27/06/08

The Seventh Ring of Saturn - "S/t"


Há discos assim. Não serão nunca considerados indispensáveis, face aos padrões pessoais habitualmente utilizados para o medir, todavia possuem um toque especial, algo “cosy”, que faz com que se agarrem aos nossos ouvidos como lapas e quase nos obriguem a rever conceitos.

O registo homónimo dos The Seventh Ring of Saturn é um desses discos. A banda de Atlanta sabe tudo sobre o pop e o neo-psicadélico. Pratica-os com efeitos devastadores junto dos ouvintes.

Em “In time” e “Colonel Green” logo a abrir, estamos naquela zona de fronteira, espécie de terra de ninguém, onde se separam os territórios pop e as paisagens psicadélicas. Do lado de “In time” as melodias pop irresistíveis; do outro lado, o horizonte neo-psych tal qual os Petals o praticam.

“Yedikule” é uma versão cósmica de um tema do compositor grego Vangelis Papazoglu, enquanto “Sour milk sea” emergiu em 1968 das cordas da guitarra de George Harrison e parte agora em direcção a Saturno.

Os primeiros cinco minutos de “Alice Sunshine” poderão servir como nota de rodapé a qualquer enciclopédia que aborde o pop ou o power pop ( e os Grip Weeds assomam à memória ). A segunda metade do tema - em rigor deveria ser outra canção -, posiciona-se na cauda do cometa Sun Ra, muito provavelmente no interior dos anéis de Saturno.

A terminar, rumo parcialmente corrigido em “Pillsbury Palace”, um lugar especial, algures noutra galáxia, entre Saturno e a imaginação de Ted Selke, um jovem e promissor astronauta de Atlanta.

24/06/08

Jardins do Paraíso I ( Dennis Wilson )



Após longos anos de disputas legais para se saber quem detinha de facto os direitos de “Pacific Ocean Blue”, eis que finalmente este magnífico artefacto está novamente disponível, mais de 30 anos depois de ter sido publicado, em Setembro de 1977.

Para aqueles que como eu, lidam mal com o paradigma Beach Boys, esqueçam que Dennis Wilson foi alguma vez um Beach Boy, curiosamente e ao que consta, o único que praticava surf.
Pacific Ocean Blue” está para os Beach Boys como “Plastic Ono Band” de Lennon está para os Beatles, “If I could only remember my name” de David Crosby para Crosby, Stills, Nash & Young ou “No other” de Gene Clark para os Byrds. Nada a ver.

É verdade que coexistem na construção musical e em alguns arranjos pontos de contacto com a fórmula Beach Boys (o irmão Carl, ainda que não mencionado por razões contratuais, colabora no disco e existem suspeitas que Brian também passou pelo estúdio ), mas tudo o resto tem outra génese.

O mote fica dado com a abertura: “River Song”. Cinematográfica, lírica, enorme na forma e na substância. Pelo caminho “Farewell my friend”, “Moonshine” e “End of the show”, retratos do estado de alma de Dennis, em permanente luta com os seus fantasmas ( amigos que partem, a droga, a falta de reconhecimento artístico no seio e fora da banda, crises familiares ). Aqui e ali, um refúgio de tranquilidade (“Thoughts of you”, “Time” ) ou locais de escapatória possível (“México”, “Pacific Ocean Blue” o tema título ).



No fim, um registo esplendoroso e sem tempo, que nos convoca a reler Malcolm Lowry (“Debaixo de um vulcão” ), Kerouac (“Big Sur”) ou a rever o road movie “Two-Lane Blacktop” ( “Corrida sem fim” em português ), realizado por Monte Hellman em 1970 e protagonizado pelo próprio Dennis Wilson, James Taylor e por esse pequeno grande actor que se chamou Warren Oates. Um filme que ajuda a perceber melhor a alma atormentada e o espírito indomável de Dennis.

Para além da qualidade da canções, a reedição de “Pacific Ocean Blue” é francamente recomendável. Mais quatro temas até agora oficialmente inéditos, bem como a totalidade das sessões que produziram “Bambu”, o álbum que Dennis gravou posteriormente e que salvo alguns “bootlegs”, nunca foi legalmente editado. Recuperação áudio e trabalho gráfico extraordinários.

Um dos raros casos em que uma reedição acrescenta algo ao original.

22/06/08

The Green Pajamas "Box of Secrets"

Um dia vai ser necessário realizar um seminário para discutir o conjunto da obra dos Green Pajamas. Depois, vai ser preciso organizar uma bateria de conferências, para se perceber por que razão Jeff Kelly, apesar de já ter escrito, gravado e publicado ( com Green Pajamas, Goblin Market ou a solo ) mais de 300 canções, permanece um autor de culto restrito e objecto de divulgação quase nula.

Sigo a banda de Seattle desde meados dos anos 90 quando, com uma década de estrada, os Pajamas eram já uma instituição do folk-rock psicadélico, ainda que não devidamente reconhecida.

Durante aquele período negro em que Robert Forster e Grant McLennan estiveram de costas voltadas nos Go- Betweens, foi Jeff Kelly, naquele seu jeito inato para criar melodias e atmosferas pop, quem manteve a bandeira hasteada. Só que também aí, quase ninguém deu por isso.

Com um histórico de cerca de duas dezenas de discos onde a subtileza viveu sempre paredes meias com um talento peregrino que, partindo da herança Beatles, demandou paragens tão diversas como as habitadas por Leonard Cohen, Charles Dickens, Nick Cave, Bram Stoker, Rain Parade, Emile Brontë, Byrds ou Go Betweens.

Refiro aqui o álbum “Box of Secrets – Northern Gothic Season Two”, não por ser o melhor ou mais importante, mas apenas por ser o mais recente. Não sendo uma peça dotada da elegância de “Strung behind the Sun” ( 1997 ), talvez o disco em que os Green Pajamas melhor sintetizaram a estética que emergiu dos Beatles ( fase “Revolver” ) ou dos Byrds de “5th dimension”, com os delírios ficcionais dos Spirit de Randy California, “Box of Secrets” recenseia trilhos já anteriormente percorridos e acrescenta ao mapa novos atalhos, por onde passaram as caravanas dos Walkabouts, Triffids ou Olivia Tremor Control. De caminho ainda se dispõe a revisitar as sombras cohenianas ou as clareiras apalachianas dos Iron & Wine ou Woven Hand.

Como em quase todos os registos em que Jeff Kelly participa, “Box of secrets” é como um jogo de sombras que ora nos distrai, ora nos hipnotiza. A sedução essa fica para sempre.

14/06/08

MONO "The sky remains the same as ever"


Ao colectivo MONO tem sido insistentemente colada a etiqueta ”post-rock”. Talvez por que o quarteto japonês preenche os mínimos para integrar a fórmula ( sons em crescendo apocalíptico, versus momentos de silêncio ou desconcertante acalmia ).

Julgo que no caso a definição é redutora. Para além da previsibilidade, característica principal do grosso dos praticantes do género, a banda de Tokyo elabora uma música tão natural como o simples acto de respirar. Onde a surpresa é um elemento sempre presente, seja através da beleza onírica das melodias, da sustentação até ao limite do suportável das explosões sonoras, ou na sublime gestão dos silêncios.

O DVD “The sky remains the same as ever” publicado este ano, recolhe e compagina imagens de gravações de estúdio ( o produtor Steve Albini, explica na perfeição a dinâmica sonora do grupo ) e com maior detalhe incide sobre a tournée mundial de 2007, percorrendo os locais e respectivos públicos.

Não se trata apenas de um filme de concertos, mais uma derivação de um “road movie” onde o espectador é convidado a seguir os MONO num conjunto fragmentado de actuações, por vezes justapostas, onde o público assume o papel do actor principal. A música serve como banda sonora que alimenta e justifica o sentimento e pose litúrgicas que, como por hipnose, tomam conta das plateias.

Um fenómeno notável, tocante, nada comum em concertos de rock tradicionais. Mais um argumento a juntar à patente originalidade do quarteto e à perenidade de uma música a que alguns já ousaram chamar de clássica.

12/06/08

Nudity "The nightfeeders"

Klaus Dinger, membro fundador dos Kraftwerk, Neu e La Dusseldorf, morreu em Março último. “The nightfeeders” a estreia oficial dos Nudity foi publicada pouco depois. Objectivamente sem relação, os dois factos acabam por ter uma ligação: o estilo metronómico da bateria.
Dinger foi um multi-instrumetista visionário, ao qual deve ser creditada a invenção do chamado “motorik”, uma forma peculiar de trabalhar a percussão que passou a ser uma das imagens de marca do krautrock alemão, mais tarde presente na música feita por Hawkwind, Bowie, Brian Eno ou Joy Division.

Oriundos de Washington os Nudity, utilizam a arquitectura rítmica criada pelo alemão como uma espécie de cabouco em cima do qual assentam os delírios sonoros do órgão, baixo e, sobretudo, da guitarra.
The nightfeeders” é, percebe-se logo na primeira audição, um disco enorme. Instintivamente, um daqueles registos destinado aos incondicionais da música psicadélica.

Principia no terreno que foi dos Malachi ( “Holy Music” é um paradigma incontornável ): sitars, flautas, drones, mantras. Desloca-se a seguir para a Bay-area de São Francisco 1968. Mais adiante, sem que nada o fizesse prever, avança para um beat frenético, por sobre o qual tonitrua um baixo desinquieto. Pairando sobre estes dois elementos, abre-se espaço para a guitarra de Dave Harvey, num prolongado e hipnótico solo-fuzz. Os Blue Cheer também passaram por ali.

Lado 2. “The nightfeeders (concentrick mix)” na prática um tema completamente diferente. Meditação, silêncio, improvisação. A guitarra acústica guia-nos para paisagens mais coloridas, lugares outrora habitados por New Age/Pat Kilroy ou Euphoria. Fim do interlúdio. O frenesi cósmico dirige-se de novo para o olho da tempestade “motorik”. A guitarra abandona os jardins do paraíso para regressar à electricidade suja do fuzz, em solo interminável, até que se esgotam as espiras do vinil. Porque tudo tem de ter um fim…

Para a primeira edição de “The nightfeeders” foram prensadas apenas 800 cópias ( 200 em vinil cor púrpura, 600 em negro ). A capa, pintada semi-manualmente é um verdadeiro “labour of love”. Também por esta via, este disco está condenado a ser um clássico.

10/06/08

"John Barleycorn reborn, dark Britannica"

A lenda associada à figura da mitologia britânica John Barleycorn, reza que num certo dia três meliantes decidiram que o pobre John devia morrer. Vai daí enfiaram o homem dentro de um barril e enterraram-no vivo. Na primavera seguinte, John emergiu, vivo, ostentando uma garbosa barba. Os três relapsos voltaram à carga; amarraram Barleycorn a um poste e torturaram-no, na esperança que morresse. Mas John foi mais forte e em lugar de morrer, o seu corpo transformou-se em grãos de cevada, os quais deram origem a cerveja. Ainda de acordo com a mitologia, Barleycorn nunca foi derrotado, passando ele a humilhar, através da bebida, todos os que o desafiavam.

Uma das cantigas tradicionais mais antigas das ilhas britânicas, consta que “John Barleycorn” terá sido escrita por autor desconhecido em 1588; adaptada por Robbie Burns em 1782 e desde então recuperada como cantiga de celebrações pagãs, sempre que se viviam as épocas relativas às colheitas dos cereais.

Mais recentemente desde que no final dos anos 60 do século XX a Inglaterra conheceu o renascimento da música tradicional, “John Barleycorn” tem sido seguramente uma das canções populares mais interpretadas pelos artistas do folk e do folk-rock. A adaptação mais conhecida será a dos Traffic no álbum “John Barleycorn must die”. Mas existem muitas outras (Steeleye Span, Bert Jansche, Martin Carthy, John Renbourn, Green Crown, Tickawinda, Pentangle ) a justificar a visita.

Em finais de 2007, Mark Coyle um entusiasta que anima a editora folk Woven Wheat Whispers, teve a ideia de pedir a um conjunto de “artistas maioritariamente desconhecidos e que fazem música folk não convencional” para se debruçarem sobre a lenda. O resultado chama-se “John Barleycorn reborn: dark britannica”, explora o mito e a respectiva personagem em 66 canções, repartidas por três capítulos: nascimento, morte e renascimento.

Dividido em duas partes ( um duplo CD com 33 temas e um segundo volume disponibilizado via download ) “John Barleycorn reborn” é uma das edições mais apaixonantes que a música inglesa de inspiração folk conheceu nos últimos anos.
Como se viu, o critério foi descobrir e promover músicos que se movimentam na música tradicional, criando em simultâneo novas formas, proporcionando que o choque/tensão entre o experimentalismo e as linguagens mais conservadoras ou tradicionais, crie uma outra forma de expressão. Se a isto se chamar “dark britannica” ou outra coisa qualquer, parece-me irrelevante.

Artistas como Story, Mary Jane, Sharron Kraus, Charlotte Greig, Alphane Moon, Straw Bear Band, Owl Service, Kitchen Cynics ou Martyn Bates, são nomes habituais nas diversas cenas alternativas. Outros serão porventura ainda mais obscuros. Todavia, todos contribuem para um espantoso conjunto de sonoridades que celebra uma mitologia de inspiração pagã, a qual tanto pode ser servida por uma melodia tradicional/medieval como por linguagem electrónica de matriz esotérica.

Deste confronto de sonoridades, resulta um belíssimo edifício com uma arquitectura própria a partir da qual, doravante, passarão a ser medidas todas as futuras construções em torno do folk tradicional inglês.

04/06/08

Wooden Shjips "Wooden Shjips"



Confesso que inicialmente tive dúvidas acerca da banda californiana Wooden Shjips. Demasiado ruído em torno de um colectivo com apenas dois singles no activo. Nos tempos que correm nunca é um bom presságio.

Regra geral, as “next big things” não são compatíveis com este tipo de folclore. Depois, a insistência em narcotizar o som desta banda ( ou de outra qualquer ), também não representa um bom cartão de visita. Por norma constitui um tipo de promoção fácil e oportunista.

Não conhecia portanto em detalhe os Wooden Shjips. Até à publicação do álbum homónimo. Aí, fiquei convencido.

Estruturalmente o quarteto de São Francisco é adepto do quanto mais simples e económico, melhor. Ouvidos os temas do álbum, mais os singles que produziu até ali ( a edição original do CD era acompanhado por um slipcase com seis títulos publicados em single, entre eles os lados A e B de “Dance California” e “Shrinking Moon for you” ), só se pode chegar a essa conclusão.

De resto, o que se esperava – tendo por base o que entretanto se leu -, não é de todo o que se ouve. Aguardava-se um festival de pirotecnia do estilo “ I love the smell of napalm in the morning “ e recebe-se um disco de emoções vibrantes mas contidas, alicerçado em meia dúzia de acordes.

Wooden Shjips” poderá ser uma das definições da música psicadélica americana deste tempo. Sonoridade tipicamente californiana, aguarelas electrónicas herdadas dos Suicide, o magnetismo dos Doors, os riffs de “White light, white heat”, as incursões galácticas dos Spacemen 3, um certo mimetismo Stooges à la “I wanna be your dog” e, por fim, uma paixão indisfarçável pelas bandas japonesas do psych-rock dos anos noventa.

Dito isto, e apesar disto, os Wooden Shjips são um dos grupos mais originais em actividade. Combinam o que de melhor a electrónica pode oferecer com a emotividade que só os músicos e os instrumentos tradicionais (guitarra, baixo, bateria, órgão ) conseguem transmitir.

A única fragilidade que detecto em “Wooden Shjips” é a curta duração, cerca de 33 minutos. Uma “falha” que pode ser facilmente colmatada com a audição de “Volume 1”, uma edição recente que recupera os temas publicados em single, incluindo “Summer of Love” que não tinha sido contemplado na anterior edição limitada.

01/06/08

Grails "Take refuge in clean living"


Uma das edições que mais gosto na série “Latitudes”, publicada pela Southern Records, chama-se “Interpretations of three psychedelic rock songs around the world”, e tem a autoria dos Grails.

Para os que não tiveram oportunidade de o ouvir, as canções são: “Satori”, “Space Odyssey” e “Master Builder”, originais respectivamente da Flower Travellin’ Band, Byrds e Gong.

Trabalhar em cima de temas publicados é sempre problemático, mais ainda quando se tratam de canções sobre as quais já foi tudo ou quase tudo dito. Também por isso a iniciativa dos Grails merece ser sublinhada. A abordagem é particularíssima e mostra novos ângulos de visão sobre três temas sacrossantos e que se julgavam capítulos encerrados.

Imaginação! Imaginação sem fronteiras é o lema desta banda de Portland no Oregon. Partindo do pós-rock, há muito que os Grails abandonaram o espartilho do género e a par dos japoneses MONO são hoje uma das grandes referências da música moderna instrumental.

Take refuge in clean living” é mais um passo em frente, depois de “Burning of impurities” já ter surpreendido relativamente aos anteriores. Reflecte uma evolução notável que as peças “Stoned at the Taj again” ( o título até pode servir de legenda para a música ), “Take refuge” e “Clean living”, três dos cinco temas do álbum, permitem identificar.

A paixão stoner e groove está lá, por detrás dos ritmos, ragas, ou do drone. Serve de alicerce e sustenta o resto. E o “resto” são as influências orientais que tanto podem ter origem na India, no Japão ou no Médio Oriente.

Take refuge in clean living” é seguramente o disco mais consistente do quarteto. E o mais ousado, porventura. Agradará aos fãs dos subgéneros atrás referidos, mas agradará, estou convicto, aos seguidores de Morricone, aos quais sugiro a audição de “11th Hour” uma versão muito particular de um tema popularizado nos anos sessenta pelos Ventures.

31/05/08

Young Marble Giants




“Well done Cardiffians”

Muitos anos depois de ter sido gravado “Colossal Youth” teve finalmente a sua estreia em palcos nacionais.

Allison Statton, Stuart e Phil Moxham estão naturalmente mais velhos, mas o tempo não passou pelas canções. Ostentam a mesma qualidade austera, elegantes na sua simplicidade.

Ontem, de forma notável, renasceram no palco da Casa da Música, minimalistas, tal como foram criadas há 28 anos, enxutas e sem vestígios de gordura.

Para aqueles que como eu, há muito não as ouviam, foi um momento mágico ( sem qualquer ponta de nostalgia associada ). Para aqueles outros que as ouviram pela primeira vez, deverá ter sido um momento de verdade. Perceber finalmente quem influenciou quem…

Concerto histórico e inesquecível.

29/05/08

Left Outsides "And colours in between"



Depois de terem publicado em 2005 um álbum folk-rock num registo Fairport Convention segunda geração ( período 1975 ), os Eighteenth Day of May, grupo interessante embora não particularmente memorável, implodiram. Do caos resultante nasceram duas bandas: The Left Outsides e The See See.

Os últimos, reunidos em redor de Richard Olson, seguem o trilho da anterior banda movimentando-se nas margens do mainstream. A novidade é constituída por umas pitadas de Byrds que enriquecem o conjunto ( é pelo menos o que se pode deduzir a partir do single “Up the hill” ).

Alison Cotton e Mark Nicholas, os Left Outsides, optaram por mergulhar na tradição do folk inglês e do psicadelismo americano para dali emergirem com um conjunto de canções que revisitam os universos dos Forest, Trees ou Red Chair Fadeaway, mas que também se deixam magnetizar pelas sonoridades dos Mazzy Star e respectivos antepassados directos: Opal e Clay Allison.

Depois de um par de EPs de arranque, o álbum “And colours in between” conheceu uma primeira edição privada na primavera de 2007 ( foi recentemente reeditado e objecto de maior distribuição). Desde então o rumor não tem parado de crescer.

Percorrido por paisagens pastorais, onde a viola de Alison Cotton acrescenta nostalgia ( a peça de folk de câmara “The other side” é nessa matéria particularmente expressiva ), “And the colours in between” estabelece a ponte entre Oxford e São Francisco, ligando a conhecida tradição folk da primeira aos sons hipnóticos do psicadelismo e do folk-rock californiano. “Now it’s over” versão de uma canção dos obscuros Living Children, é um dos exemplos.

Pintado por cores simples e povoado de imagens honestas, “And colours in between” é claramente um ponto de partida. Existe matéria prima para que a viagem e o local de chegada se tornem inesquecíveis. A ver vamos quando lá chegarmos.

26/05/08

Lunar Dunes "From above"


Oriundo de Londres, o colectivo Lunar Dunes cujo cd de estreia “From above” principia a ser referido nos corredores do underground, é formalmente influenciado pela escola krautrock , pelo psicadelismo californiano e, em apreciável grau, pelo folk.

Completamente instrumentais, as sonoridades emergentes dos Lunar Dunes remetem-nos directamente para Dusseldorf período 1972, Los Angeles 1970, Dublin ou Oxford 1968.

Só aparentemente díspares, os vários universos interligam-se na abordagem que o trio faz ao space-rock, ao folk britânico ou ao psicadelismo com aguarelas de jazz tal como o pintaram os Spirit em “Clear” ou “The family that plays together”.

From above” arranca algo inócuo, mas desperta em “Herzegovina”, uma adaptação formato kraut para “Le petit chevalier” a melodia pueril que Nico compôs em “Desertshore”. “The todal gleeps” patenteia a influencia Can/Amon Duul. “When I was on horseback” ( uma melodia popular recuperada em 1972 pelos Steeleye Span em “Ten man mop” ) coberta de vestes espaciais surge quase irreconhecível , enquanto “Scissorbel” usa o xilofone em registo drone enquanto a guitarra de Adam Blake serpenteia por entre o espaço que resta.

O verdadeiro momento é porém a adaptação do tradicional do Ulster “My Lagan Love” São conhecidas as várias adaptações do tema (Richard & Mimi Farina, Van Morrison, Kate Bush, Sinead O’Connor ) a mais inesquecível será talvez “Quiet joys of brotherhood” a versão acapella que Sandy Denny imortalizou a partir do poema de Richard Farina.
From above” tem em “My Lagan love” a sua pièce de résistance. Adam Blake soube reescrever o tema, manipulando com engenho o crescendo da guitarra até atingir a incandescência perto do final.

No conjunto, um registo muito interessante quer nas referências que fixa ( o cantor Damo Suzuki juntou-se à banda para um par de concertos ) quer no desiderato obtido. E, além do mais, o número de vezes que a guitarra de Blake me recordou Randy California, cria expectativas adicionais.

Destaque último para o design da capa, mais uma criação de Iker Spozio, artista, ilustrador e designer do origem italiana, um talento emergente e cujo percurso futuro merecerá ser acompanhado.

23/05/08

Penny-Ante


Numa linha editorial próxima da que se conhece a revistas como Badaboom Gramophone ou Yeti, embora com maior atenção ao detalhe gráfico, Penny Ante é um dos mais recentes e silenciosos projectos da comunidade artística da Califórnia.

Dedicada à arte ( visual, musical, literária, cinematográfica … ) a Penny Ante nasceu em Los Angeles, é publicada uma vez por ano e assume-se como uma revista independente e sem publicidade paga.

Sem restrições editoriais, os convidados a participar em cada número abordam a expressão artística ( a sua ou a de terceiros ) da forma que entendem e com total liberdade. O ecletismo é total e a revista é naturalmente uma riquíssima montra da cena indie, actual e passada. Há de tudo e para todas as artes.

Na Penny Ante # 1 cabem prestações de ou sobre: Slumber Party, Germs, Josephine Foster, My Morning Jacket, Marissa Nadler, Residual Echoes ( cujo álbum “California” publicado em 2007 na Holly Mountain, deverá ser objecto de culto e peregrinação obrigatória ) e American Analog Set entre outros.

No volume #2 destaque para Moon Upstairs ( lá iremos a seu tempo ), Phil McMullen ( como é habitual num emotivo e instrutivo ensaio, desta vez sobre a banda galesa Man ), Bill Callahan, Clientele, Rebecca Hoffman, Sharron Kraus, Silver Apples …

No conjunto, cerca de 600 páginas – 300 por cada volume -, de muita informação e puro entretenimento.