateria.
Dinger foi um multi-instrumetista visionário, ao qual deve ser creditada a invenção do chamado “motorik”, uma forma peculiar de trabalhar a percussão que passou a ser uma das imagens de marca do krautrock alemão, mais tarde presente na música feita por Hawkwind, Bowie, Brian Eno ou Joy Division.

Oriundos de Washington os Nudity, utilizam a arquitectura rítmica criada pelo alemão como uma espécie de cabouco em cima do qual assentam os delírios sonoros do órgão, baixo e, sobretudo, da guitarra.
The nightfeeders” é, percebe-se logo na primeira audição, um disco enorme. Instintivamente, um daqueles registos destinado aos incondicionais da música psicadélica.

Principia no terreno que foi dos Malachi ( “Holy Music” é um paradigma incontornável ): sitars, flautas, drones, mantras. Desloca-se a seguir para a Bay-area de São Francisco 1968. Mais adiante, sem que nada o fizesse prever, avança para um beat frenético, por sobre o qual tonitrua um baixo desinquieto. Pairando sobre estes dois elementos, abre-se espaço para a guitarra de Dave Harvey, num prolongado e hipnótico solo-fuzz. Os Blue Cheer também passaram por ali.

Lado 2. “The nightfeeders (concentrick mix)” na prática um tema completamente diferente. Meditação, silêncio, improvisação. A guitarra acústica guia-nos para paisagens mais coloridas, lugares outrora habitados por New Age/Pat Kilroy ou Euphoria. Fim do interlúdio. O frenesi cósmico dirige-se de novo para o olho da tempestade “motorik”. A guitarra abandona os jardins do paraíso para regressar à electricidade suja do fuzz, em solo interminável, até que se esgotam as espiras do vinil. Porque tudo tem de ter um fim…

Para a primeira edição de “The nightfeeders” foram prensadas apenas 800 cópias ( 200 em vinil cor púrpura, 600 em negro ). A capa, pintada semi-manualmente é um verdadeiro “labour of love”. Também por esta via, este disco está condenado a ser um clássico.

10/06/08

"John Barleycorn reborn, dark Britannica"

A lenda associada à figura da mitologia britânica John Barleycorn, reza que num certo dia três meliantes decidiram que o pobre John devia morrer. Vai daí enfiaram o homem dentro de um barril e enterraram-no vivo. Na primavera seguinte, John emergiu, vivo, ostentando uma garbosa barba. Os três relapsos voltaram à carga; amarraram Barleycorn a um poste e torturaram-no, na esperança que morresse. Mas John foi mais forte e em lugar de morrer, o seu corpo transformou-se em grãos de cevada, os quais deram origem a cerveja. Ainda de acordo com a mitologia, Barleycorn nunca foi derrotado, passando ele a humilhar, através da bebida, todos os que o desafiavam.

Uma das cantigas tradicionais mais antigas das ilhas britânicas, consta que “John Barleycorn” terá sido escrita por autor desconhecido em 1588; adaptada por Robbie Burns em 1782 e desde então recuperada como cantiga de celebrações pagãs, sempre que se viviam as épocas relativas às colheitas dos cereais.

Mais recentemente desde que no final dos anos 60 do século XX a Inglaterra conheceu o renascimento da música tradicional, “John Barleycorn” tem sido seguramente uma das canções populares mais interpretadas pelos artistas do folk e do folk-rock. A adaptação mais conhecida será a dos Traffic no álbum “John Barleycorn must die”. Mas existem muitas outras (Steeleye Span, Bert Jansche, Martin Carthy, John Renbourn, Green Crown, Tickawinda, Pentangle ) a justificar a visita.

Em finais de 2007, Mark Coyle um entusiasta que anima a editora folk Woven Wheat Whispers, teve a ideia de pedir a um conjunto de “artistas maioritariamente desconhecidos e que fazem música folk não convencional” para se debruçarem sobre a lenda. O resultado chama-se “John Barleycorn reborn: dark britannica”, explora o mito e a respectiva personagem em 66 canções, repartidas por três capítulos: nascimento, morte e renascimento.

Dividido em duas partes ( um duplo CD com 33 temas e um segundo volume disponibilizado via download ) “John Barleycorn reborn” é uma das edições mais apaixonantes que a música inglesa de inspiração folk conheceu nos últimos anos.
Como se viu, o critério foi descobrir e promover músicos que se movimentam na música tradicional, criando em simultâneo novas formas, proporcionando que o choque/tensão entre o experimentalismo e as linguagens mais conservadoras ou tradicionais, crie uma outra forma de expressão. Se a isto se chamar “dark britannica” ou outra coisa qualquer, parece-me irrelevante.

Artistas como Story, Mary Jane, Sharron Kraus, Charlotte Greig, Alphane Moon, Straw Bear Band, Owl Service, Kitchen Cynics ou Martyn Bates, são nomes habituais nas diversas cenas alternativas. Outros serão porventura ainda mais obscuros. Todavia, todos contribuem para um espantoso conjunto de sonoridades que celebra uma mitologia de inspiração pagã, a qual tanto pode ser servida por uma melodia tradicional/medieval como por linguagem electrónica de matriz esotérica.

Deste confronto de sonoridades, resulta um belíssimo edifício com uma arquitectura própria a partir da qual, doravante, passarão a ser medidas todas as futuras construções em torno do folk tradicional inglês.

04/06/08

Wooden Shjips "Wooden Shjips"



Confesso que inicialmente tive dúvidas acerca da banda californiana Wooden Shjips. Demasiado ruído em torno de um colectivo com apenas dois singles no activo. Nos tempos que correm nunca é um bom presságio.

Regra geral, as “next big things” não são compatíveis com este tipo de folclore. Depois, a insistência em narcotizar o som desta banda ( ou de outra qualquer ), também não representa um bom cartão de visita. Por norma constitui um tipo de promoção fácil e oportunista.

Não conhecia portanto em detalhe os Wooden Shjips. Até à publicação do álbum homónimo. Aí, fiquei convencido.

Estruturalmente o quarteto de São Francisco é adepto do quanto mais simples e económico, melhor. Ouvidos os temas do álbum, mais os singles que produziu até ali ( a edição original do CD era acompanhado por um slipcase com seis títulos publicados em single, entre eles os lados A e B de “Dance California” e “Shrinking Moon for you” ), só se pode chegar a essa conclusão.

De resto, o que se esperava – tendo por base o que entretanto se leu -, não é de todo o que se ouve. Aguardava-se um festival de pirotecnia do estilo “ I love the smell of napalm in the morning “ e recebe-se um disco de emoções vibrantes mas contidas, alicerçado em meia dúzia de acordes.

Wooden Shjips” poderá ser uma das definições da música psicadélica americana deste tempo. Sonoridade tipicamente californiana, aguarelas electrónicas herdadas dos Suicide, o magnetismo dos Doors, os riffs de “White light, white heat”, as incursões galácticas dos Spacemen 3, um certo mimetismo Stooges à la “I wanna be your dog” e, por fim, uma paixão indisfarçável pelas bandas japonesas do psych-rock dos anos noventa.

Dito isto, e apesar disto, os Wooden Shjips são um dos grupos mais originais em actividade. Combinam o que de melhor a electrónica pode oferecer com a emotividade que só os músicos e os instrumentos tradicionais (guitarra, baixo, bateria, órgão ) conseguem transmitir.

A única fragilidade que detecto em “Wooden Shjips” é a curta duração, cerca de 33 minutos. Uma “falha” que pode ser facilmente colmatada com a audição de “Volume 1”, uma edição recente que recupera os temas publicados em single, incluindo “Summer of Love” que não tinha sido contemplado na anterior edição limitada.