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03/03/15

Jardins do Paraíso ( XXXXI )


Patrick Lundborg partiu há uns meses, não muitos. A ausência dos textos lúcidos e pioneiros que partilhava com todos aqueles que têm pela música um carinho especial, é já porém tremendamente sentida.

Cheguei a "Children of the Mist" ( Vala Records, USA, 1977 ) através dele.

Desde que descobri os Yellow Autumn ( apenas um exemplo, porque há muitos mais ) que me questiono como pode alguém minimamente informado gastar o seu tempo com Devendra Banhart ou Joanna Newsom.

Em jeito de agradecimento, deixo o que Patrick Lundborg escreveu acerca de "Children of the Mist":

"Despite it's late 70s LA origins, this one is the best and most highly rated álbuns in the Olde England pagan folk style. The band appears in full Renaissance Fair gear on the front cover, but manage to inject some realness and personality into their music, which uses male-female vocals, acoustic guitar, flute, violin - all the right ingredientes for genre fans. In the addiction to the UK folk elements there's a raga influence on some tracks, including a long, spellbidding meditaion on suicide that alone makes the LP.  While not exactly a masterpiece I find "Children of the Mist" superior to Gwydion, Jed, Jim Alan and the other Wizard Folk costume performers. Yellow Autumn leader Gary Creighton passed away from a heart condition only a few years after making this. The band were close friends with Joseph Pursey."

in "The Acid Archives, The Second Edition" ( 2010 )

14/12/14

Jardins do Paraíso ( XL )



Seguramente uma das reedições do ano “The House at Windy Corner”, permite finalmente ao comum dos mortais aceder ao primeiro álbum dos Windy Corner.
Gravado de forma quase artesanal pelo quarteto de Amsterdão em 1973, seria publicado no ano seguinte pela britânica Deroy Records, numa edição única de 100 exemplares e, desde então, tem permanecido como um dos grandes segredos do folk-rock europeu.
Justificadamente de resto. “The House at Windy Corner” é um disco tão simples quanto extraordinário. Acústico quase sempre, oscila entre a tradição folk medieval do continente, as longas improvisações psicadélicas características do San Francisco sound dos 60s ( Grateful Dead e Mad River sobretudo ) e o “finger picking” de Leo Kottke. Seis temas apenas, magníficos, vários andamentos dentro deles e uma gloriosa serenidade que o tempo soube preservar.

13/11/14

Jardins do Paraíso ( XXXIX)


Algures em 1973, Gabriola Island, costa oeste do Canadá. Huckle, então com vinte anos, escreveu as canções que viriam a fazer parte de “Upon a once time”. As gravações aconteceram ao acaso, aproveitando as datas locais da tournée do colectivo hippie Perth County Conspiracy.
Mais improvisadas que planeadas, parte delas ao vivo, as sessões produziram onze canções, material suficiente para a edição de um álbum. Mas apesar da valia dos temas, o contrato nunca surgiu e opção foi, como em muitos casos semelhantes, a edição privada, artesanal e limitada.
Em 1974, 300 exemplares de “Upon a once time” foram prensados mas, sem promoção ou air play, a edição ficou fora do alcance dos radares. Uma lástima, tendo em conta o valor intrínseco das canções. Os temas são naturalmente resultado do pensamento e modo de vida alternativo da época, mas estão muito para além dos horizontes da mediania, desafiam as fronteiras musicais dos 70s ( conferir “Get down”, “Hello sunshine” ou “Ocean” ) ainda que Perth County ou Neil Young surjam como inspirações óbvias.
Recém descoberto, com alguns dos artefactos originais a serem transacionados por valores insanos, e mercê desta cuidada reedição, o  folk cósmico/acústico de Huckle pode finalmente ser escutado com a atenção que já merecia em 1974.

05/09/14

Jardins do Paraíso ( XXXVIII )


O passado está coberto de destroços provocados pela sobranceria, incompreensão, imaturidade ou, simplesmente, por um misto de todas elas. E é impressionante a quantidade de grandes discos que por aqueles ou outros motivos, escaparam aos radares do (re)conhecimento.

Bored Civilians é um desses casos.  Excessivamente folk para uns, demasiado rock para outros, o primeiro e único álbum de Keith Cross & Peter Ross ( 1972 ) foi olhado como um produto hibrido e como tal vendeu nada e rapidamente foi esquecido.

Contudo, por trás de uma capa tão icónica quanto sombria, esconde-se um grande álbum, feito de melodias redondas e influências west-coast. É verdade que nem todas as canções possuem a mesma solidez e as hesitações sobre qual o caminho a seguir são óbvias. Cochise, Fotheringay ( enorme a versão de “Peace in the end” de Sandy Denny e Trevor Lucas para o álbum “Fotheringay” ), Caravan e Brinsley Schwarz são influências possíveis, mas o que esta reedição recupera é um conjunto de canções sem tempo a que não demos atenção. No devido tempo.

17/04/14

Jardins do Paraíso ( XXXVII )



Primeira fatalidade histórica! Sempre que se abordam os Byrds, o primeiro nome que vem à liça é o de Rober McGuinn e, logo a seguir, o de David Crosby. Só depois Gene Clark. E no entanto, o último contribuiu tanto como os primeiros para que os Byrds fossem, a par dos Buffalo Springfield, uma das bandas californianas dos 60s com maior percentagem de talento por metro quadrado.
É verdade que Clark resistiu menos que Crosby e foi posto à porta durante a gravação de “Fifth dimension”, ainda a tempo de co-assinar o hino “Eight Miles High”, mas até então as suas contribuições como songwriter e sobretudo como frontman tinham sido preponderantes.

Segunda fatalidade histórica! Sempre que se fala da discografia a solo de Gene Clark, destacam-se “Gene Clark/Gosdin Bros” e acima de tudo “No Other” ( um disco de canções excepcionais mas vestido por arranjos e orquestrações excessivamente gongóricas ), e frequentemente esquecem-se “White Light” e “Two Sides to Every Story”.

Em 1977, na sequela do fracasso comercial de “No Other”, Clark gravou “Two sides”, o seu último opus para uma major. Não se trata de um disco perfeito – a vertigem country de “Home Run King”, “In The Pines” ou “Kansas City Southern” não o permitem -, é no entanto repositório de algumas das mais marcantes e melancólicas canções que Clark gravou depois de “White Light”.  “Give my love to Marie”, “Hear the wind”, “Past Addresses” ou “Silent Crusade” encontram na cuidada reedição da High Moon o lugar certo para exalarem toda a eloquência que lhes está na génese.
 
Two sides to every story” é mais uma página incontornável na história de um talento ainda por reconhecer.
 

22/01/14

Jardins do Paraíso ( XXXVI )


What’s all that shit about The Beatles?”. Acaso não conhecesse a peculiar discografia de Kevin Coyne, esta simples frase seria suficiente para de imediato me fazer partir à sua descoberta.
Poeta das mágoas da alma e das sombras da vida, Kevin Coyne começou por liderar os Siren com quem editou “Siren” ( 1969 ) e “Strange locomotion” ( 1971 ), dois discos tão brilhantes quanto menosprezados. “Case History” e “Marzory Razorblade”, os primeiros álbuns a solo, são hoje locais de peregrinação histórica, mas à data da sua publicação em nada contribuíram para retirar o “poeta, pintor e showman” da penumbra.
Blame it on the night”  procurou caminhos mais ortodoxos, mas a natureza anti-star do autor, a sua insistente e incómoda busca da verdade nas profundezas da mente humana não ajudaram. Finalmente reeditado, a meio caminho entre as melodias aristocráticas de Van Morrison ( “Wanting you is not easy” ) e o blues rock “imperfeito” dos Siren ( “Take a train”, “Poor Swine” ), o álbum ostenta um porte distinto que o tempo e a distância só valorizaram.
Acresce um detalhe que é tudo menos uma coincidência: a presença das guitarras desse outro proscrito do blues acústico britânico que é Gordon Smith. E é um deleite escutar o improvável casamento entre a extrema inquietação poética de Coyne e a magia musical que emerge de um conjunto de temas tão “difíceis” quanto  notáveis.
Não admira que Robert Wyatt se tenha rendido ao seu talento.  

11/12/13

Jardins do Paraíso ( XXXV )


 
Universal Mind Decoder” é o título de um “out take” que os Byrds trabalharam em 1968 e que acabaram por incluir em “Notorious Byrd Brothers” como “Change is now” ( o take instrumental original foi publicado pela primeira vez em 1997, na reedição remasterizada do álbum ) . E, “Universal Mind Decoder,” foi exactamente o nome que os Abunai escolheram para designar o seu primeiro disco.
Publicado em 1997,   posiciona-se naquele pequeno ponto do universo cósmico onde os primeiros Floyd, Hawkwind e Amon Duul se cruzam com o folk rock inglês de inspiração pagã.

Luminosa, a estreia da banda de Boston permanece uma inspiração, não tendo perdido nenhum do seu encanto com o decorrer dos anos. Pelo contrário. Soa hoje tão urgente e incontornável como há 16 anos.  

 
Psicadélico até às entranhas, “Universal Mind Decoder” constitui uma miscelânea de efeitos cósmicos, hipnóticos e adictivos, que raramente baixam a guarda, salvo quando o colectivo utiliza o corredor espacial para recordar ( recriar )  os Fotheringay ( “Gypsy Davy” ) ou Richard Thompson ( “Calvary Cross” ) mas, mesmo aí, sem nunca abandonar o manto caleidoscópico que as guitarras em modo fuzz obstinadamente tecem.
Peças centrais do álbum e definições perfeitas de tudo o que atrás se escreveu, “Quiet Storm” e “Dreaming of light”, são fundamentais para se perceber o que se perdeu ao ignorar um álbum sem tempo, mas claramente apontado ao futuro.

A reedição, em duplo vinil incluindo dois temas inéditos, faz-lhe a devida vénia.

30/11/13

Jardins do Paraíso ( XXXIV )


 
Por vezes sucede, e desta vez aconteceu com Chris Darrow.
Há anos que o seu primeiro álbum a solo – “Artist Proof” - repousa numa estante, mas só um par de meses atrás lhe descobri a verdadeira grandeza por via da reedição em CD levada a cabo pela Drag City.

Oriundo dos seminais Kaleidoscope, uma das bandas americanas que melhor fusionou o psicadelismo com as raízes do country, Darrow seguiu o trilho e escreveu um conjunto de canções que resistiram bem à patine do tempo. Pensem nos Byrds de Gram Parsons, em Gene Clark, nos Stones de “Wild Horses” e estão quase lá.
Artist Proof” ( 1972 ) foi calibrado de acordo com os padrões em vigor na época ( como músico de sessão, Darrow havia participado nas gravações de “Songs of Leonard Cohen” e “Sweet Baby James” de James Taylor ) mas o seu espectro sonoro vai muito para além disso.
 
Intemporal e decisivo. Uma (re)descoberta surpreendente.

01/07/13

Jardins do Paraíso ( XXXIII )


 
Nos anos compreendidos entre 1966 e 1969, San Francisco  viu nascer alguns dos mais fantásticos registos do psicadelismo americano.
Em Abril de 1967 foi publicado aquele que é seguramente um dos mais proeminentes álbuns do género: “Electric Music  for the Mind & Body dos Country Joe & The Fish. Joe McDonald, Barry Melton, David Cohen, Bruce Barthol e Gary Hirsh gravaram para memória futura aquela que foi, talvez a par de “After Bathing at Baxter’s” dos Airplane e “Anthem of the Sun” dos Dead, a essência do psicadelismo da época.

Numa edição cuidada ( é a primeira vez que a mistura original em stereo é publicada em cd ), “Electric Music” acaba de ser reeditado nas versões mono e stereo. Um detalhado booklet de 40 páginas permite o necessário posicionamento histórico, cortesia do saber e da pena do músico/arquivista/historiador Alec Palao.

 
E na verdade, nunca as paisagens cósmicas de “Flying High”, “Section 43”, “Sweet Lorraine” ou “Grace”, aqui e ali pinceladas pelo country,  tiveram um tão apelativo enquadramento sónico, sendo que até a enciclopédica guitarra solo de Barry Melton surge “diferente”, porque mais cristalina e decisiva.
Nenhuma colecção estará nunca completa sem um exemplar deste disco.

04/12/12

Jardins do Paraíso XXXII ( Bruce Langhorne )


1971. Na ressaca do sucesso do filme “Easy Rider”, os estúdios da Universal financiaram a estreia de Peter Fonda como realizador: “The Hired Hand”, um western melancólico e ambiental, protagonizado pelo próprio Fonda e por um Warren Oates  enorme, como de resto era hábito.

À data o filme constituiu um estrondoso fracasso financeiro, a Universal  não recebeu retorno do investimento - cerca de um milhão de dólares –, e durante décadas ninguém mais falou no assunto. 

Existia no entanto um detalhe nada despiciendo:  a banda sonora. Quando da rodagem,  Fonda solicitou a Bruce Langhorne a cedência de um conjunto de temas acústicos que o guitarrista havia gravado em 69 e para os quais não tinha encontrado nenhuma editora interessada na respectiva publicação. Langhorne, um ilustre (des)conhecido que havia tocado guitarra em tudo o que era disco de folk ( de Bob Dylan a Joan Baez, passando por Tom Rush e Ritchie Havens ) acedeu, mas o score, tal como o filme, passou completamente despercebido.

Em 2001, quando a película foi finalmente reeditada em DVD, os melómanos descobriram a mina de ouro que era a sua banda sonora. Daí até à publicação pela primeira vez em registo áudio foi um pulinho. Desde então, desenvolveu-se um assinalável culto e, recentemente, “The Hired Hand” conheceu por fim uma reedição a condizer com o seu estatuto: formato vinilo, novo grafismo e limitada a 1.000 exemplares.

Espécie de “The Long Riders” ou “Paris Texas” silencioso, entre banjos, violinos, harmónios, guitarras, dobros, flautas  e percussões minimalistas, “The Hired Hand” vestiu  as roupas do country ambiental e esteve muitos anos à frente do seu tempo. E hoje, mesmo depois de tudo o que ouvimos e sabemos sobre o “alt-country/americana”, parece quase inverosímil que as onze pérolas que integram este score tenham permanecido inacessíveis durante mais de 30 anos.

Sabem pois o que têm a fazer. Isto, claro, se ainda forem a tempo.

21/05/12

Jardins do Paraíso XXXI ( Talk Talk )


As grandes obras e os músicos que lhes estão na origem, raramente andam nas bocas do mundo.
A história da música popular dos últimos 50 anos está repleta de exemplos disso mesmo. 

Casos concretos?

Que tal,  If I could only remembre my name” ( David Crosby ), “Astral Weeks” ( Van Morrison ), “Little Feat” ( Lowell George ), “David Ackles” ( David Ackles ), “Miss America” ( Mary Margaret O’Hara ), “Fool’s mate” ou “Over” ( Peter  Hammill ), “Stormcock” ( Roy Harper ) ….
Spirit of Eden” dos Talk Talk ( basicamente um projecto de Mark Hollis ) é mais um dos proeminentes casos a juntar aquela(s) lista(s). Em 1988, ao quarto álbum, a banda britânica terá inventado aquele que para o Atalho constitui o “Astral Weeks” dos anos 80.


Pós-rock metafísico, espiritual, sensorial. “Spirit of Eden” é feito de uma beleza e singeleza desconcertantes. Como se isso fosse em si mesmo uma tarefa fácil, Mark Hollis (depois de ter criado semi-hits adequados à época como “It’s my life” ou “Colour of Spring”), mergulhou num espaço experimental, para onde convocou o pop, o folk, o jazz, o progressivo, o blues e o clássico modernos. Ao trabalhar com especial minúcia, artesanalmente,  partículas de todos estes elementos, construiu uma tapeçaria  sonora, simultâneamente urbana e pastoral que o tempo, qualquer que ele seja, jamais conseguirá apagar ou fazer esquecer.
“The Rainbow”, “Eden”, “Desire” , “Inheritance”, “I believe in you” e  “Wealth”, apenas seis temas. A totalidade de “Spirit of Eden”. Um palco onde coabitam a metafísica e aquela atmosfera intensa e espiritual, ambas tão tipicamente inglesas, que podemos encontrar em muitas das canções de Nick Drake, John Martyn, Sandy Denny, Bill Fay ou Roy Harper. Sensações que transmitem alegria, profundidade, e que nos deixam felizes e eufóricos por estarmos vivos.

A recente reedição respeita a personalidade de “Spirit of Eden” Não existem temas extras ou inéditos que, no caso presente, só podiam contribuir para empobrecer e desvirtuar o original. Até neste aspecto a inteligência e o respeito pela arte prevaleceram.

O Paraíso, a existir, deve ser algo de muito parecido com isto …

31/01/12

Jardins do Paraíso XXX ( Gene Clark )


Gene Clark, o maior songwriter que os Byrds alguma vez albergaram no seu seio ( e não, não me estou a esquecer de David Crosby ) raramente viu os seus discos a solo devida e justamente valorizados. Alguns deles, verdadeiras obras primas em matéria de composição foram massacrados por produções e arranjos megalómanos, completamente em contra-ciclo com a personalidade do autor. “No Other” será nesta matéria o exemplo mais acabado.

Roadmaster” será porventura o paradigma do “disco maldito”. O álbum que Clark nunca conseguiu fazer publicar no seu próprio país. “Gene Clark” ( aka “White Light” ), provavelmente a sua obra prima, fora editado em 1971 mas, à época, como quase sempre acontece a todos os talentos com óbvias dificuldades de comunicação e/ou adaptação ao sucesso, foi ignorado pela indústria e público americanos.

Os europeus, sempre mais atentos e sensíveis aos “american loosers”, aproveitaram a reunião dos The Byrds originais em 1973 ( para cujo álbum homónimo, Clark forneceu as melhores canções) e publicaram “Roadmaster” na Alemanha e Holanda com um moderado sucesso.

Escutadas hoje ( via uma muito cuidada reedição da Sundazed ), as 11 canções permanecem as mesmas. Não obstante , o tempo e as novas técnicas digitais, encarregaram-se de as colocar em perspectiva, elevando-as a um patamar muito próximo do sublime. Basta voltar a escutar “One in a Hundred” (com as suas guitarras mid-tempo e subtis harmonias vocais), “Full Circle Song”, “Here tonight” ou “In a Misty Morning”, para se perceber que um lamentável conjunto de factores, uns endógenos outros exógenos, acabaram por destruir um dos maiores talentos americanos da segunda metade do século XX. “Roadmaster” é uma excelente oportunidade para nos reconciliarmos com esta janela da história.

17/11/11

Jardins do Paraíso XXIX ( Chris Thompson )


A história deste disco conta-se em meia dúzia de linhas: 
Most copies were reputedly destroyed by distributor, Transatlantic Records with only 101 copies surviving. The album was recorded between 1971 and 1973 with Keshav Sathe and Clem Alford from Magic Carpet, and Ed Deane from The Woods Band. Also included are Brian Dunning and The Kings of Rhythm. Although having a publication date of 1973, the release was delayed by what a January 1974 press release described thus, ‘the Chris Thompson LP which Village Thing advertised as a November release has yet to reach the shops due to advanced bungling at the pressing stage. Having got through that, it is now of course affected by 3-Day working, vinyl shortage etc and thus may be at least another month or two delayed.”
( Mark Jones em “Great British Record Labels: Volume 2, The Saydisc and Village Thing Discography”)
Chris Thompson, natural de Hamilton na Nova Zelândia, chegou à Europa enquanto membro da banda de Julie Felix. Irlanda, Londres, Belgica, sul de França ( Festival de Avignon ) foram locais de passagem onde tocou e socializou com Dave Graham, Bert Jansch, Wizz Jones, John Renbourn, Ian Anderson e Derroll Adams entre outros. Natural que tenha escrito as suas próprias canções. Natural também que as tenha gravado. O que já não foi nada natural foi o que, de acordo com a lenda ( mais ou menos suportada em provas verbais ), se passou com a prensagem do álbum “Chris Thompson”. Dos 1000 exemplares fabricados, apenas 101 foram colocados nas lojas. Os restantes, “terão” sido despejados num canal junto com paletes de entulho…

Como é fácil de imaginar as cópias ainda em circulação mudam hoje de mãos por preços estratosféricos. A mais recente emergiu no passado Setembro: uma “lovely copy” ( eufemismo muito próprio do meio para caracterizar um disco bastante usado ) foi transaccionada por 198 Libras.
Apesar de curto, apenas 8 temas, “Chris Thompson” configura um magnífico álbum. Escutado, finalmente, deixa perceber a relação com Dave Graham e os dois mentores dos Pentangle. O finger-picking é soberbo, as canções elegantes e a voz contida mas calorosa. Um perfeito disco de folk-rock, aqui e ali matizado pelo psicadelismo da época, cortesia da sitar de Clem Alford e tablas de Keshav Sathe ( ambos Magic Carpet ).

“The Song of Wandering Aengus”, melodia sobre um poema de W.B. Yeats e “River Song” , um original de Thompson inspirado na “The Waste Land” de T. S. Eliot, são dois pilares incontornáveis de uma obra que recebeu finalmente a reedição merecida.

Para além dos 8 temas originais, são acrescentados mais 6 outtakes e um segundo cd que inclui canções gravadas e publicadas por Chris Thompson nos últimos 20 anos. A juntar ao festim, um booklet, com detalhes sobre as canções e um texto assinado, sensitivamente, pelo próprio.

Melhor era quase impossível.


23/07/11

Jardins do Paraíso XXVIII ( Carl Hakansson )



De regresso ao maravilhoso mundo das edições privadas com Carl Hakansson.


Candles Glow” data de 1979 mas soa 7 ou 8 anos mais novo. Natural de Ashland ( Oregon ), Hakansson juntou um grupo de amigos e partiu para o estúdio onde gravou 10 temas de qualidade desigual, mas que curiosamente acabam por funcionar bem no conjunto.


A abrir, “Running free” preocupa, de tão próximo do paradigma Eagles. Porém a coisa melhora de imediato com o tema título, “Requiem for na Oglala Sioux” e “Where is the beginning” ao aproximarem-se das prestações de David Crosby, período 1970/1971.


Um pouco mais à frente a sonoridade ganha músculo e, tivessem os temas “Living in the sunlight” e “Morning Bird”, maior dinâmica e quase poderíamos estar aqui a estabelecer comparações com Jefferson Airplane.


O álbum caminha para o fim, nostálgico e triste com “Silent Winter” e “You are near”, o último um requiem à esposa entretanto falecida.


Com outra produção e um maior equilíbrio entre as canções, “Candles Glow” teria sido um disco essencial no nicho das private pressings americanas. Ainda assim justifica e muito ser mais conhecido.


29/06/11

Jardins do Paraíso XXVII ( These Trails )




E eis que o maravilhoso mundo arqueológico das “private pressings” volta a surpreender-nos. Desta vez com a reedição daquele que será talvez o melhor registo de folk psicadélico saído do Hawai: “These Trails”.




“There was never an ensemble known as These Trails. The musicians barely even performed together in public, unless you include bonfires and front porches, and “These Trails” was just a song they might have sung. And, neither was this a “studio” project, given a fake band name to legitimize it, like so many exploitation one-offs and tax scam pressings. As the legend of this verdant psychedelic document has grown through the decades, no one has ever solved the discographic puzzle of an album without an artist. “These Trails” was merely the title given to a set of songs as written by Margaret Morgan and Patrick Cockett, and if there is an artist at all, it is the various settings in which these songs occurred: sometimes Waipoo, or Hanelei, or Kalihi Valley. Always an island, always in a dynamic homeorhesis of love, nature and creation”




(Rob Sevier, extracto do texto que acompanha a reedição)








Na verdade “These Trails” tinha tudo para ser uma gloriosa obscuridade. E foi-o durante largos anos. Até meados dos anos 90, quando finalmente os coleccionadores descobriram o esplendor de uma música simples e ao mesmo tempo exótica, eivada de painéis psicadélicos e sugestões naturalistas que emergiam das paisagens e envolvências proporcionadas pela vivência nas ilhas.




A escrita é perfeita, as vocalizações ( Margaret Morgan e Patrick Cockett ) a condizer e a instrumentação de base minimalista ( guitarra, dulcimer , tabla ) é aqui e ali aconchegada por um sintetizador decorado com extraordinário bom gosto ( verdade, também é possível ) ou por uma sitar misteriosa.




Não há em “These Trails” um único tema dispensável, mas a suite “Psyche I & Share your water” e o belíssimo “Hello Lou” são os preferidos do Atalho. O álbum tem 38 anos de idade. A magia porém é tanta que mal se dá por isso.




17/06/11

Jardins do Paraíso XXVI ( Turiiya )

O chamado “Holy Grail” é o maior pesadelo de qualquer coleccionador. No caso da música, particularmente do vinil, não existe um Holy Grail, mas vários. E, quando o anterior deixa de o ser, logo um outro se perfila como “o próximo”.




Há anos que demando “Waiting”, um mini-álbum gravado por um trio feminino de nome Turiiya e publicado na Nova Zelândia em 1985. Até à data não tive sucesso, provavelmente por não ter procurado onde devia, ou pura e simplesmente, não ter perguntado às pessoas certas.




Recentemente a persistência e a resiliência conduziram-me à fala com Jyoshna La Trobe, um dos terços de Turiiya e a única ainda em actividade. Entre outras coisas, confirmei o que há muito suspeitava. Não estou só nesta procura insana.




Porém, do contacto resultou algo de muito mais importante. A minha caixa do correio recebeu com enorme alegria uma reedição privada de “Waiting”; um CD que inclui os 5 temas originais do Mini-LP mais 6 inéditos. Onze títulos sem paradigma definido, absolutamente inclassificáveis, sendo que o belíssimo “Thread of Gold” a par de “Leave the past behind” serão os únicos que se aproximam do formato standard de canção. Tudo o resto é manufacturado com outra elegância, num excitante mix entre o folk, a world music, a campfire song, o jazz, a cappella e a música atonal.







O referido “Thread of gold”, fere de tão belo. O longo “Crimson dawn” ( 12m 11s ) é aquilo a que em tempos os australianos Crowded House chamaram de “Four seasons in one day”. Não me ocorre de momento melhor caracterização para este fantástico caleidoscópio de géneros musicais.




“Waiting” e “Ship in the harbour”, hesitam entre o partir e o ficar. A primeira tem como tema o comboio, a segunda o barco. As onomatopeias são a trave mestra de ambas.




Por fim e ainda que a informação constante no CD o não refira, os 6 temas acrescentados são seguramente oriundos de sessões posteriores e, à excepção de “Leave the past behind”, encontram-se demasiado perto da “new age” e são bastante menos interessantes do ponto de vista criativo.




O verdadeiro “Holy Grail” ( o vinil original ) continua por descobrir. A curiosidade está por agora saciada, mas a demanda vai prosseguir.


29/03/11

Jardins do Paraíso XXV ( Michael Chapman )


Embora pouca gente tenha dado por isso, Michael Chapman anda por aí há mais de 40 anos. Nos tempos mais recentes, o músico vem desenvolvendo uma actividade frenética, desdobrando-se entre concertos, edições e reedições de discos.

Trainsong: Guitar Compositions 1967-2010” é uma das recentes iniciativas. Trata-se de um duplo CD que inclui 26 instrumentais ( maioritariamente acústicos ) onde Chapman passa em revista episódios da sua já longa carreira, enquadrando e contextualizando os temas escolhidos.

E entre o vasto conjunto de peças há de tudo; memórias resgatadas, admissão de influências ( John Fahey, Tom Rush, Leadbelly, Jack Rose, Mike Cooper, Brenda Wootton ) e locais marcantes ( Itália, Senegal, Espanha ). Mas para além da técnica e do virtuosismo do instrumentista, encontra-se a alma e a paixão do homem, sentimentos que conferem a esta música personalidade própria, um carácter urgente e incontornável.


Praticamente em simultâneo, Chapman viu reeditado o seminal “Fully Qualified Survivor” ( 1970 ). Negligenciado à época, foi ganhando estatuto à medida que o tempo passou por ele. Hoje, é praticamente consensual que soube envelhecer com assinalável e rara dignidade.


Os instrumentais são de primeira água. As canções, diz a lenda, fizeram as delícias de John Peel. “Postcards of Scarborough”, “Stranger in the room”, “Soulful Lady” ou “Aviator” são exemplos perfeitos do folk-rock britânico da época. Por seu lado as guitarras de Mick Ronson e os arranjos de Paul Buckmaster ( se puderem reavaliem o magnifico trabalho deste mago nos quatro primeiros lps de Elton John ) conferem-lhes uma dimensão a que só a idade foi capaz de fazer justiça.


Trainsong” e “Fully Qualified Survivor” são obras diversas embora complementares. A todos aqueles que ainda não conhecem o autor sugere-se que comecem pelo segundo. Os restantes saberão naturalmente o que fazer.

07/01/11

Jardins do Paraíso XXIV ( Morly Grey )


Ao longo dos anos, a reputação do álbum “The only truth” precedeu-o. Muitos falavam dele embora muito poucos o tenham escutado. No inicio da década anterior, uma reedição italiana não autorizada, acalmou o frenesi. Relativamente. Porém, só agora, por via da inefável Sundazed estamos verdadeiramente em condições de perceber as razões que potenciaram o mito.

Com origem em Alliance no Ohio, Morly Grey nasceu das cinzas de combos como Chads, Popcorn Treaty ou Rust. Cresceu numa espécie de “no man’s land”: a fronteira que então separava o velho psicadelismo 60s de um heavy-rock temperado por longas jams e matizado por tiques prog.

Não obstante a aparente dicotomia, “The only truth” revela-se um trabalho encantador; seja quando se expressa em linguagem folk-rock ou quando as guitarras de Tim Roller se colam ao heavy puro e duro. A simbiose entre as duas matrizes resulta na perfeição ( um caso raro ) e o charme do álbum é evidente.



Publicado no final de 1972, “The only truth” foi gravado ao longo dos dois anos anteriores e inclui um conjunto de peças de antologia. Desde logo “Who can I say who you are” ( um exemplo do que foi escrito no parágrafo anterior ), mas também “I’m afraid” onde se cruza a dinâmica instrumental de Cold Sun com as guitarras Airplane período “Volunteers”, “A feeling for you” ( tudo o que recorde Quicksilver Messenger Service é bem recebido aqui no Atalho ) e o tema título, um épico com cerca de 17 minutos que revê o clássico “Johnny comes marching home” ao mesmo tempo que tenta lidar com a chaga do Vietname.

A presente reedição recuperou todas as fitas originais, facto que permitiu a inclusão de “None are for me”, “Come down” e “Love me”, três títulos que começaram por fazer parte do pré-alinhamento do disco mas que acabariam retiradas ( no caso da primeira a decisão deve ter sido tudo menos fácil ) face à extensão do tema título. Embora menos significativas, são também incluídas as duas canções que fizeram o único single da banda.

Por fim a clarificação de um facto que sempre intrigou quem observava a capa enquanto escutava o disco. De acordo com o baixista Mark Roller ( declarações constantes no booklet ) Morly Grey nunca teve qualquer inspiração de carácter religioso, pelo que o design de Carole Pavlich reproduzindo um ícone católico não tinha nenhum significado particular. A explicação vale o que vale, mas por mim, antes assim…

04/12/10

Jardins do Paraíso XXIII ( Ted Lucas )


Por momentos cheguei a temer que para apreciar verdadeiramente “Ted Lucas” fosse necessário estar pedrado.

Ao longo de anos habituei-me a conviver com inúmeras referências elogiosas ao disco. Porém, quando finalmente tive oportunidade de escutar a recente reedição, ao fim de 3 / 4 músicas, questionei-me sobre a razão de tantos comentários superlativos.

Ted Lucas viveu a maior parte da sua vida artística em Detroit. Em meados de 1965 liderava os Spike Drivers e, anos mais tarde integrou os Misty Wizards e os Horny Toads. Apesar de um pequeno conjunto de singles prometedores, o sucesso, seja lá o que isso for, andou sempre arredio e Lucas só entraria no radar dos apreciadores do folk-rock psicadélico muito mais tarde, já no rescaldo da publicação ( em 1975 ) do álbum homónimo na sua editora OM. O design/artwork da capa – autoria de Stanley Mouse –, ajudou certamente à criação do pequeno mito, acabando anos volvidos por estar na origem do logótipo dos insuportáveis Journey.


( The Spike Drivers )


Ted Lucas” principia da pior maneira. “Plain & Sam & Simple melody” e “It’s so easy” são, que me recorde, dos mais débeis temas de abertura para um disco com um tão grande capital de elogios. “Now that I know” é uma balada aceitável; “”Find a way” e “Baby where are you” pouco mais que inócuas e, a terminar o lado A, “It’s so nice to get stoned” ( lá está ! ) é apenas assustadora.

Lado B. A coisa só pode melhorar. “Robins ride”, repartindo democraticamente o virtuosismo entre a guitarra acústica de Lucas e as congas de Danny Ballas, é encorajador. Os 7 minutos que dura a suite “Sony Boy Blues” são um puro deleite com a guitarra acústica a percorrer os trilhos do delta-blues num absoluto frenesi, hesitando entre o formalismo da tradição negra e o desvario psicadélico.



O longo “Love & Peace Raga” constitui a “pièce de resistance” do disco. Perfeito na forma e no conteúdo, oferece-nos uma guitarra que poderia ter sido tocada por Robbie Basho ou John Fahey ( é verdade, Ted Lucas era também um excelente instrumentista ) enquanto lá atrás, como que servindo de lastro, a tambura de Carol Lucido sustenta toda a improvisação do solista. Notável.

Os meus receios iniciais revelaram-se afinal infundados. Para apreciar o disco bastará escolher os temas certos. “Ted Lucas” é um daqueles álbuns que viveria bem melhor no formato de EP.

19/07/10

Jardins do Paraíso XXII ( John Drendall - B.A. Thrower & Friends )


No maravilhoso munda da música nunca ninguém poderá afirmar que sabe ou conhece tudo o que importa saber e conhecer. É que algures numa cave recôndita, numa garagem abandonada ou dentro de um caixote perdido num sótão, existirão sempre discos, fitas ou maquetas, esquecidas no baú da história e que, uma vez redescobertas, nos deixarão sempre agradados e ao mesmo tempo surpresos.

Ao Atalho voltou a acontecer, desta vez por via da reedição de uma private-press há muito perdida no tempo. Através de uma amável dica do Luis Rodrigues, tive oportunidade de descobrir Papa never let me sing the Blues…”, datado de 1972 e creditado a John Drendall – B. A. Thrower & Friends.

Drendall, Thrower e os amigos ( Dick Dunham, Tom Caruso, Mike Skory, Nelson Wood ), todos nativos do Michigan, começaram pela garagem como a maioria das bandas da época e, à semelhança de grande parte delas, pela garagem se ficaram. Pena que o resultado do trabalho: “Papa never let me sing the Blues…”, não tenha sido suficiente para fazer a diferença. A história teria sido certamente outra.



Na verdade trata-se de um disco que ostenta uma qualidade muito acima da média, sobretudo se for tido em conta o facto de se tratar de uma prensagem privada, oriunda de um mundo que vamos conhecendo aos poucos, umas vezes com grande agrado outras nem tanto.

Este é claramente um dos casos em que vale a pena investir. Drendall e companhia, conceberam e desenharam magníficos exercícios electro-acústicos em volta do blues, do folk, do psicadélico, do rural-rock e, pasme-se, até do space-rock.

O trabalho das guitarras ( acústicas e eléctricas ) é de altíssimo nível, fazendo por vezes lembrar os melhores momentos do velho Marc Benno. Acessoriamente, tendo ainda em conta a competência das vocalizações e arranjos, mal se percebe a razão deste magnífico álbum ter na origem conhecido uma edição de apenas 500 exemplares e, desde então, tenha permanecido indisponível. Até agora …