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01/09/10

"Ghosts from the Basement" e "Rough Trade Shops Psych Folk 10"


Os recentes “Ghosts from the Basement” e “Rough Trade Shops Psych Folk 10” representam duas das melhores compilações a que qualquer aficionado do folk pode aspirar. Ambas fazem todo o sentido e ambas procuram contar uma história, como de resto deve acontecer com qualquer compilação digna desse nome.

Ghosts from the Basement, lost songs, dreams and folkadelia from the vaults of Village Thing, 1970-74”, como se infere do título, narra a história da Village Thing, uma pequena editor independente criada e mantida por Ian A. Anderson e que no curto período em que operou colocou no mercado cerca de duas dezenas de álbuns de artistas folk ( ingleses mas não só ). Um assinalável e talentoso conjunto de almas penadas que espiavam as respectivas penas no “underground”, espaço onde a grande maioria acabaria por se quedar.

De facto, exceptuando os casos de Derroll Adams, Ian A. Anderson (hoje editor da Folk Roots) e Wizz Jones, os restantes artistas publicados pela Village Thing – Steve Tilston, Chris Thompson, Lackey & Sweeney, Al Jones, Dave Evans, Hunt & Turner, The Sun Also Rises – desapareceram dos radares tal como a quase totalidade dos respectivos discos, hoje verdadeiros “Holy Grails” que só muito raramente acedem a mudar de mãos ainda que a troco de preços insanos.



Para além da componente histórica “Ghosts from the Basement”, funciona como uma espécie de ponta do iceberg. A excelência de alguns dos temas e a competência instrumental ( o fingerpicking em alguns trechos roça a perfeição ) própria da época, deixa no ar uma enorme e justificada curiosidade ( Chris Thompson, Lackey & Sweeney, Al Jones e Dave Peabody por exemplo, deixaram o Atalho com a pulga atrás da orelha ).

A partir daqui, Ian A. Anderson, tal como o próprio deixa perceber nas notas que escreveu para o booklet da compilação, terá começado a pensar em reeditar a maioria, porventura a totalidade do catálogo da sua velha editora. Uma decisão que se saúda pelas razões que julgo terão ficado claras atrás.

O pontapé de saída para a campanha será dado em Londres no próximo 25 de Setembro, quando a propósito da celebração dos 40 anos da editora, parte destes artistas se reunir na Cecil Sharp House para um festival, ao lado de filhos/netos espirituais como The Owl Service, Nancy Wallace ou Ellen Mary McGee.


Quanto a “Rough Trade Shops Psych Folk 10”, será talvez a face mais recente e actual da mesma moeda. A história que se procura contar aqui não terá ainda a necessária consistência, mas ao incluir de temas de gente tão talentosa quanto Jack Rose, Espers, Alasdair Roberts, Trembling Bells, Hush Arbors, Six Organs of Admittance ou Voice of the Seven Thunders e, significativamente, ignorar nomes como as Joannas, os Devendras ou CocoRosies, antecipa a garantia de que mais cedo ou mais tarde, a história do “psych folk” do inicio do século XXI vai ter de ser contada.

24/08/10

Artefactos ( 5 )


Quando recuperei esta beleza e decidi partilhá-la convosco, hesitei quanto ao espaço do Atalho mais adequado para o fazer:"Lost Nuggets" ou "Artefactos"? Trata-se de uma peça histórica, tanto do ponto de vista musical ( "british acoustic blues" ) como visual e que dadas as suas características, faz sentido em ambos. Acabei por optar pelo segundo pois considero a capa ( reprodução de uma pintura da autoria de Jim Pitts, que de resto também toca no disco ), uma das mais brilhantes que a indústria inglesa produziu no final dos 60s do século passado.

Se se cruzarem com um exemplar nem pestanejem, pois para além de ser um magnífico artefacto é também genuinamente raro.

Nota: evitem a prensagem americana pois a respectiva capa é um verdadeiro insulto a quem pensou e concebeu o design do original inglês.



20/04/10

"Deutsche Elektronische Musik"


E eis que chegou finalmente “Deutsche Elektronische Music – Experimental German Rock and Electronic Musik 1972-83”.

Não será ainda o olhar definitivo sobre o tema ( admitindo que um dia será possível atingir tal desiderato ), mas é indiscutivelmente um excelente contributo para lá chegar.

Fundamental escutar enquanto se lê ou relê o que de melhor se escreveu sobre o fenómeno.

16/12/09

"Every noise has a note"


A Trensmat Records é uma editora independente que se vem dedicado à publicação de edições limitadas de singles (em vinil) contendo alguns dos melhores temas que poderemos encontrar hoje nas margens do underground.

Com as edições maioritariamente esgotadas, a editora partiu para a compilação em CD de parte dos títulos publicados. Razões comerciais ditaram certamente a decisão, mas o simples facto destas músicas estarem de novo disponíveis em suporte físico é para o Atalho justificação mais do que suficiente.

( Bardo Pond )

Falo, por exemplo, do space-garage e do groove hipnótico dos Telescopes em “Dsm – 1V axis 1307.46 (Night Terrors)” , da distorção fogo à peça praticada pelos White Hills em “Be yourself”, do motorik incandescente que é “Bethany heart star” dos Mugstar ( o novo álbum está apontado para o inicio do ano ), do drone psicadélico de “Vaahto” responsabilidade dos finlandeses Circle ou do épico “Lord of Light” um original dos Hawkwind para “Doremi Fasol Latido”, aqui numa versão onde o space e o fuzz convivem sem sobressaltos.

Para além destes, há ainda convincentes incursões no território do krautrock com “Trick with a knife” dos Area C, a evocação dos Suicide nos Cave de “Machines & Muscles” ou o apocalíptico tratamento de resíduos cósmicos levado a cabo pelos Magnetize em “Noise to signal”.

( Cheval Sombre, poster Flora Wang )

A fechar, numa atmosfera mais serena, um hipnótico, quase velvetiano “Troubled mind”, numa remistura de um tema retirado de “Cheval Sombre” o álbum de um projecto homónimo que envolve Sonic Boom, Dean Wareham e Britta Phillips.

Em suma, “Every noise has a note” confirma o título e apresenta argumentos suficientes para se tornar absolutamente mandatório.

07/12/09

"Forge your own chains, Heavy Psychedelic Ballads and Dirges 1968-1974"


Ao olhar para o passado sem preconceitos e de forma abrangente, “Forge your own chains” acaba por ser uma das mais interessantes e visionárias compilações que o psicadelismo conheceu nos tempos mais recentes.

Ao incluir temas, - muitos deles retirados de edições privadas -, de grupos oriundos ou sediados nos EUA, Canadá, Suécia, Irão, Colômbia, Alemanha, Nigéria, Coreia do Sul ou Tailândia, a colectânea da Now Again correu riscos, embora naturalmente calculados. O resultado global indicia que valeu a pena.

A incorporação de títulos, magníficos de resto, de Damon, D. R. Hooker ou Morly Grey, não surpreende os amadores do psych, antes serve para sublinhar aquilo que de positivo já se sabia dos nomes em causa. Ao contrário, são questionáveis as inclusões dos temas de T. Zchiew & The Johnny, Ana Y Jaime ou do iraniano Kourosh Yaghmaei. Noutro registo, os canadianos Ellison adiantam um “Strawberry Rain” interessante, ainda que para o gosto do Atalho, demasiado devoto da liturgia Beatles.

(Shadrack Chameleon)

A excitação dispara em flecha quando se escuta o “soul psych” dos Sensational Saints ou o funk só aparentemente amador dos East Underground que, com a colorida versão de “Smiling faces sometimes”, quase nos fazem crer que os Temptations estiveram presentes nas live-jam-sessions que deram origem ao duplo “Live Dead”.

Pelo meio surgem: o coreano Shin Jung Hyun com o “inofensivo” sing-along de “Twilight”, o qual rapidamente se transforma num semi-clássico após algumas audições, e os Ofege que nos presenteiam com um “It’s not easy” colheita de 1973, escrito e gravado em Lagos/Nigéria, mas que se tivesse saído de San Francisco ou Liverpool 1967, ninguém teria achado estranho.

A pérola que é “Song of a sinner” coloca os americanos Top Drawer no interior de um triângulo desenhado por Cold Sun-Phantasia-Morgen, apenas e só para não ir mais além. Quanto à inclusão dos Shadrack Chameleon, o mínimo que se pode dizer é que a banda do Midwest contribui com “a peça de antologia”: “Don’t let it get you down” é construída em cima dos caboucos de um órgão e guitarras psych, usa alguns dos ingredientes Neil Young/Buffalo Springfield e fica cautelosamente à porta do progressivo. Como facilmente se percebe, é irresistível.

A terminar, impossível ignorar a energia cósmica que permanece no ar, imediatamente após se terem extinguido as chamas hendrixianas ateadas pelos suecos Baby Grandmothers no tema “Somebody’s calling my name”. De facto, seria difícil encontrar final mais apropriado para uma colectânea que se pode vir a transformar num “case study” e que natural e vivamente se recomenda.


23/11/09

Fading Yellow #8 "Hymns for today"


Trata-se de uma "novidade" antiga de dois anos. Para além disso existem fundadas reservas acerca da respectiva legalidade e duvida-se que os artistas tenham recebido os devidos royalties.

Não obstante, porque se trata de uma colectânea que abriga um extraordinário conjunto de obscuridades do folk-rock psicadélico gravado em Inglaterra entre 1968 e 1975, fica feita a referência.

"Hymns for today, UK sike pop folk sounds 1968-1975"

Harvey Andrews - "England my England"
Jan & Lorraine - "Bird of passage"
Raw - "What to do"
Michael Blount - "Acorn Street"
Danny Kirwan - "Lovely days"
Fuchsia - "Me and my kite"
P. C. Kent - "After dark"
Vigrass & Osborne - "Ballerina"
Gothic Horizons - "Thoughts"
Marc Brierley - "Today I feel like leaving you"
Storyteller - "Alice Brown"
Andy Roberts - "I've seen the movie"
Nadia Cattouse - "All around my grandmother's floor"
Jan & Lorraine - "Snow roses"
Evensong - "The smallest man in the world"
Trevor Billmuss - "Sunday afternoon in Belgrave Square"
John Pantry - "Long white trail"
Michael Blount - "Ceaicles Micellaneous"
Alan Jones Eastwood - "Hymns for today"
Wizz Jones - "One grain of sand"
Tony Hazzard - "Loudwater House"

18/10/09

Compilação US 60's / 70's


Existem dois tipos de compilações. Aquelas que são elaboradas pelas editoras – as quais, salvo honrosas excepções, nos deixam absolutamente indiferentes -, e as outras, as que são “inventadas” pelos fãs e/ou experts. Em regra, estas últimas deixam-nos em pulgas, vergados aos índices de adrenalina que a descoberta de mais umas quantas pérolas, invariavelmente provoca.

Uma das mais extraordinárias compilações que o Atalho escutou recentemente , foi elaborada por Richard Morton Jack especificamente para Ethan Miller, depois do editor de “Galactic Ramble” ter assistido a um concerto dos Howlin Rain.

Debruça-se sobre o rock americano que floresceu no underground, entre a última fronteira do psicadelismo e a infância do “hard-rock” ( 1968 a 1971 ) e entre outros, agrupa temas dos David, Quatrain, Finchley Boys, Tin House, Dragonfly, Fallen Angels, Lazy Smoke, Sugar Creek, Ron Elliott ou Larry Corryell, este último num registo próprio de “artista enquanto jovem”.

Dentro do género, dificilmente encontraremos melhor.

Toda a história, bem como o link para o necessário download encontram-se em

10/06/08

"John Barleycorn reborn, dark Britannica"

A lenda associada à figura da mitologia britânica John Barleycorn, reza que num certo dia três meliantes decidiram que o pobre John devia morrer. Vai daí enfiaram o homem dentro de um barril e enterraram-no vivo. Na primavera seguinte, John emergiu, vivo, ostentando uma garbosa barba. Os três relapsos voltaram à carga; amarraram Barleycorn a um poste e torturaram-no, na esperança que morresse. Mas John foi mais forte e em lugar de morrer, o seu corpo transformou-se em grãos de cevada, os quais deram origem a cerveja. Ainda de acordo com a mitologia, Barleycorn nunca foi derrotado, passando ele a humilhar, através da bebida, todos os que o desafiavam.

Uma das cantigas tradicionais mais antigas das ilhas britânicas, consta que “John Barleycorn” terá sido escrita por autor desconhecido em 1588; adaptada por Robbie Burns em 1782 e desde então recuperada como cantiga de celebrações pagãs, sempre que se viviam as épocas relativas às colheitas dos cereais.

Mais recentemente desde que no final dos anos 60 do século XX a Inglaterra conheceu o renascimento da música tradicional, “John Barleycorn” tem sido seguramente uma das canções populares mais interpretadas pelos artistas do folk e do folk-rock. A adaptação mais conhecida será a dos Traffic no álbum “John Barleycorn must die”. Mas existem muitas outras (Steeleye Span, Bert Jansche, Martin Carthy, John Renbourn, Green Crown, Tickawinda, Pentangle ) a justificar a visita.

Em finais de 2007, Mark Coyle um entusiasta que anima a editora folk Woven Wheat Whispers, teve a ideia de pedir a um conjunto de “artistas maioritariamente desconhecidos e que fazem música folk não convencional” para se debruçarem sobre a lenda. O resultado chama-se “John Barleycorn reborn: dark britannica”, explora o mito e a respectiva personagem em 66 canções, repartidas por três capítulos: nascimento, morte e renascimento.

Dividido em duas partes ( um duplo CD com 33 temas e um segundo volume disponibilizado via download ) “John Barleycorn reborn” é uma das edições mais apaixonantes que a música inglesa de inspiração folk conheceu nos últimos anos.
Como se viu, o critério foi descobrir e promover músicos que se movimentam na música tradicional, criando em simultâneo novas formas, proporcionando que o choque/tensão entre o experimentalismo e as linguagens mais conservadoras ou tradicionais, crie uma outra forma de expressão. Se a isto se chamar “dark britannica” ou outra coisa qualquer, parece-me irrelevante.

Artistas como Story, Mary Jane, Sharron Kraus, Charlotte Greig, Alphane Moon, Straw Bear Band, Owl Service, Kitchen Cynics ou Martyn Bates, são nomes habituais nas diversas cenas alternativas. Outros serão porventura ainda mais obscuros. Todavia, todos contribuem para um espantoso conjunto de sonoridades que celebra uma mitologia de inspiração pagã, a qual tanto pode ser servida por uma melodia tradicional/medieval como por linguagem electrónica de matriz esotérica.

Deste confronto de sonoridades, resulta um belíssimo edifício com uma arquitectura própria a partir da qual, doravante, passarão a ser medidas todas as futuras construções em torno do folk tradicional inglês.